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Insularidade: isolamento e pertença para Leonardo Padura

Foto: Luiz Munhoz
Foto: Luiz Munhoz

“Se você fosse para uma ilha, o que levaria?”

A pergunta é um ponto de partida comum para pensar a questão do isolamento e da falta de alternativas. O que hoje já não é um problema em termos tecnológicos - barcos, helicópteros e aviões de alta segurança podem chegar a locais rodeados por água - foi, durante grande parte da vida de Leonardo Padura, um obstáculo para estabelecer uma conexão maior com o resto do mundo. Nascido e residente em Cuba desde seu nascimento até os dias de hoje, o escritor abordou, em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, a condição insular de seu país, e os efeitos práticos e simbólicos que isso teve em sua trajetória como cidadão cubano e como escritor.

“Esse ciclo de conferências tem entre seus propósitos falar das fronteiras, e como eu venho de uma ilha em que as fronteiras são líquidas, decidi trazer uma conferência sobre esse sentimento que toma todos os cubanos: a insularidade, o fato de viver numa ilha. Sobre como isso afeta, condiciona e até determina a maneira de ser dos cubanos”, explicou Padura.

Em tom poético, o autor de Estações Havana e O homem que amava os cachorros relembrou conterrâneos que também trouxeram grandes contribuições para o campo da literatura desde o século XIX, como Alejo Carpentier, José Maria Heredia, José Martí e Reinaldo Arenas. No histórico de muitos escritores cubanos estão a experiência do exílio e o costume de escrever sobre a sensação de isolamento que a vida numa ilha - ou fora dela, tendo nela sua terra natal - causa em cada indivíduo.

O eixo da fala de Leonardo Padura foi o Malecón, muro de um metro de altura e oito quilômetros de extensão, onde frequentemente os habitantes de Havana sentam para contemplar a vista. “Com orgulho, os havaneiros dizem que é o banco do parque público mais longo do mundo, porque é um costume sentar nesse muro às vezes de frente ou de costas pro mar, e praticar um dos esportes preferidos naquela região: o dolce far niente. Se empenham em olhar pra dentro de si mesmos enquanto observam a superfície plana do oceano”, afirma.

Ainda dá tempo de enviar sua pergunta para o escritor! As questões devem ser encaminhadas para o e-mail digital@fronteiras.com até a manhã desta quarta-feira (23). Uma pergunta será escolhida e respondida por Leonardo Padura no palco do Fronteiras do Pensamento em São Paulo.

A conferência de Leonardo Padura foi, mais do que um relato de sua experiência enquanto escritor cubano, um convite à reflexão sobre o particular e o universal, e uma lição de como transpor esta fronteira mental - muito mais complexa do que qualquer limitação física. “É preciso encontrar o universal nas entranhas do local. Mas como ter acesso ao universal através da convivência contínua e autofágica com o local?”, indagou.