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Michael Sandel defende: excessos da sociedade de mercado estão corroendo a democracia

"Deixar para cada individuo decidir por si é o argumento do mercado. É um argumento muito poderoso. Mas, creio ser um argumento errado. Se recusar a falar de assuntos polêmicos não é ser neutro, é deixar que os mercados decidam por nós." Michael Sandel no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

O filósofo político norte-americano Michael Sandel lotou o Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, em uma conferência atípica para o Fronteiras do Pensamento, mas padrão para o formato de suas aulas. A partir do método socrático, que o tornou mundialmente conhecido como o maior professor do mundo, Sandel debateu questões da sociedade brasileira com o público de mais de 1.500 pessoas.

Muito bem informado sobre o que se passa no país, o convidado abordou Copa do Mundo, salário de jogadores de futebol e professores, além dos problemas gerados pela corrupção que, para ele, é o primeiro obstáculo para uma sociedade justa: "O dinheiro perdido pela corrupção brasileira é 2% do PIB. 50 bilhões de dólares por ano. O estádio de Brasília custou três vezes mais do que o orçamento original. Isso é um desafio ético, não apenas legal."

De acordo com Sandel, este primeiro obstáculo gera danos além dos materiais e tais prejuízos são ainda mais perigosos: "Muitas vezes, achamos que os importantes danos causados pela corrupção são o dinheiro perdido e os fundos públicos mal direcionados. Mas, há outro custo – moral e cívico – na corrupção: a corrupção corrói a confiança e a democracia precisa de confiança entre os cidadãos. Mais ainda, a democracia precisa de confiança entre cidadãos e funcionários públicos. Um dos efeitos mais danosos da corrupção nem é o dinheiro, é o ceticismo que ela causa."

Existe justificativa moral para a diferença entre o salário de Neymar e de um professor? É correto que cambistas vendam ingressos mais caros? Sandel convidou o público a debater realidades na agenda do país. Mãos estendidas, opiniões e argumentos ouvidos, Sandel apontou um padrão entre as questões: independente da situação, o que se via era a defesa da liberdade individual enquanto liberdade de mercado ou a defesa de algum valor moral que diga onde o mercado pode atuar na sociedade. "O que aconteceu aqui entre nós vai ao cerne das perguntas que enfrentamos nas democracias atuais. Uma maneira de pensar sobre mercados nos diz que a opção individual é importante, mas não mais importante do que as decisões morais que tomamos e defendemos ao decidir qual contribuição daremos para o bem social."

Esta tem sido a grande discussão de Sandel pelo mundo, tema de sua mais recente obra, O que o dinheiro não compra – os limites morais do mercado (2012). Sandel defende que os valores individuais estão sendo governados por valores de mercado. Isso traz graves e complexos problemas. Mercados regendo relações sociais distancia a sociedade ao comercializar as coisas boas da vida. Torna os desfavorecidos separados da convivência social e, assim, incompreendidos por aqueles que podem comprar não apenas bens materiais, mas tempo de espera em filas, locais privilegiados e serviços de saúde.

As realidades vão se afastando e a identificação é prejudicada. Não há mais reconhecimento de comunidade: "Uma lacuna grande demais entre ricos e pobres pode solapar o sentido de comunidade. O sentido de que estamos engajados num projeto comum e esse sentido de comunidade é o sentido de responsabilidade, um aspecto importante da democracia."

E a democracia está se perdendo nesse processo, alertou Sandel. "Em todos os lugares do mundo, as pessoas estão frustradas com a democracia, com os partidos políticos e suas alternativas. Esta frustração não é algo desconhecido aqui no Brasil. Há vários motivos para a frustração. O discurso público e os assuntos políticos são debatidos são cada vez mais vazios. O discurso político não tem propósito moral. As pessoas esperam que os políticos nos permitam falar sobre assuntos que nos importam. Há muito poucos assuntos que importam na política atual. É um discurso tecnocrata que não escuta."

A sociedade está se esvaziando como um todo. Relações sociais e políticas apartadas de um sentido maior: "É um vazio moral. Uma tendência de não se envolver e falar sobre valores."

Realidades separadas, corrida por benefícios pessoais e outro reflexo disso é a não participação em grandes temas que causam confrontos ou polêmicas. É a tendência de escapar dos conflitos que ensinam o indivíduo a lidar com a diferença que compõe a sociedade.

"As pessoas fogem dos debates éticos. Isso não é apenas culpa dos partidos políticos, é um hábito muito ruim que tomou os cidadãos. Deixamos de falar de coisas polêmicas porque discordar é incômodo. Deixar nossas convicções de lado quando falamos de assuntos polêmicos parece ser a solução para este problema."

Uma solução que, para o professor, agrava ainda mais o desafio: "Deixar para cada individuo decidir por si é o argumento do mercado. É um argumento muito poderoso. Mas, creio ser um argumento errado. Se recusar a falar de assuntos polêmicos não é ser neutro, é deixar que os mercados decidam por nós."

Se a sociedade reclama de uma política vazia que não representa as necessidades do povo, se ela desconfia dos governantes e repele tudo aquilo que não compreende, Sandel defende que todas estas questões têm uma causa em comum e um caminho em comum:

"Precisamos elevar o tom da política. Precisamos de um novo espírito e disposição para nos envolvermos em debates sobre justiça, mercados e comprometimento entre os cidadãos. Não porque iremos concordar, mas porque nos engajarmos diretamente com as convicções morais e espirituais que todos temos, entrarmos em desacordos e desavenças criará atitudes cívicas que valem a pena – como a arte de ouvir, uma arte democrática importantíssima que foi esquecida."