Voltar para Notícias

Os olhos do mundo na França

Uma semana antes do atentado à revista Charlie Hebdo, Michel Houellebecq disse ao jornal El País, da Espanha, que a França estava tentando sobreviver desesperadamente. O contexto era real, mas diferente agora. Houellebecq falava dos caminhos que a Europa está seguindo e do quanto a França tenta correr para outro lado. O escritor falava de seu mais recente livro, Soumission [Submissão] que, na última quarta-feira, quando um grupo de jihadistas invadiu a redação da revista francesa Charlie Hebdo, foi tema de capa da edição lançada naquele dia.

Dias antes, Houellebecq afirmava que "não está claro do que se supõe que devemos ter medo, se dos nativistas ou dos muçulmanos". Depois de também ver seu nome no centro dos debates acerca da motivação para o atentado – que ainda atingiu outras localidades de Paris – Houellebecq cancelou os eventos de lançamento de Soumission, cancelou as entrevistas e precisou se afastar do país. Para a Charlie Hebdo, Soumission é um golpe de mestre. Aquela quarta-feira, foi mesmo um golpe para os franceses.

Edgar Morin, um dia após o ataque à revista, disse que a França – assim como sua natureza secular voltada à liberdade - foi atingida em seu coração. O sociólogo francês pergunta, em artigo publicado no jornal Le Monde: "é preciso deixar que a liberdade ofenda a fé dos seguidores do islamismo degradando a imagem do seu Profeta, a liberdade de expressão se sobressai sobre todas as outras considerações?". Para Morin, o massacre ocorrido em Paris na última semana assinala a erupção no seio da sociedade francesa da guerra do Oriente Médio, onde a nação ocidental fez aprendizes de feiticeiro.

O escritor britânico Salman Rushdie defende a sátira e diz que a religião é uma forma medieval de reação, principalmente quando combinada com armamento moderno. "Isso faz com que ela [a religião] seja uma ameaça real as nossas liberdades".

No Twitter, Daniel Dennett chamou os terroristas responsáveis pelos atentados em Paris de "garotos estúpidos intoxicados pela religião". Ao analisar a religião como motivadora dos atentados, Michael Shermer afirma que o problema da violência é político e não apenas cometido em nome de uma crença. O islã chama a atenção, segundo ele, porque há mais pessoas fazendo isso em nome da religião nesse momento. No entanto, Shermer lembra que a ideologia já matou milhões de pessoas e nem sempre em nome de uma religião, embora Stalin e Hitler também não tenham iniciado suas guerras em nome do ateísmo.

Comovido, Fernando Arrabal lembrou do amigo Cabu, um dos cartunistas assinados da Charlie Hebdo. No entanto, em tom de ironia, escreveu: "Peço que seja atribuído a eles [os mortos no atentado] o título póstumo do Prêmio Nobel da Paz."

Em artigo, Michel Onfray, diz a partir da última fatídica quarta-feira, o mundo entrou, infelizmente, em uma nova era. "Quando os assassinos morreram, mais três tomaram seus lugares e assim sucessivamente. E agora?", escreveu. O filósofo classificou ainda os episódios que aconteceram na França como "o triunfo do slogan e a morte do pensamento".

Depois de sair da Charlie Hebdo, os terroristas encontraram um policial já agonizando. Ele levantou uma das mãos quando viu Amedy Coulibaly, que invadiu o mercado judeu Paris e matou outros quatro reféns. O policial era Ahmed Merabet, muçulmano também, assim como os assassinos. Sua morte foi gravada e amplamente divulgada. Rapidamente, se tornou símbolo da crueldade dos ataques. Assim como surgiu o chamado #jesuischarlie, bandeiras com #jesuisahmed tomaram as manifestações que aconteceram na França neste domingo. Timothy Garton Ash apontou que o #jesuisahmed é um complemento ao #jesuischarlie uma vez que os dois, de formas diferentes, viviam suas liberdades.

Pela manhã deste domingo, Edgar Morin voltou a comentar o episódio da França e apontou que "a intolerância foi a doença do catolicismo, o nazismo foi a doença da Alemanha e o fundamentalismo é a doença do Islã".

Todos os olhos estão voltados para a Paris desde a última semana. Por toda a França, marchas reforçaram os ideais do país: liberdade, igualdade e fraternidade. Mais de 2,5 milhões de pessoas, todas diferentes entre si, mas todas buscando o retorno desses ideias não apenas na França, mas em todo o mundo.

Michel Houellebecq, Edgar Morin, Salman Rushdie, Daniel Dennet, Michael Shermer, Fernando Arrabal, Timothy Garton Ash e Michel Onfray foram conferencistas do Fronteiras do Pensamento ao longo dos 8 anos do projeto.