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Literatura, individualismo e intolerância: Mia Couto responde a pergunta Braskem

Nesta segunda-feira (3), o moçambicano Mia Couto foi o conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador. Em sua fala, intitulada “Os deuses dos outros”, o escritor falou sobre o seu amor pela cultura brasileira, a influência de Jorge Amado na literatura moçambicana e a emoção que sentiu ao visitar o Memorial Casa do Rio Vermelho, onde o escritor baiano viveu com sua esposa Zélia Gattai. Também mencionou a sua admiração por Caetano Veloso, Maria Bethânia e João Ubaldo Ribeiro.

O autor, um dos principais do continente africano, defendeu a possibilidade de diálogo entre diferentes culturas e religiões. Couto apresentou ao público casos nos quais encontros entre nativos e colonizadores protagonizaram situações de interação, com diferentes resultados. Num deles, um grupo de mulheres aborígenes da Austrália, que disputavam a posse de uma terra com um grupo de empresários brancos, abdicou de preencher a papelada burocrática que lhes foi pedida e apresentou uma dança ancestral em plena audiência, levando o juiz a dar-lhes ganho de causa. O autor  também destacou a interação entre diferentes tempos (o presente e o passado), as nossas raízes como caçadores e a nossa interação com a natureza e o sagrado, algo que, segundo ele, forjou a nossa capacidade de contar histórias.

Outro assunto da conferência foi a situação dos refugiados do continente africano, que fogem da fome e das guerras civis. Mas lembrou que, no Brasil também, existem os refugiados internos, pessoas em situação de risco e marginalizadas, que merecem sua cota de visibilidade. Ele ressaltou que é necessário combater a intolerância religiosa e as forças que, em nome de alguma religião, têm uma intenção claramente política.

Após sua exposição, o escritor moçambicano respondeu às perguntas do público presente no Teatro Castro Alves. Entre elas, estava a Pergunta Braskem, selecionada a partir de questões enviadas pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Desta vez, a pergunta selecionada veio de Rebeca Bulcão. Confira:

Rebeca Bulcão: Nos tempos de individualismo, de “modernidade líquida” e da era da “pós-verdade”, há espaço, fora da ficção, para que sejam ouvidas as vozes situadas à margem?

Mia Couto: Sempre foi assim. Não vejo que houvesse um tempo em que a literatura não fosse algo feito contra à corrente, ou fosse uma atividade de alguém que se colocou em uma margem para mudar o mundo. Quando se coloca numa margem é no sentido de ver o mundo melhor, a partir de um ter um pé dentro e outro fora. Acho que esse espaço sempre foi arrancado à briga. Nunca foi dado a um escritor como uma coisa oferecida de bandeja.

Mia Couto também respondeu a outras perguntas vindas da plateia sobre temas como literatura, religiosidade, África e Jorge Amado. Confira abaixo as principais ideias do autor:

Sobre se tornar poeta

Eu acho que, em minha casa, meus pais me tinham como um retardado. Meus irmãos eram tidos como bons exemplos, que eram capazes de fazer coisas e até se evitava me dar alguma tarefa porque me saía mal, eu esquecia ou perdia. A história é que não havia mais ninguém em casa e me mandaram à padaria, que era algo simples, a 200 metros de distância de casa. Eu fui, e passado uma hora eu não havia regressado e meu pai saiu e me encontrou nos degraus da padaria e perguntou o que eu estava fazendo. Respondi que o padeiro tinha me dito que a próxima fornada sairia em seis horas e eu estava esperando. Para meu pai, que era poeta e me protegia pensando que havia qualquer coisa nesse menino que ia se revelar um dia, isso confirmou que eu tinha uma espécie de doença e, então, fez uma coisa que eu não esqueço: ele me escutou, o que é algo que temos dificuldade de fazer com uma criança [...]. Sentou-se comigo e perguntou o que eu estava fazendo. Respondi que estava vendo as pessoas passarem e inventava histórias para cada um que passava. Meu pai entrou nesse jogo. E ele percebeu que essa sensação de tempo não me pesava e eu via o mundo de outra maneira, provavelmente.

A literatura salva?

A literatura, a mim, salvou. O que me salvou, de fato, foi a poesia. Pois a escola onde estudei era uma coisa muito cinzenta. O que aprendi lá, sobretudo, foi a escapar, a não estar onde eu estava. Já tinha uma certa habilidade, então lembro que ficava em uma sala de aula com uma janela que dava para um pátio. Era um pátio pequeno, mas para mim tinha o tamanho de todo o mundo, era o infinito para mim. Minha avaliação da escola dizia assim “esse aluno nunca faltou, mas também nunca chegou a estar presente”. E quando se chega à adolescência temos que fazer escolhas, eu queria ser tudo, eu queria ser todos e isso confirmava esse lado da normalidade. E eu lia Fernando Pessoa, que foi meu terapeuta. Aquela poesia que dizia “somos todos assim, somos todos cheios de gente, com tanta humanidade contraditória e diversa dentro de cada um” me salvou.

Sobre Jorge Amado

Eu era adolescente quando comecei a ler Jorge Amado. Acho que aconteceu comigo o que aconteceu com todos os outros escritores de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde. Ele acendeu, ali, um desejo de que, afinal, podemos trazer essa gente para dentro dos nossos livros, essa gente que estava nos livros do Jorge era a gente que passava em nossas ruas, era aquele cheiro, era aquela culinária, tudo estava lá. E, sobretudo, ele surgiu num momento em que eu estava tentando romper com aquele português padrão de Portugal, e isso nos ajudou a encontrar outro sabor da língua. Foi um momento mágico.

Sobre ser ateu e possuir religiosidade

Como já confessei, eu sou um ateu não praticante, no sentido de estar disponível a perceber, por exemplo, quando estou integrado em uma cerimônia religiosa, não estou lá para assistir ou conferir veracidade naquilo, não. Estou lá para ser tomado, para ser possuído, para ir até onde puder. Acho que, para mim, o sentimento religioso é produzido, por exemplo, por essa capacidade de me dissolver na beleza, eu vejo, eu sinto, música, eu vejo uma paisagem em um quadro, etc. Nesse momento, agora que já desaprendi aquilo que queriam que eu fosse, posso ficar comovido até as lágrimas perante a beleza. A religiosidade, para mim, é essa capacidade de encontro com aquilo que nos coloca como personagens de um enredo muito maior.

Sobre seu processo de trabalho

Meu processo é caótico. Normalmente começa com um encontro com as pessoas, que são as personagens que constroem a mim e a história. Nesse momento, percebo que há ali uma coisa que faz com que hajam três caminhos, ou isso vai ser poesia, ou vai ser conto, ou se tem uma coisa mais complicada que vai ser um romance.

Sobre saudade

Não sei do que tenho saudades. Já me esqueci. Porque já me esqueci. Tenho saudades da infância porque foi um tempo muito feliz para mim. É como se eu tivesse sido condenado a ter aquela pátria e quem tem pátria é feliz. A infância não tem outra nação, se vive ali sempre. E eu trago muito isso comigo, portanto. Mas tenho saudades dos meus pais, tenho saudades dos meus amigos que morreram na guerra. Não tenho nenhuma hipótese de como se resolve isso, não tenho nenhuma solução. A África, nesse aspecto, tem uma sapiência, que acho que estou impregnado, que é essa ideia de que os mortos não morrem e vivem dentro de nós. Sem isso não sobreviveria, porque alguns amigos foram assassinados durante a guerra de forma cruel.