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Alberto Manguel

A biblioteca imaginária

Toda biblioteca é uma autobiografia. Esta frase do ensaísta, tradutor, editor e romancista argentino Alberto Manguel resume a sua própria vida. Leitor apaixonado desde a infância, foi alfabetizado em alemão e inglês, sendo fluente em várias línguas. Filho de embaixador, morou em países como Argentina, Israel e Canadá, entre outros. Atualmente, mora no vilarejo de Mondion, nos arredores de Poitiers, na França. No local, comprou uma antiga casa paroquial em ruínas e a reformou, transformando em residência. Ao lado da casa, reconstruiu o celeiro, onde pôde finalmente reunir e instalar sua vasta biblioteca. A “autobiografia" de Manguel é formada por mais de 30 mil livros, número não mais atualizado desde que parou de contar os exemplares.

Foi sobre livros, memória e a biblioteca universal imaginária, inspirada no consagrado escritor argentino Jorge Luis Borges, que Manguel falou em sua conferência no encerramento da temporada 2014 do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre.

Iniciou relembrando Ricardo Piglia, um dos mais importantes autores de língua castelhana da atualidade, a quem Manguel substituiu na programação do Fronteiras do Pensamento. “Se Ricardo Piglia é o Quixote da literatura argentina, eu sou o Sancho Pança. Tenho o físico", brincou. Para Manguel, evocar Quixote e Sancho Pança é mencionar duas figuras que pertencem à biblioteca universal. “Muitas pessoas que conhecem o Quixote e seu escudeiro não leram o livro." Numa de suas primeiras viagens à Espanha, nos anos 1960, lembra de que um taxista perguntou o que fazia. Ao responder que trabalhava com livros, o taxista questionou se ele lera Dom Quixote. “Disse que sim e ele disse que era mentira. 'São milhares de volumes, e ninguém chegou ao final!' Na imaginação desse motorista de táxi, Quixote tinha adquirido um peso tão importante que estava além das capacidades de qualquer leitor individual. E em certo sentido ele tinha razão", ressaltou.

Cervantes é um dos autores que pertencem a essa biblioteca universal da imaginação. “O que pertence à imaginação tem raízes muito profundas na realidade. Porque nosso conhecimento da realidade se dá através da imaginação. Há uma qualidade que nos define como seres humanos que é a possibilidade de imaginar uma experiência antes que ela aconteça. E para isso nós necessitamos da imaginação. E quando imaginamos esta experiência e a colocamos em palavras, às vezes, se temos sorte, contribuímos com um parágrafo, uma frase, uma página para essa biblioteca imaginária universal."

Segundo Manguel, há uma diferença fundamental entre a biblioteca imaginária universal e a biblioteca imaginária de cada um de nós leitores. A biblioteca imaginária universal é um receptáculo da memória compartilhada através das gerações, das culturas, dos povos e dos séculos. “Quando inventamos a escrita, um antepassado célebre e anônimo, numa certa tarde num deserto da Mesopotâmia, há mais de cinco mil anos, inventamos uma forma de derrubar os dois obstáculos mais importantes de todo o ser humano: o tempo e o espaço." É verdade que ninguém pode estar em outro tempo, além do seu próprio, ou em outro espaço, além daquele que ocupa agora. Mas esta é uma das maravilhas que a literatura proporciona. Através dos livros, falamos com os mortos, por exemplo, com aqueles que já não estão mais aqui e que nos falam por meio dos textos. “Existe uma carta da Suméria, escrita há três mil anos e que foi descoberta recentemente. Nesta carta, o correspondente escreve a um amigo e diz: 'Me trouxeram a sua carta, e lendo essa carta eu senti que você não estava longe, mas que você estava aqui comigo e eu podia abraçá-lo'. Há três mil anos já tínhamos o sentimento de que por meio da literatura e do tempo escrito, o tempo e o espaço não eram obstáculos."

No entanto, a ambição humana quer que sempre tenhamos mais. Por isso a história da biblioteca universal também está muito arraigada em uma lenda da tradição judaico-cristã, a da Torre de Babel. A humanidade, que então falava uma única língua, decide construir uma torre muito alta para alcançar o reino dos céus e guerrear contra ele. Deus desce à Terra e, como castigo, faz com que todos os operários passem a falar em línguas diferentes. Assim, gerando conflitos pela falta de compreensão, a obra da torre foi abandonada. “A Torre de Babel significa nossa ambição de abarcar todos os espaços, não só na Terra, mas também nos céus", explicou. Havia, além disso, outra maldição que impunha, a quem passasse pelas ruínas de Babel, o esquecimento de tudo o que sabia até então. Manguel considera que, em vez de maldição, Deus presenteou a humanidade com o dom das línguas do mundo, com diferentes palavras e idiomas, e que, ao fazer com que os humanos esquecessem de tudo, estava oferecendo uma nova oportunidade.

“Qualquer idioma é um instrumento frágil, por isso temos metáforas, por isso usamos estas muletas para tentar explicar o que queremos dizer. Quando estamos passando de uma língua para outra, o que fazemos é transformar certas ideias em outras ideias", comentou. Por este motivo, Manguel acredita que, em última instância, o trabalho do tradutor é quase impossível. Para exemplificar, resgatou dois exemplos clássicos da literatura: as primeiras frases de Dom Quixote, de Cervantes (“En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme"), e de Moby Dick, de Herman Melville (“Call me Ishmael"). A frase de Cervantes, escrita no castelhano, nunca funcionaria, por exemplo, em inglês. A de Melville, que permite um narrador que se dirige a todos, não funcionaria no castelhano, onde é necessário escolher a quem se dirige.

Outra história também traz a noção de biblioteca universal, que é a da Biblioteca de Alexandria. Depois que um discípulo de Aristóteles, que havia sido tutor de Alexandre Magno, levou todos os livros do mestre após a sua morte para a Alexandria, os reis Ptolomeus tiveram a ideia de construir uma biblioteca. Mas não um simples espaço: queriam uma biblioteca que contivesse todos os livros existentes. Acabou-se criando a biblioteca mais famosa do mundo, sobre a qual curiosamente quase nada se sabe. Os textos contemporâneos que falam da cidade não a descreveram (visto que era tão famosa tornando desnecessário falar dela). “A vontade dos Ptolomeus não era conquistar mais territórios, mas conquistar algo muito mais difícil: conquistar o tempo, conquistar o passado, e ter uma mão sobre o futuro tendo a memória do tempo presente. Como se faz isso? Por meio dos livros", enfatizou.

Assim, qualquer coisa escrita era recebida na Biblioteca de Alexandria. Os barcos que atracavam no porto tinham os seus livros confiscados, que eram copiados, e os originais, e às vezes as cópias, eram devolvidos. “Esta ambição dos reis Ptolomeus de criar esta biblioteca que abarcasse todo o tempo é o outro lado da balança da Torre de Babel. Babel no espaço e Alexandria no tempo compõem os elementos do que chamamos a Biblioteca Universal. Os textos que, através do espaço e do tempo nós recuperamos e chamamos de nossos", acrescentou.

No entanto, Manguel afirmou que não são todos os textos que vencem os obstáculos e não são os autores que decidem o que ficará como literatura. Este é um poder dos leitores, que escolhem alguns livros e autores e os colocam na estante da biblioteca imaginária universal. “Assim, qual a relação entre esta biblioteca universal imaginária, onde estão Quixote, Machado de Assis, Édipo Rei e Shakespeare, com a biblioteca imaginária de cada um de nós?", questionou.

A nossa identidade individual é criada pela nossa memória, pelo que pensamos e somos, por nossa experiência colocada em palavras. “Digo memória, mas deveria dizer 'memória da memória da memória da memória'. Pois cada vez em que acreditamos que estamos recordando algo, estamos na verdade lembrando de uma recordação de uma recordação de uma recordação. Não sabemos onde começam as recordações." É impossível ler um livro e lembrar de suas 300 páginas. Os leitores acabam guardando um episódio ou uma certa frase. Uma novela se escreve para se sejam guardadas pelo leitor quatro ou cinco palavras. E, mesmo sendo na maioria das vezes monolíngues, isso não é uma dificuldade para a leitura. “Os tradutores são a epítome dos leitores, são os melhores leitores", afirmou Manguel, enaltecendo o trabalho de tradução, que transforma um texto original em outro texto no novo idioma.

Na época de São Jerônimo, quando ainda não existiam os espaços com milhões de exemplares, como a Biblioteca de Washington, era possível afirmar ter lido todos os livros de uma biblioteca. Jerônimo era um desses leitores, mas ele também tinha as suas paixões secretas. Gostava de ler os clássicos pagãos. Depois de um sonho, prometeu renunciar a essas leituras. Mas não conseguiu. Acabou fazendo um trato com Deus de que as leria não por entretenimento, mas para estudar como esses autores pagãos utilizavam a língua em latim, que agora os cristãos utilizavam para escrever. Assim, São Jerônimo permitiu que Cícero o inspirasse na tradução da Bíblia. “Sêneca, do século I dizia: 'Não estamos condenados aos pais que temos. Podemos eleger nossos pais. Poderiam ser Aristóteles, Virgílio'. E ele escolhe entre os seus autores aqueles que importam, aqueles que são os seus verdadeiros antepassados intelectuais".

Saltando para o século XX, Manguel traz a figura de Jorge Luis Borges, um dos maiores leitores de todos os tempos. “Entre meus muitos defeitos, tenho o de que me é impossível falar em público sem citar Borges", declarou. Para Manguel, o consagrado escritor argentino transformou muitos dos textos da literatura universal e os tornou seus em sua memória, que era fabulosa. Quando Borges já estava cego, o adolescente Manguel, como muitas outras pessoas, teve a oportunidade de ler para Borges. “Mas a leitura que se fazia era muito particular. Uma leitura na qual Borges já conhecia o texto. Ele queria refrescar a memória na verdade", relatou. Em muitas ocasiões, via Borges sentado sem dizer nada, até que se dava conta de que o escritor estava naquele momento recitando coisas que ele conhecia de memória. Manguel lembrou de que, há um ano, sofreu um derrame cerebral e ficou sem o domínio da palavra por um tempo. A ideia em seu cérebro se formava claramente, mas era impossível ir da ideia para a palavra. Passou as primeiras noites se certificando de que lembrava de algumas coisas, dos idiomas que fala. Tudo estava intacto. “E vi que na minha biblioteca imaginária eu tinha atesourado não apenas certos textos clássicos, como poemas de Quevedo, Borges, Shakespeare, coisas famosas, mas um monte de porcarias que eu havia aprendido não sei por que quando era adolescente e de que me lembrava delas perfeitamente", recordou. Um desses textos era um poema de Luis Cané, que falava sobre uma menina negra toda vestida de branco com a qual as outras crianças nunca brincavam. “Não tenho resposta. Mas posso inventar. Está associado a certas recordações da infância e da adolescência. Se eu tivesse que dizer qual é a qualidade que eu aprecio mais dessa biblioteca imaginária, esse bibliotecário secreto que me conhece muito bem, ele tem sempre um texto à minha disposição para me dar palavras para o que eu ainda sei o que quer dizer. Palavras para nomear meus desejos mais secretos, minhas angústias mais profundas, minhas alegrias mais inefáveis. Agradeço a esse bibliotecário e espero que ele não se aposente até que eu esteja no túmulo."

De acordo com Manguel, Borges tinha essa biblioteca extraordinária e tinha uma memória prodigiosa, sobretudo de autores célebres que ele adorava recitar. Para finalizar, ele relembrou uma ocasião em que encontrou Borges sentado na semiescuridão. Chegou mais perto e, como todo jovem curioso, perguntou: “Borges, sou Manguel. Por que você está sozinho?". E o mestre respondeu: “Nunca estou sozinho. Tenho minha biblioteca".


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