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Mario Vargas Llosa

A América Latina e a liberdade

Na abertura da temporada 2016 do ciclo de conferências, Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, apresentou ao público do Fronteiras do Pensamento um relato reflexivo de sua trajetória e da formação do seu posicionamento político-ideológico. Na conferência o escritor relembrou momentos marcantes de sua evolução cívica, política e ideológica. “Como sou um escritor, um contador de histórias, a conferência desta noite será uma história. Uma história pessoal. Não inventada. Uma história vivida, que poderia se chamar Da utopia à realidade", iniciou.

Já aos 14 anos de idade, se deparadou com a questão da desigualdade social, a percepção de que no Peru havia poucos ricos e muitos pobres, com diferenças econômicas gritantes, injustiças, relações de exploração, com formas de vida cômodas contrastando com a rudeza da vida da maioria dos peruanos. Era o período da ditadura militar peruana sob o comando do general Manuel Odría, que durou oito anos, quando Llosa leu La noche quedó atrás de Jan Valtin. A autobiografia trazia sua trajetória como militante do partido comunista na Alemanha na época do Nazismo, quando os comunistas eram perseguidos com voracidade.

“Eu era um grande leitor de livros de aventura – eu ficava fascinado pelas aventuras –, e essa era uma aventura vivida, de alguém que havia arriscado a vida em um país que os comunistas eram aprisionados, torturados e executados por um ideal. Um ideal de construção de uma sociedade em que não houvesse exploradores e vítimas e reinaria a fraternidade, a justiça e a verdadeira liberdade", relembrou, ressaltando que isso lhe deu uma imagem do comunismo, como a possibilidade de trazer o paraíso para a Terra.

Contrariando os desejos da família, Vargas Llosa procurou cursar uma faculdade na qual houvesse um movimento político. “Se houvesse comunistas no Peru, eu os encontraria na Universidade de San Marcos", discorreu. Aquela instituição era o local para onde se dirigiam os pobres, os humildes e na qual se fazia política, ainda que clandestinamente, inclusive se posicionando contra a ditadura. Nesse contexto se destacavam dois partidos: o Apra, socialista, e o comunista, então um partido bem pequeno. Entre os 15 e 16 anos, Llosa militou pelo partido comunista, que estava em reconstrução. Bastante sectário, dogmático e fechado, com um marxismo de afirmações contundentes, mas também excludentes. Era um marxismo de bases francesas, com destaque para as lições de Georges Politzer, que representavam o espírito fechado stalinista. Havia muitas discussões, acirradas, e ele enfrentava o dogmatismo por meio de leituras não comunistas, como os escritos existencialistas de Sartre, Camus e Gabriel Marcel, e a fenomenologia de Merleau-Ponty. “Essas leituras me protegeram muito dessa visão esquemática e dogmática do marxismo do grupo", salientou.

O afastamento do partido acabou sendo seu caminho, mas não deixara de ser um jovem de esquerda, ainda que rechaçasse um dogmatismo ideológico. “O que me manteve na esquerda foi Cuba, a Revolução Cubana", argumentou. Na época, o país ainda estava em guerra e o escritor pôde acompanhar a vitória da revolução, que foi celebrada como a materialização de um grande ideal.

“Era uma revolução que parecia que iria conciliar finalmente as ideias da liberdade e da justiça, da democracia e de um grande compromisso com os direitos humanos, uma grande revolução social, mas que não iria acabar com as diferenças, pontos de vista discrepantes ou divergentes. Todavia, acho que a Revolução Cubana, desde o começo, não foi isso, mas era isso que nós, durante um bom tempo, queríamos que ela fosse: uma revolução diferente, na qual prevaleceria a liberdade", lembrou.

Em outubro de 1962, foram descobertos os mísseis nucleares soviéticos em Cuba, o que gerou uma enorme tensão. Na época, o escritor morava na França, mas estava no México fazendo a cobertura de uma exposição quando aconteceu a crise dos mísseis e ele logo foi enviado a Cuba para levar informações de dentro do país à França. Viajou cinco vezes para Cuba nos anos 1960. Nessas experiências, foi passando do entusiasmo, da identificação total com a revolução, a um progressivo desencanto. Começou a perceber que a realidade não estava à altura do mito. Destacou, por exemplo, as UMAP (Unidades Militares de Apoio à Produção), que eram, na verdade, campos de concentração nos quais havia antirrevolucionários, contrarrevolucionários, criminosos comuns e homossexuais. Havia uma homofobia explícita e sem escrúpulos, que impressionaram e minaram seu entusiasmo.

Vargas Llosa, decidido a manifestar seu espanto, escreveu uma carta a Fidel Castro sobre a questão das UMAP e a repressão aos homossexuais. O líder então o chamou à sua presença junto a outros intelectuais que haviam esboçado alguma crítica. Em 12 horas de reunião, mal conseguiram conversar com Fidel, uma vez que ele não estava aberto ao diálogo. Para agravar ainda mais a imagem de Cuba, o país apoiou a intervenção dos países do Pacto de Varsóvia na Tchecoslováquia, que tentava democratizar um pouco o socialismo, e acabou sendo invadida. Com isso, o escritor decidiu se manifestar publicamente e escreveu um artigo intitulado O socialismo e os tanques, criticando o discurso de Fidel Castro acerca da intervenção.

Na sequência, houve perseguição a intelectuais e opositores dos caminhos que Cuba estava tomando, com destaque para o caso do poeta militante Heberto Padilla, preso após criticar a política cultural cubana. Os desdobramentos do caso, que incluem acusações de intelectuais que defendiam Padilla de estarem ligados à CIA, promoveram a ruptura definitiva com Cuba, que se deu por meio de um manifesto assinado por diversos intelectuais que antes eram defensores da revolução. Aqueles que assinaram o manifesto, em especial os latino-americanos, passaram a ser acusados de forma feroz e sistemática de coalisão com o imperialismo, de serem agentes das organizações de inteligência norte-americana e de terem se vendido a Washington. “Para mim foi muito importante, sob o ponto de vista ideológico e ético", considerou o escritor, recordando que havia um clima de coerção direcionado a quem se manifestasse contra a revolução, minando a liberdade de expressão com o pretexto de que “não se deve dar armas ao inimigo", sendo preciso se calar acerca das manifestações contrárias ao sistema ou fato político.

“Foi traumático do ponto de vista pessoal, mas foi um ato de libertação", que lhe deixou primeiramente um certo vazio, como sucedera a um amigo seu que havia desistido do sacerdócio quando sentiu que sua vocação para o ofício eclesiástico havia desaparecido: a sensação de ter se tornado órfão. Em seguida, recebeu uma carta convidando-o a conhecer a União Soviética, e o que ele presenciou foi um país triste no qual se falava de tudo, menos de política. “Saí de lá com a seguinte ideia: eu defendi uma sociedade que não conseguiria viver nela, eu estaria num campo de concentração, marginalizado ou no exílio", lamentou.

Graças a novas leituras, Vargas Llosa pôde preencher o vazio de sua “condição de órfão ideológico" depois da ruptura com Cuba e com o socialismo. Eram leituras de intelectuais que haviam defendido a democracia e com que não tivera contato quando era militante, como: Raymond Aron e as razões pelas quais ele criticava o marxismo e os regimes estadistas e coletivistas, tal como as razões pelas quais ele defendia a democracia; Jean-François Revel, que defendia a social-democracia, mas atacava de forma direta e frontal o marxismo, o socialismo e os intelectuais que, em nome do marxismo e do socialismo, criticavam uma democracia que permitia-lhes fazer críticas sem correr nenhum tipo de risco.

Llosa começou a perceber que a democracia não era uma máscara da exploração ou um biombo formal e retórico que encobria injustiças, mas era um sistema que permitia a coexistência da diversidade e no qual não se era considerado sub-homem pelas coisas nas quais se acreditava e pensava. Na democracia era possível se pensar diferente, ter costumes e crenças diferentes.

Uma nova etapa importante ocorreu quando deixou a França e passou a viver na Inglaterra, em Londres, onde descobriu os pensadores liberais. Sua visão acerca dos liberais, até então, era o senso comum de que se tratava de pessoas obcecadas por economia e que tinham na economia de mercado a panaceia para resolver todos os problemas da humanidade. O que descobriu, no entanto, foi a inverdade por trás dessa visão. Lendo os pensadores liberais, sendo o primeiro deles Isaiah Berlin, passando por Karl Popper, percebeu que a liberdade por eles defendida não era apenas econômica, uma vez que havia apenas uma liberdade e ela se estenderia a todos os campos, sendo ela civilizatória e uma forma de garantir aos seres humanos maiores possibilidades de escolha de organizar sua própria vida. A liberdade seria, portanto, o grande elemento civilizador das coletividades, mas também dos indivíduos isolados.

Popper, em A sociedade aberta e seus inimigos, indicara que regimes autoritários e totalitários têm presença antiga na história e que a coexistência pacífica na convivência da humanidade é algo deveras recente. O próprio Platão teria fornecido o modelo para todos os sistemas totalitários que existiram no mundo. “Popper diz que a ideia de organizar inteiramente uma sociedade a partir de um modelo único já implica uma coerção que torna a vida das pessoas não vivível. Porque as pessoas não são iguais", resumiu o conferencista. “Querer construir uma sociedade em que exista um modelo único para todos é algo que só se pode conseguir investindo cada vez mais em violência, praticando mais e mais coerção sobre as diferenças para igualar a todos em um modelo único."

As inteligências mais deslumbrantes acabaram por se filiar a ideias sectárias, dogmáticas e intolerantes. Os exemplos vão desde Comte e Marx, passando pela mente brilhante de Heidegger, filiado ao partido nazista alemão. “Buscar a perfeição no campo da arte e da literatura ou no campo estritamente individual é perfeitamente legítimo, mas buscar isso no campo social, quando se refere a coletividades, é brincar com fogo. Irremediavelmente nos empurra para a irrealidade e para o inferno. E nisso está a superioridade da democracia sobre as doutrinas autoritárias e totalitárias, na qual se aceita que a perfeição não é deste mundo, em termos sociais e coletivos. Que a perfeição não pode existir para todos da mesma maneira. E que, portanto, há que se renunciar à perfeição, mas não a sociedades aperfeiçoáveis, e isso é exatamente a democracia", defendeu. A democracia parte do pressuposto de que as deficiências de uma sociedade podem ser corrigidas parcialmente, sendo sempre batalhas que se ganham, pois a guerra nunca será ganha totalmente. “Como somos diferentes, precisamos encontrar uma maneira de coexistir pacificamente."

Vargas Llosa refletiu ainda sobre as melhorias dos últimos tempos no mundo. As nações podem não ter atingido um estado ideal, mas estão melhores do que em seu próprio passado. É algo que pode ser constatado nos países da América Latina. Mesmo onde há democracias imperfeitas, elas são preferíveis a ditaduras. Na América Latina há consensos acerca da democracia política que não existiam no passado, e por isso goza de uma estabilidade que jamais teve. Há ainda muita corrupção, que gangrena a democracia, mas há movimentos cada vez maiores contra ela, que refletem uma vontade de aperfeiçoamento e saneamento da democracia.

Há, na América Latina, consensos sobre o modelo econômico no qual se pode derrotar a pobreza, a marginalidade, o subdesenvolvimento e chegar a alcançar a prosperidade. “Isso não é algo que se consegue por meio de estados intervencionistas, estados que nacionalizam as chamadas 'empresas estratégicas', que estabelecem um modelo único de produção e criação de emprego e riqueza", colocou Popper. “Já que nós temos necessidade de alcançar a perfeição de alguma maneira, busquemo-la onde é possível alcançá-la: nas artes, na literatura, na religião (para quem tem uma crença), e que busquemos de modo estritamente pessoal. Mas não busquemos alcançá-la no âmbito social e coletivo, porque ali a busca da perfeição nos empurra irremediavelmente para o inferno", concluiu.

O escritor respondeu ainda às perguntas da plateia, discorrendo sobre seu interesse sobre o caso de Canudos e a obra de Euclides da Cunha. Em Os Sertões, há uma profunda reflexão sobre os mal-entendidos na América Latina. Comentou também que o mau recebimento do liberalismo na América Latina tem a ver com uma demonização realizada pela esquerda, quando sua ideia central é a tolerância, a coexistência dos diferentes. Falou sobre sua falta de vocação política e que a experiência no início dos anos 1990 foi ingrata, mas ainda assim instrutiva. Considerou que o Peru vive um momento difícil, um retrocesso, com a liderança da filha de Alberto Fujimori nas intenções para a Presidência. Por outro lado, mostrou otimismo em relação à Argentina, que deixou de lado uma política demagógica e populista para assumir uma postura realista, sendo um possível modelo a ser seguido por outros países latino-americanos.

Com bons olhos vê também o cenário brasileiro: “Eu acho que é possível ver com otimismo, há um movimento de raiz popular que quer purificar a democracia, que rejeita que ela esteja gangrenada pela corrupção e pela inépcia governamental. Isso é muito saudável. Se as instituições deixam que a corrupção prospere nelas, elas deixam de funcionar, perdem a credibilidade, e acredito que esse movimento de multidões persegue algo de razoável a alcançável. Uma democracia limpa, transparente, em que quem foi eleito para governar governe honestamente, sem utilizar o poder para enriquecer. É um ideal perfeitamente civilizado. Eu não vejo no Brasil o caos que parece haver. O que vejo é um grande momento de saneamento e aperfeiçoamento da democracia, com uma luta popular contra a corrupção", concluiu Mario Vargas Llosa, na conferência de abertura da temporada do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


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