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Sentir-se um pecador é uma ótima maneira de não se tornar um idiota

"É como se as religiões soubessem que aquele sentimento de que deveríamos ser inocentes e bondosos o tempo todo não ajuda se estamos tentando nos tornar pessoas melhores. Paralisa-nos com culpa sobre nossos fracassos, impedindo que nos analisemos com padrões de integridade impossíveis de tão altos. Torna-nos hipócritas."

The Philosopher's Mail, site patrocinado pela instituição de ensino The School of Life, do escritor suíço Alain de Botton, prefere se definir como uma "organização jornalística que acredita que notícias demais são ruins para nós". Optando pelo aprofundamento das situações em vez dos fatos que as constituem, o Philosopher's mail debate eventos que ocorreram pelo mundo com viés filosófico. Editado por Richard Addis, ex-editor do jornal britânico The Daily Mail, os artigos são escritos por filósofos associados à The School of Life como Damon Young e John Armstrong – mesmo que as assinaturas não constem nos textos.

Em recente matéria, o tópico foi a Quarta-feira de cinzas. O texto defende que a tradição cristã de reconhecer que o ser humano tem defeitos e que deve se desculpar por isso é um ponto de partida mais interessante para se desenvolver moralmente do que certas linhas de pensamento que propõem que somos todos bons e talentosos, envolvendo-nos em culpa paralisante por não conseguirmos sê-lo o tempo todo. Leia, abaixo, a tradução do Philosopher's Mail e leia o original neste link:

"Sentir-se um pecador é uma ótima maneira de não se tornar um idiota" | A sociedade moderna frequentemente nos diz que devemos nos sentir bem sobre nós mesmos. A baixa autoestima está fora de moda. Deveríamos estar celebrando nossa bondade, talento e potencial. Chega de nos sentirmos envergonhados sobre quem somos e sobre o que fazemos.

Religiões não poderiam concordar menos. Todas elas extraem momentos de nossos dias para que façamos um balanço das coisas ruins que possivelmente praticamos, toda maldade impensada e indiferença pela qual somos responsáveis – e, então, solicitam que nos desculpemos. Deveríamos observar nosso comportamento e fazer a coisa mais incomum e pré-moderna: expiação, isto é, pedir desculpas por termos sido monstros discretos nos últimos meses.

Recentemente, os cristãos ao redor do mundo marcaram a Quarta-feira de cinzas; o momento central da expiação do ano. Crentes buscam um padre e recebem uma cruz, desenhada em suas testas com cinza fabricada a partir de palmeiras. É um símbolo público do comprometimento que temos em nos desculparmos pelas coisas ruins que fazemos, um sinal de que entramos em um período de reflexão e desculpas. É um ritual profundamente útil e fascinante, do qual as camadas mais satisfeitas do mundo secular poderia aprender muito.

Religiões aceitam que todos somos ruins: somos todos tentados a enganar, roubar, insultar, egoisticamente ignorar os outros e ser infiel grande parte do tempo. A questão não é se experimentamos tentações chocantes ou praticamos coisas maldosas, mas sim se somos capazes de, quando em quando, estarmos acima de nossos lados ruins, reconhecê-los e nos desculparmos.

Um convite público para a expiação deve nos encorajar ao desenvolvimento moral. A Quarta-feira de cinzas nos ensina que nossos defeitos são fatos inevitáveis da humanidade e que, portanto, devemos admiti-los com honestidade e tentar repará-los à luz do dia.

É como se as religiões soubessem que aquele sentimento de que deveríamos ser inocentes e bondosos o tempo todo não ajuda se estamos tentando nos tornar pessoas melhores. Paralisa-nos com culpa sobre nossos fracassos, impedindo que nos analisemos com padrões de integridade impossíveis de tão altos. Torna-nos hipócritas. É muito melhor que nos digam que somos todos ruins, passíveis de sermos maldosos e indiferentes e que, então, nos peçam para nos desculparmos – do que se apegar a ideias de pureza original.

Confissões de pecados universais, simbolizados pela cruz negra na testa, acabam sendo um ponto de partida muito melhor em direção aos primeiros passos para sermos uma pessoa boa. Pensar que somos grandes e bondosos o tempo todo simplesmente não é uma boa base para sê-lo. Independentemente do que você pensa sobre religiões, elas compreendem esta parte da psique muito bem.