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Pensar o contemporâneo: rede de transformações

As mudanças na configuração de movimentos sociais, religiões e política são alguns dos temas abordados nas conferências reunidas no livro Pensar o contemporâneo, terceiro da série Pensar. Leia a resenha da obra por Paulo Hebmüller, para o Jornal da USP:

Era uma terça-feira do emblemático junho de 2013: no Teatro do Complexo Ohtake Cultural, o sociólogo espanhol Manuel Castells falava à plateia sobre temas que aborda em livros como Redes de indignação e esperança e A sociedade em rede. Não fugiu às suas observações o fato de que, não longe dali, se desenrolava na capital paulista mais uma das manifestações de rua que marcaram aquele mês. "Se é certo que os movimentos em rede sempre nascem na internet e que partem de uma reação emocional a algo que se considera intolerável, eles se convertem em movimento mediante a ocupação do espaço urbano e, por conseguinte, não existem somente na rede.

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Originalmente ocorre a combinação entre o espaço público na rede e o espaço público na cidade", disse Castells. "O que acontece é que há uma interação constante entre o físico e o cyber espaço, entre os dois tipos de organização em rede que constituem uma nova forma de espaço público que é o que chamo de espaço da autonomia."

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A efervescência das questões levantadas nas manifestações que tomaram as ruas de muitos países e foram discutidas pelo professor espanhol caracteriza também a escolha dos temas propostos pelo projeto Fronteiras do Pensamento, criado em 2007 em Porto Alegre e que desde 2011 é realizado também em São Paulo. Pensar o Contemporâneo é justamente o título do terceiro livro da série publicada pelo projeto em parceria com a editora gaúcha Arquipélago. Religião, revoluções morais, movimentos sociais e as transformações que a internet traz em áreas como a cultura e a política são alguns dos assuntos abordados nos textos, editados a partir das conferências dos convidados do Fronteiras.

Entre eles está o historiador italiano Carlo Ginzburg, autor de livros como O queijo e os vermes. Para Ginzburg, se tomada ao pé da letra, a afirmação de que a internet é um instrumento democrático é falsa. "A internet é um instrumento potencialmente democrático", corrige. E justifica: "No atual momento, o lema da internet está encapsulado nas palavras politicamente incorretas de Jesus: 'a quem tem, mais será dado' (Mateus 13, 10-12). Em vez de reduzir as distâncias atreladas à hierarquia social, a internet as exacerba. Para levar a cabo uma pesquisa navegando na web, nós precisamos saber como dominar os instrumentos do conhecimento: em outras palavras, nós precisamos dispor de um privilégio cultural que, posso dizer com base na minha própria experiência pessoal, é como uma regra ligada ao privilégio social".

O autor também chama a atenção para o fato de que o Google é ao mesmo tempo "um poderoso instrumento de pesquisa histórica e um poderoso instrumento de cancelamento da história – porque, no presente eletrônico, o passado se dissolve". Essa contradição, continua, já está modificando o mundo no qual vivemos e no qual viverão as gerações futuras: "O presente do mundo e o futuro se tornaram mais frágeis, e o passado também; pelo menos o passado na visão dos historiadores".

Que mundo? – Transformações são ainda o tema de Luc Ferry – filósofo e ex-ministro da Educação da França – e de Leymah Gbowee, ativista liberiana e Prêmio Nobel da Paz em 2011. Para Ferry, ao longo da história do Ocidente as pessoas se dispuseram a morrer por três causas (ou figuras do sagrado): por Deus, pela pátria e pela revolução. Em sua visão, as gerações jovens do Ocidente não estão mais dispostas a morrer por elas, e assistimos ao nascimento de uma nova figura do sagrado em rosto humano. "A grande questão nova é a questão das gerações futuras, isto é, a questão 'que mundo nós, os adultos, tomaremos a responsabilidade de deixar para os nossos filhos?'", pergunta. "Isso muda a vida política e coletiva."

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Leymah fez um relato de sua trajetória de vida e de seu papel como uma das lideranças a contribuir para o fim da segunda guerra civil da Libéria, em 2003. "O que aprendi quando me engajei e comecei o meu trabalho de ativismo foi o fato de que você não pode abrir mão de algo que não tem. Você não pode dar paz às pessoas quando não tem paz. Você não pode oferecer não violência quando os seus pensamentos estão repletos de violência. Você não pode curar se não tiver passado por um processo de cura", testemunha.

Pensar o contemporâneo traz ainda as conferências de Kwame Anthony Appiah e Christopher Hitchens, além de uma entrevista com o filósofo francês Michel Onfray, que volta a atacar o legado freudiano ("Freud se esgotou, chegou ao fim; ele tem seus méritos, soube cristalizar uma certa época, e é normal que esteja ultrapassado"), como fez perante a plateia em 2012.

A edição deste ano do Fronteiras do Pensamento começa no dia 14 de maio, com a conferência do escritor Salman Rushdie (veja mais informações sobre Porto Alegre e São Paulo), e terá, como nos anos anteriores, a cobertura do Jornal da USP.

Pensar o contemporâneo, organizado por Fernando Schüler e Eduardo Wolf (Arquipélago Editorial, 208 págs., R$ 35,00).