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Sociedade do consumo e cultura da leveza são temas de debate especial no Fronteiras do Pensamento

Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti no Fronteiras Porto Alegre
Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti no Fronteiras Porto Alegre

Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti uniram, na noite desta segunda-feira (5), perspectivas filosóficas, sociológicas, econômicas e ambientais sobre a sociedade contemporânea e sobre o que os pensadores definiram como culto à leveza. Em debate especial no Fronteiras do Pensamento 2017, o filósofo francês e o economista brasileiro procuraram responder à questão que deu nome à segunda conferência do ano do projeto: Somos a civilização da leveza?

Lipovetsky, que publicou em 2016 o livro Da Leveza, abriu o debate com uma fala sobre o paradoxo que considera essencial para compreender a sociedade atual. Segundo ele, a sociedade de consumo que surgiu após a Segunda Guerra Mundial não é a mesma que vemos nos dias de hoje. “Eu chamo esta era de hiperconsumo. Ela se caracteriza pela excrescência de todas as coisas: produtos, marcas, publicidade. Isso faz com que cada vez mais as experiências da nossa existência sejam tomadas numa lógica de pagamento e troca”, explicou o filósofo.

Para ele, há um contraste entre a rotina pesada, dura e intensa do trabalho, e a busca pela leveza em todos os níveis – lazer, viagens, entretenimento e prazer -, sempre relacionada ao consumo. As atividades mais básicas do nosso cotidiano – comer, dormir, conversar, correr – seguem hoje em dia uma lógica de mercado. “Até mesmo as festas religiosas, de celebração da espiritualidade, acabaram se vinculando à dimensão da compra”, completou Lipovetsky.

Você ainda pode enviar uma pergunta aos conferencistas pelo e-mail digital@fronteiras.com. A questão selecionada será respondida diretamente do palco do Fronteiras do Pensamento em São Paulo nesta quarta-feira (7) e divulgada em nossos canais digitais, patrocinados pela Braskem.

Já o economista Giannetti desenvolveu sua fala procurando situar o consumo na crise civilizatória atual. Buscando complementar a fala de Lipovetsky, ele colocou a leveza como contraponto ao sentimento de peso da existência no século XXI. Giannetti partiu de uma proposição do Papa Francisco, a respeito da relação entre os “desertos externos” e os “desertos internos”. Desenvolveu, então, uma crítica centrada na crise ambiental, de um lado, e na crise da psiquê humana, de outro.

Os dois pontos seriam, conforme o economista, simultaneamente consequências e causas da lógica de hiperconsumismo dos dias de hoje, já que o indivíduo consome, também, como válvula de escape para um vazio encontrado no peso do cotidiano. “A corrida por bens posicionais deflagra uma espiral que não tem fim. Se deflagram novas possibilidades que vão conferir aos que os obtêm um lugar de honra na mente de seus semelhantes. É um tipo de escassez que nunca será vencida”, afirmou Giannetti.

Após as falas, os dois conferencistas responderam às perguntas do mediador - o jornalista Roger Lerina, do Grupo RBS - e da plateia. As questões colocadas guiaram o debate desenvolvido pelos convidados, que trouxeram visões diversas de possíveis soluções para o consumo desenfreado.