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Potencializando iniciativas humanitárias: Graça Machel responde à Pergunta Braskem

Ao pensar a civilização, devemos sempre ter em mente a pluralidade histórica e cultural das tantas sociedades que coexistem no mundo. Compreender e acolher a diferença de origens, formações e expressões de cada região, e dentro disso, de cada país e indivíduo, é essencial para se alcançar uma convivência pacífica. No entanto, o desenvolvimento dos países e culturas pode ser pensado, mesmo reconhecendo a diversidade, de maneira coletiva, curiosa e colaborativa.

Graça Machel, terceira e última conferencista do ciclo de 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento, em Salvador, falou nesta terça-feira (5) sobre seus valores e trajetória na defesa dos direitos humanos. Os muitos pontos em que a ativista tocou - raça, gênero, migrações, vulnerabilidade social - se unem em uma certeza, reiterada por ela: nós nascemos iguais e completos, e devemos nos conectar para potencializar o alcance de nossas ações.

A desigualdade de gênero, o racismo, a xenofobia e a pobreza, problemas enfrentados em diversas partes do mundo, sempre com suas particularidades locais, devem ser combatidos, para Graça Machel, através da atuação de organizações. Ao longo da conferência, a ativista e intelectual afirmou que trabalhar em prol de crianças e mulheres não é um trabalho especialmente difícil, contanto que as pessoas saibam unir suas forças, capacidades e potenciais.

Após sua fala, Graça Machel respondeu às questões do público do Teatro Castro Alves, e também à Pergunta Braskem, enviada pelos usuários através dos canais digitais do Fronteiras do Pensamento. Confira abaixo algumas das ideias da ativista moçambicana a partir de sua resposta.


De que maneira o seu trabalho com o empreendedorismo das mulheres e a educação das crianças pode ser um modelo para países em desenvolvimento como o Brasil, especialmente para as comunidades mais carentes? Como dar o primeiro passo hoje, sem esperar a ajuda governamental ou de uma instituição já consolidada?

Eu tenho muitas lições a aprender do Brasil, não somos nós que temos lições a dar. Somos uma pequena contribuição. Mais uma vez, baseado naquilo que acabei de dizer, eu acredito muito nas pessoas, na capacidade das pessoas. Contribuir para organizar mulheres, jovens, pessoas que se concentrem em melhorar as condições de vida das crianças não é uma coisa extremamente complicada. E não somos só nós que estamos fazendo isso. Aqui mesmo existem várias iniciativas muito bem-sucedidas, mas sabe qual é o problema? São iniciativas pequenas, que são boas, mas o impacto seria muito maior se nós nos conectássemos. Volto a falar dos movimentos. Se as experiências que o Brasil e outros países da América Latina estão fazendo se transformassem num grande movimento, utilizando as ideias positivas que são desenvolvidas por diferentes grupos, quebrando a fragmentação, acho que poderíamos ter um grande impacto.

Agora, em relação ao que foi perguntado: como as nossas experiências podem influenciar o Brasil? Não, a questão é como as nossas experiências podem se influenciar mutuamente: o que se faz no Brasil, no continente africano, na Europa. Há muitas pessoas boas trabalhando pelo bem-estar dos outros. O que está acontecendo é que se está trabalhando de uma maneira muito fragmentada, então temos que nos conectar. Se nos conectarmos, nós vamos fazer movimentos sociais que vão transformar efetivamente, vamos aprender uns com os outros e vamos ter melhores resultados.

Hoje à tarde, a senhora fez uma provocação muito interessante no final da entrevista sobre a necessidade de nós, brasileiros, e particularmente os baianos, visitarmos mais frequentemente a África, e particularmente Moçambique. Houve um período recente no qual o Brasil se aproximou bastante do continente africano, o período da gestão do presidente Lula foi marcante nesse aspecto. Mas nós, brasileiros, não temos muito a tradição de cooperação, especialmente com a África. Às vezes inclusive confundíamos negócios empresariais com cooperação. E os africanos têm uma tradição de cooperação muito forte, tanto dentro do continente quanto com relação à Europa. Como a senhora indicaria que nós, brasileiros, como organizações, como sociedade civil, pudéssemos ser mais cooperantes com o continente africano, tendo em vista a própria composição da nossa população, e em parte, a nossa origem?

Ontem foi um dia bom pra mim. Eu estava em São Paulo, e de manhã visitei uma exposição na Casa Bordada, uma experiência muito bonita com a grande diversidade de bordados que se faz aqui no Brasil. É um senhor que eu conheço que trabalhou há algum tempo conosco. E eu fui visitá-lo e disse a ele: “agora você vai levar isso a Moçambique”. Nós já concordamos que ele vai a Moçambique ainda este mês, e nós vamos fazer disso uma experiência de troca anual, trazendo moçambicanos para São Paulo, e levando brasileiros para lá.

Depois, eu fui visitar uma organização chamada Todos pela Educação. Eu queria compreender as experiências que se está desenvolvendo neste setor. Depois de alguns minutos de intercâmbio, decidimos que em março levaremos este projeto a Moçambique.

À noite, depois de uma conversa que tivemos justamente sobre o Fronteiras do Pensamento, havia um grupo de jovens que veio falar comigo, e pensei: ano que vem nem Mia Couto nem Graça Machel virão para o Brasil. Vocês é que deveriam ir para lá, e podemos fazer o Fronteiras do Pensamento em Moçambique. O que eu quero dizer com isso? Não é preciso muito! O que vocês fizeram para que o Fronteiras do Pensamento acontecesse? Convidaram Mia Couto, ele esteve aqui. Convidaram Graça, eu estou aqui. Agora, eu já mandei dizer ao Mia que tomamos esta decisão sem ele, e que no próximo ano ele é que vai receber o Fronteiras do Pensamento em Moçambique.

Você está me perguntando o que é preciso fazer para cooperar: muito simples, é só organizarmos. Somos nós, pessoas, que temos que nos conectar, nos abraçar, trocar, enriquecer uns aos outros.