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O elo entre cubanos dentro e fora do Malecón: Leonardo Padura responde à Pergunta Braskem

Um dos únicos países comunistas do mundo atual, carregada de forte simbologia por sua proximidade dos Estados Unidos, a pequena ilha de Cuba abriga mais diversidade - de opiniões, culturas e histórias - do que se pode imaginar vendo de fora. Situada em pleno Caribe, a cerca de 150 quilômetros de Miami, nos Estados Unidos, Cuba tem um regime político que divide opiniões na comunidade internacional, desperta a curiosidade dos turistas, e causa controvérsia dentro do próprio país.

A circunstância de ser um pequeno país resistindo em um sistema de governo quase extinto no resto do mundo, além das características do próprio regime, deram aos cidadãos de Cuba muitas restrições em termos de consumo, comunicação e mobilidade. Foi neste último ponto, essencialmente, que o escritor cubano Leonardo Padura tocou durante sua conferência no Fronteiras do Pensamento 2017. Padura situou o isolamento físico da ilha - e de seus habitantes - em termos geográficos e políticos, como algo decisivo para a formação da mentalidade e da cultura cubanas.

Desde os anos 1960, conforme explicou o escritor cubano, a saída dos cidadãos do país é estritamente controlada. Em raros casos, ganhava-se o direito de viajar. Na maior parte das vezes, adotava-se uma política de confisco de bens e retirada de direitos cidadãos, fazendo com que muitos dos que fossem não pudessem mais voltar. Ainda assim, cerca de 20% da população saiu do país desde então. Desde 2013, o sistema foi flexibilizado, e tornou-se viável a qualquer cidadão - com passaporte em vigor, visto do país de destino e condições financeiras - deslocar-se para qualquer lugar. “Esta nova conjuntura foi aproveitada por muita gente para sair, mas fez com que outras pessoas olhassem de forma diferente para as centenas de metros do muro do Malecón”, afirmou Padura.

O Malecón, muro de oito quilômetros de extensão que divide Havana - capital de Cuba - do mar, foi elemento central da fala de Padura no Fronteiras do Pensamento. Após a conferência, ele respondeu às questões da plateia, e também à Pergunta Braskem, enviada pelo público dos canais digitais do projeto. Leia abaixo a resposta do escritor cubano sobre as relações entre os cidadãos de seu país, em meio às grandes divergências que marcaram a história de Cuba.


Assim como p poeta inglês John Donne, o escritor israelense Amós Oz também afirma que nenhum homem é uma ilha. Que as pessoas devem ser penínsulas, virando para o mar para interagir com outros ou voltando-se para o continente para isolar-se. Neste sentido, e levando em conta a insularidade e a maldita circunstância da água por todos os lados, como o senhor vê o convívio de cubanos entre si, com o governo agora e com os outros países?

Bom, essas são perguntas que tomariam mais tempo para responder, na verdade esta é uma pergunta múltipla. Vou me concentrar em algo que me parece muito importante, que é o futuro de Cuba com a necessidade de convivência entre os cubanos que vivem dentro e os que vivem fora. Creio que unicamente pode haver esse futuro pra Cuba com a participação de todos. Há uma velha máxima de José Martí, herói da independência de Cuba, que dizia que a independência tinha que se dar com todos e para o bem de todos, e acredito que esse futuro vai ser com todos e para o bem de todos. Muitas vezes há, dentro e fora do Muro do Malecón, sentimentos como o ódio, o rancor, desejos de vingança e negação ao diálogo, e acredito que esse seja o pior que pode acontecer a Cuba, pois somente com uma aproximação, um entendimento na convivência… eu falava disso há pouco como uma algo global, algo universal, essa necessidade de dialogar, de se entender, de se aproximar, de ser fraterno. E no caso cubano, claro que eu reafirmo isso como uma necessidade essencial.

Creio que felizmente, nos últimos quinze ou vinte anos, com uma nova geração de cubanos que saem de Cuba e vivem em sua maioria em Miami, essa percepção tem mudado, e esse ódio profundo tem desaparecido. Fazendo apresentações em Miami, em locais como universidades, livrarias, centros culturais, todo o público sabendo que vivo em Cuba e não quero sair de lá, como eu sempre digo nas conferências, tenho recebido provas de respeito, admiração e carinho de muitíssima gente. E isso me faz acreditar que possa haver realmente o entendimento necessário entre os cubanos. Sempre vai haver uma minoria que carrega esse ódio, mas se a maioria é fraterna, acredito que podemos vencer esta batalha.