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Fronteiras do Pensamento completa 10 anos oferecendo a Porto Alegre um espaço para a troca de ideias

Interessante observar o Fronteiras do Pensamento comemorando sua décima temporada no ano em que o Oxford Dictionaries elege pós-verdade como palavra do ano.

Pós-verdade diria respeito a situações em que "fatos objetivos são menos importantes do que o apelo à emoção e a crenças pessoais na formação da opinião pública".

É sugestiva esta associação entre a "verdade" e a "objetividade" dos fatos. Não é difícil entender o que o Oxford Dictionaries está tentando dizer. Algo na linha do que Weber definiu em seu A Ciência como vocação. A verdade como um ideal normativo da vida intelectual.

Weber fez seu discurso em 1917, na Universidade de Munique. Um de seus alvos era quem fraudava a vida acadêmica e intelectual. O profeta e o demagogo.

Hoje em dia, seria fácil dizer: o "ideólogo", de qualquer matiz. Seu oposto? O cientista pautado pelo rigor do método experimental. O intelectual que sabe pensar com a cabeça fria. O acadêmico ao estilo de Tony Judt: "Quando os fatos mudam, eu mudo a minha cabeça".

Mestre dessas coisas todas foi Camus. Seu personagem Meursault é essencialmente um sujeito que não sabe, e por não saber recusa qualquer tipo de ênfase. No final, ainda recusa a lição de moral de um padre. Sua última chance. Prefere o silêncio e a luz da lua. Sua vitória não deixa de ser um tipo de verdade: a percepção da "suave indiferença do mundo".

No debate com Sartre que se seguiu à publicação de O homem revoltado, Camus recusa a relativização ética em nome de qualquer verdade. Nenhuma ideia vale a morte de um homem. Sartre faz troça, lhe chama de moralista ao estilo cruz vermelha. Trata-se de um debate em aberto. Na semana que passou, vi muita gente justificando a morte em nome de grandes palavras. Nos anos de chumbo, no Brasil, também se justificava a morte, ainda que à sombra de palavras diferentes. Imagino Camus observando essas coisas. O rosto imóvel, ânimo nenhum para replicar. O cigarro acendido, lentamente.

A pós-verdade, por óbvio, diz respeito ao espaço virtual. Diz menos sobre a instabilidade própria a qualquer verdade e mais sobre a bullshit, na conhecida definição de Harry Frankfurt: não propriamente uma mentira, mas aquilo que se diz sem muita preocupação em saber se é verdade ou mentira. Diz também respeito à pequena guerra das "crenças pessoais", ao pensamento rápido, ao mimetismo ideológico, à profusão de certezas que observamos no dia a dia das redes sociais.

Não sei dizer se este mundo selvagem é melhor ou pior do que já foi, no passado recente, a vida intelectual. Escutei tipos muito diferentes, como Vargas Llosa e Zygmunt Bauman, lamentarem que alguma coisa importante se perdeu nesta era de vulgaridade digital. Não sei nada sobre isso.

Vejo muita liberdade misturada nisso tudo. Imagino que as pessoas gostem da vida na selva, mas há horas em que preferem sair um pouco da guerra. Desconectar, ler um livro achado por acaso, em uma livraria, ou assistir a uma longa conferência simplesmente pelo prazer da descoberta.

Muita gente, nos tempos de hoje, se deu conta disso. Diziam que o YouTube e a profusão de palestras disponíveis na internet substituiriam o contato direto com os intelectuais. Nada disso ocorreu. Multiplicam-se cursos, studios, oficinas e conferências, e os intelectuais entraram de cabeça no show business. De certo modo, a atividade intelectual se tornou uma forma sofisticada de entretenimento. Que bom. Alain de Botton criou sermões laicos aos domingos pela manhã, em sua The school of life.

O TED inventou um cabalístico tempo de 18 minutos por conferência, feitas ao estilo de show acústico. Porto Alegre nunca ficou para trás em matéria de inovação. Dia desses dei uma palestra ao meio-dia, em um cinema de shopping, lotado, sobre um tema bastante abstrato, e me perguntava sobre o que motivava todas aquelas pessoas.

Como de hábito, não arrumei uma boa resposta, mas suspeito que era o desejo de colocar um pouco de ordem no caos da informação cotidiana. Dar um tempo, fugir da máquina de dispersão digital. Desligar os celulares e exercitar o hábito de ouvir e refletir. No fundo, é isto que um projeto voltado ao cultivo de ideias oferece. E com Fronteiras do Pensamento não é diferente.

(Via Zero Hora)


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