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Fronteiras Porto Alegre tem últimos pacotes de ingressos disponíveis para venda

Carlo Rovelli abriu o Fronteiras 2017. Foto: Luiz Munhoz
Carlo Rovelli abriu o Fronteiras 2017. Foto: Luiz Munhoz

A segunda conferência da temporada 2017 do Fronteiras do Pensamento acontece nesta segunda-feira (5) em Porto Alegre, e na quarta (7) em São Paulo. O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti farão um debate especial no palco. Lipovetsky, teórico da pós-modernidade e da “hipermodernidade”, produz reflexões sobre a relação das pessoas com o consumo, e o sentimento de vazio causado por esta relação. Eduardo Giannetti, que frequentemente trata da questão da identidade nacional, debate com o francês, trazendo uma perspectiva da realidade brasileira.  

Para assistir ao debate entre Lipovetsky e Giannetti, além das outras seis conferências da temporada 2017, você ainda pode adquirir um pacote de ingressos para o Fronteiras do Pensamento Porto Alegre. Últimos pacotes disponíveis! Em São Paulo, os ingressos já estão esgotados.

Confira as datas das conferências e saiba mais sobre os convidados do Fronteiras Porto Alegre 2017. - ADQUIRA SEU PACOTE DE INGRESSOS

A partir das 14h desta segunda-feira (5), os ingressos estarão à venda diretamente na bilheteria do Salão de Atos da UFRGS, local onde acontecem as conferências.

Em Trópicos utópicos, publicado pela Companhia das Letras em 2016, Giannetti discorre sobre a identidade nacional brasileira, a partir de um viés mais amplo, relacionando entendimentos sobre ciência, tecnologia e crescimento econômico. No livro, o economista reflete sobre duas visões diferentes de busca de soluções para o avanço do Brasil. Segundo Giannetti, os miméticos são aqueles que veem em outros países modelos que o Brasil poderia simplesmente replicar para avançar como nação; e os proféticos acreditam em soluções específicas e completamente novas para alcançar bons resultados. Leia o trecho a seguir, que também está publicado no libreto especial do conferencista.



EDUARDO GIANNETTI – Trópicos Utópicos (Companhia das Letras, 2016)

MIMÉTICOS E PROFÉTICOS

“As nações são todas mistérios, cada uma é todo um mundo a sós”. O Brasil não é diferente. Ao ocidente do Ocidente, descobertos e colonizados por ele, somos no entanto um país de ocidentalização recalcitrante e imperfeita. Ao juízo da fria métrica ocidental o Brasil, se não chega a ser um malogro, não passa de um país medíocre: nossa contribuição à história da ciência e da tecnologia modernas – assim como à filosofia e às humanidades – resume-se a uma dispensável nota de rodapé; o PIB per capita brasileiro, não obstante décadas de obsessão desenvolvimentista, jamais foi além de um quarto ou um quinto do verificado no “mundo rico”; nossos indicadores em áreas críticas da convivência civilizada como educação, saúde, saneamento, habitação, transporte coletivo e segurança dão testemunho de uma nação que adentra o século XXI sem ter enfrentado a contento a agenda social do século XIX. Enquanto os Estados Unidos tomaram a dianteira do mundo moderno, seguros na crença de que o resto da humanidade não sonha senão em chegar onde chegaram e ser como eles são, o Brasil vai aos tropeços, como um passageiro de segunda na autoestrada de uma civilização à qual pertence mas da qual não toma parte no que ela tem de mais nobre e essencial.

Mas, se assim é, há que se perguntar: estamos condenados a isso? O que fazer? Que o enfrentamento das nossas seculares e óbvias mazelas, a começar pelo débil e viciado sistema de ensino básico, e que a conquista de condições de vida digna para todos e de maior equidade sejam imperativos inadiáveis são pontos incontroversos. Mas superar deficiências e atacar pendências, por mais clamorosas, não é o mesmo que afirmar valores. Toda cultura incorpora um ideal de felicidade. Desenvolvimento para quê? Devemos buscar, como nação, a perfeita e acabada ocidentalização que há séculos nos elude? Ou devemos, antes, procurar determinar nós mesmos, à luz do que somos, a nossa própria métrica de sucesso e realização, aquilo que nos distingue, aquilo que tem valor? A que vem o Brasil, afinal, como nação?

A resposta à disjuntiva separa dois grupos bem definidos. De um lado, a visão mimética ou imitativa de que não há o que inventar. “Nós queremos ser como eles”, e seria portanto equivocado, se não ridículo, supor que devemos ter a pretensão de criar uma alternativa original ao modelo ocidental. É o que sugere, por exemplo, Rui Barbosa ao afirmar, citando um líder francês, que, “se, à maneira do escultor, que molda entre as mãos o barro plástico, eu pudesse afeiçoar a meu gosto o meu país, faria dele não uma América, mas uma Inglaterra”; é o que defende o economista Eugênio Gudin – presumivelmente expressando a opinião da maioria dos seus colegas brasileiros – ao propor que “os países da América Latina não precisam criar uma civilização. Ela já foi criada pela Europa nos últimos quatro séculos. Cabe-nos assimilar essa civilização”. Se tudo correr bem, chegaremos um dia a ser como outra nação desenvolvida qualquer – algo semelhante, digamos, a um estado do Sul dos Estados Unidos ou a um país do Mediterrâneo europeu; tudo que nos cabe fazer é seguir o melhor que pudermos a receita e o caminho já trilhados por eles. “Se tivermos racionalidade e competência, chegaremos lá.”

E, no outro polo do espectro, a visão profética ou messiânica de que não podemos nos resignar à condição de cópia canhestra de um mundo caduco ou de coadjuvantes pasmados de um enredo falido. A orientação messiânica aparece com tintas fortes no brado de um personagem de Dostoiévski no romance Os demônios: “Se um grande povo não acreditar que a verdade somente pode ser encontrada nele mesmo […], se ele não crer que apenas ele está apto e destinado a se erguer e redimir a todos por meio de sua verdade, ele prontamente se rebaixa à condição de material etnográfico, e não de um grande povo. Um povo realmente grande jamais poderá aceitar uma parte secundária na história da humanidade, nem mesmo entre os primeiros, mas fará questão da primazia. Uma nação que perde essa crença deixa de ser uma nação”. No contexto brasileiro, a crítica severa do mimetismo e a crença na ideia missional de nós mesmos – “a missão especial do povo brasileiro” – foi defendida com graus variáveis de radicalidade e fervor por, entre outros, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Na visão do pai da antropofagia em “A marcha das utopias”, por exemplo, o Brasil figura como “a primeira promessa de utopia em face do utilitarismo mercenário e mecânico do Norte”: “O Brasil será um dos grandes líderes dos fins do nosso século [XX] e dará à nova ordem humana contribuições materiais e espirituais que não serão excedidas por outros povos, mesmo os que hoje se mostram mais avançados”. O rajar das “metralhadoras de alta indagação” e a deglutição da “cultura europeia caindo de podre” seriam o preâmbulo de um radical acerto de contas coletivo com as incógnitas do nosso destino como nação. “Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou vira nazista”, no dizer messiânico de Jorge Mautner.

Miméticos ou proféticos? Nenhuma das duas posições, creio eu, pode ser integralmente aceita. A abdicação mimética porque ela apequena o Brasil. Nosso país, seria tolo negar, tem muito a aprender e a assimilar do Ocidente. Mas isso de modo algum implica a tese mimética de que somos, ao fim e ao cabo, uma cópia defeituosa ou inacabada do modelo ocidental – uma tentativa imperfeita de algo que simplesmente não estivemos até hoje à altura de alcançar. Se o Brasil não se tornou um rebento bem-sucedido e bem-comportado do clã ocidental é porque ele, em essência, não o quis: porque não estava – e não está – disposto a sacrificar valores que lhe são caros no altar do “sucesso” definido e ditado pela métrica ocidental. A visão profética, por sua vez, parte de uma intuição central justa, mas com frequência embrulhada em erros e por eles sufocada; ela instaura o desafio essencial de ousar e criar, mas beira o fanático e o delirante ao bater pé na “questão da primazia” em escala planetária e ao sustentar a tese exclusivista de que “a verdade” – seja o que isso for – pertence a uma única cultura ou nação – aquela, obviamente, onde o profeta por coincidência nasceu. Miméticos e proféticos almejam outro Brasil. No ideal da perfeita ocidentalização dos miméticos, o Brasil vence o secular atraso e se torna um trecho do Sul da Europa ou do Sul dos Estados Unidos desgarrado em terras sul-americanas: “um país pequeno com horizontes pequenos”, como dizia o rei Leopoldo III da Bélgica sobre o seu reino. No ideal da visão profética, a imperfeita ocidentalização do Brasil, ainda que na origem de tantos males que nos afligem, é também a fonte da nossa esperança e promessa de redenção – a criação de uma civilização tropical soberana, socialmente justa e enfim liberta da tirania de exigências, normas e valores que não são genuinamente seus.