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John Gray responde a Pergunta Braskem: direitos humanos como principal método de avanço social?

John Gray no Fronteiras Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
John Gray no Fronteiras Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

John Gray foi o conferencista desta semana no Fronteiras do Pensamento. O filósofo britânico trouxe aos palcos do Teatro Cetip, em São Paulo, e do Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, a conferência Podemos viver juntos com liberdade?, ampliando a temática do Fronteiras 2015, Como viver juntos. Após sua fala na capital gaúcha, nesta quarta (08), Gray respondeu as perguntas do público. Dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos leitores e seguidores do Fronteiras do Pensamento nos canais digitais. A questão selecionada, desta vez, veio de Maria Célia Detoni. Confira abaixo:

Maria Célia Detoni: John Gray, qual a sua opinião a respeito da crescente legislação sobre os direitos e os modos de viver dos indivíduos?
John Gray: A extensão dos direitos pode ser um fenômeno benigno, uma coisa boa. A vitória jurídica constitucional dos direitos gays, do casamento entre pessoas do mesmo gênero, é uma forma de civilizar os direitos, apoio isso e sou a favor.

Mas, não estou totalmente satisfeito com o uso dos direitos como principal método de avanço social. Por exemplo, recentemente, na Irlanda, e estive lá antes do casamento homoafetivo ser aprovado, isso não aconteceu como resultado de uma decisão jurídica, mas sim através de um referendo. A Irlanda é um país muito católico, foi muito católico no passado, quase hostil à homossexualidade, mas houve votação e dois terços, uma grande maioria, foi a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Existem formas diferentes de se conseguir a mesma coisa. O perigo da solução dos direitos é que eles nem sempre são aceitos. Na América, por exemplo, o aborto teve garantia constitucional durante décadas. Mas, havia um conflito enorme com relação a isso. Os médicos eram assassinados, as clínicas eram bombardeadas. Acho que um excesso de dependência dos direitos é perigoso, porque a existência dos direitos depende de um Estado não tirânico forte.

Então, a ideia da eliminação total da tirania, como aconteceu na Líbia e no Iraque – e as potências ocidentais ainda estão tentando fazer o mesmo na Síria, remover Bashar al-Assad –, acreditando que, se esses tiranos forem eliminados, algo como uma liberdade natural, algo como um desejo de liberdade por parte das pessoas vai surgir. Esta é uma total ilusão.

Existem diversos movimentos poderosos no mundo que não querem os direitos humanos e os direitos humanos não podem existir em um contexto onde a maioria não os apoia. Não podem existir como uma circunstância ou em um contexto onde não haja um Estado em funcionamento.

Direitos humanos são construtos, podemos até chamá-los de ficções que são implementadas e trazidas à tona pelo Estado. Se o Estado for fraco, entrar em colapso, se tornar tirânico ou for dominado por um grupo tirano, ou apoiado por uma maioria contra os direitos humanos, não haverá direitos humanos.

Então, no mundo real, acho que os direitos são muito úteis e civilizatórios, mas, se dependermos demais deles, se acreditarmos que todos os seres humanos querem os direitos e que há uma raiz profunda na condição humana que leva aos direitos, estaremos nos iludindo. A raiz dos direitos humanos está nos regimes e, como eu disse, os regimes e os Estados vêm e vão.


Agradecemos a todos pelo envio das perguntas de todas as partes do Brasil. Sigam colaborando com questões, sugestões e opiniões em nossos canais digitais, patrocinados pela Braskem. Acompanhe as novidades: Facebook | YouTube | Instagram | Twitter | Flickr