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Mario Vargas Llosa

A civilização do espetáculo

Três anos após ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura e também ter registrado sua presença no Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre apenas seis dias após a premiação, Mario Vargas Llosa retorna ao Brasil e traz as ideias de seu último livro A civilização do espetáculo, para o público paulista.

Em sua última passagem pelo Fronteiras, abordou os discursos sobre a cultura e seu alargamento conceitual demasiado abrangente. Seu pensamento recente acabou por fazê-lo revisitar Guy Debord e T. S. Eliot para observar como aquele fenômeno está relacionado a questões espetaculares da atualidade.

Para iniciar a conversa, assim sintetizou a ideia-chave de seu ensaio: “Nos dias atuais a cultura já não é a mesma do que era há alguns anos. O conceito se estendeu tanto que passou, de certa maneira, a abarcar tudo. E, se a cultura é tudo, ela já não é mais nada". Na mídia, este é um fenômeno que pode ser reconhecido quando se designam termos como a “cultura do reggae", a “cultura da estética nazista", a “cultura heterossexual", a “cultura da cocaína" etc.

Seu insight para o desdobramento e, relação à questão do espetáculo se deu quando visitou a Bienal de Veneza, uma das três maiores mostras de arte do mundo (junto à Documenta de Kassel e à Bienal de São Paulo). “Lá, eu tive a sensação incômoda de que estavam tirando sarro da minha cara, de que nada daquilo que eu estava vendo era sério, de que aquilo representava uma espécie de espetáculo, algo que estava muito mais próximo da Disneylândia ou de um circo do que de uma galeria ou um museu respeitável".

A vida de Llosa foi marcada pelo contato com a cultura, sendo que esta o impulsionara a agir no mundo. A cultura passou a ser sua maneira de viver e de se relacionar com a realidade, pois esta é uma atitude, uma ação, diferindo-a, deste modo, do conhecimento.

O sujeito envolvido na cultura é o homem culto, figura que perde espaço para os especialistas da atualidade. O escritor os diferenciou da seguinte forma: “O especialista sabe muito de uma coisa e, geralmente, ignora todas as demais. Já o homem culto é um homem que não se deixa confinar pela especialidade, ele rompe com ela e procura justamente a comunicação por meio das enormes diferenças que constituem a comunidade humana".

Voltando-se mais uma vez para as artes visuais, apontou para o desaparecimento da crítica na contemporaneidade, uma função importante no passado. Acusou a crítica de hoje como uma “coisa de especialistas", cada vez mais esotérica, acadêmica, encerrada em si mesma e que não orienta ou se comunica com o grande público.

Comentou sobre sua experiência em Paris, onde descobriu a identidade da América Latina como uma comunidade cultural e, concomitantemente, sua própria identidade de peruano e latino-americano. Foi uma experiência marcante para o escritor. “Paris, capital da literatura latino-americana", comentou, citando o ensaio de Octavio Paz.

Foi na França também que vislumbrou outras formas de fazer política. Llosa a conhecia como “uma forma de barbárie, brutalidade, selvageria e mediocridade", promovida por ditadores e demagogos. Ao acompanhar um debate político em Paris, pôde ver dois homens cultos, expressando-se com elegância, brilhantismo e bom gosto. “Não é possível, a política pode ser também isso?", refletiu, deslumbrando-se à época.

Defensor da alta cultura, o conferencista afirmou que ela nos enriquece, tanto em nossas relações íntimas quanto na atuação na sociedade, e nos dá uma sensibilidade política maior. A cultura desenvolve em nós o espírito crítico, “fundamental se nós não quisermos nos petrificar".

A humanidade cria, por meio da cultura, aquilo que lhe falta. A cultura nos permite viver experiências das quais não participamos, seja em um universo fantástico, seja em momentos históricos anteriores ao atual. Também nos impulsiona a buscar o aparentemente impossível, e é a fonte das utopias.

Por estes fatores, advoga ele, a cultura não pode ser tratada como passatempo ou frivolidade. Caso se consolide como entretenimento, voltar-lhe-emos as costas, nos alijaremos de seu legado e de sua potência.

Na esfera do mundo digital, já se corre o risco de sumirmos em meio à confusão, muitas vezes perdendo qualidade em detrimento de quantidade e capacidade de acesso. Nas artes, citando Gilles Lipovetsky, foi decretado o fim dos padrões de beleza. O “belo" e o “feio" tornaram-se conceitos burgueses inaceitáveis. Apesar de reconhecer a verdade por trás da necessidade de romper com preceitos das belas artes, ressalta um componente negativo desse processo: “Ao desaparecerem inteiramente os padrões culturais, ao desaparecer a hierarquia, os seres humanos não passaram a ter um protagonismo maior. A imensa maioria dos seres humanos do nosso tempo, no campo da estética, como não sabem mais o que é 'belo' e o que é 'feio', deixam-se manipular muito facilmente". Tal manipulação é orquestrada por pessoas inteligentes, interesseiros, que buscam aproveitar a cultura com objetivos que muitas vezes não estão ligados diretamente à cultura, mas a outros tipos de ambições.

O efeito mais drástico, de acordo com o conferencista, ocorreu nas artes plásticas. O caso mais emblemático é Damien Hirst, o representante mais conspícuo com a confusão cultural em que vivemos. Um artista que terceiriza a produção de suas obras e é o artista mais caro da atualidade, “não apenas pela sua extraordinária capacidade de se autopromover, mas também porque críticos muito importantes dizem que ele é".

Llosa diz que pode exagerar um pouco quando diz que o mundo da arte tornou-se um grande circo, mas o faz porque vê uma tendência que, pela primeira vez na história, é um fenômeno universal. Tanto no mundo mais culto quanto no inculto, a cultura é percebida como divertimento, uma brincadeira prazerosa que nos compensa dos deveres que a vida tem.

“Se nós permitirmos que esse processo se agrave, não vai desaparecer a vida, mas ela vai se empobrecer muito", refletiu o escritor. Este empobrecimento pode nos legar a uma condição de autômatos, elemento chave para a constituição de regimes totalitários ou autoritários. Por esta razão, os regimes ditatoriais se opunham à cultura.

Mário Vargas Llosa ainda respondeu a perguntas sobre a atuação política dos artistas e escritores, sua participação na vida política peruana, a identificação entre religião e cultura, a literatura latino americana, aprofundou questões sobre a arte contemporânea e comentou sobre seus novos projetos. “Projetos não me faltam, o que me falta é tempo", disse o Prêmio Nobel de Literatura, encerrando a primeira conferência da temporada 2013 do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


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