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Fernando Savater

A educação do cidadão no século XXI

Reconhecido pensador dos campos da ética e da educação, o filósofo espanhol Fernando Savater se considera essencialmente um professor. Autor de mais de 50 obras, em suas reflexões e seus textos se dirige aos protagonistas da educação. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, falou sobre os cidadãos democratas e a educação para a cidadania e como uma preocupação primordial da sociedade.

Educar não é, simplesmente, formar pessoas aptas para o mercado de trabalho. Savater iniciou ressaltando que a educação possui um projeto mais ambicioso do que apenas treinar habilidades e processos. “A educação quer formar pessoas completas, capazes de utilizar a democracia de uma maneira crítica e positiva. O cidadão democrata não é uma coisa espontânea, algo que nasce como as flores ou os animais selvagens. Ele é uma obra de arte social.”

Desde a Grécia Antiga, a construção mais importante da democracia é gerar cidadãos democratas, capazes de viver e de melhorar a vida democrática. Segundo o conferencista, os gregos valorizavam a democracia e a pedagogia. Diferente dos seus rivais persas, que organizavam a sociedade em níveis fixos, sem educação e com lugares preestabelecidos para cada um: o filho do ferreiro seria ferreiro também; o filho do guerreiro aprenderia a andar a cavalo e usar o arco. “Não sabemos qual é o lugar de cada um na democracia. Cada um precisa encontrar o seu lugar, precisa lutar para abrir caminho e encontrar um lugar adequado às suas capacidades, à sua criatividade ou ao que for. Portanto, na democracia é necessário educar as pessoas de uma maneira aberta. Não se pode educar apenas para a guerra, a agricultura ou o artesanato. As pessoas têm de ser educadas para a vida numa sociedade democrática. E a partir daí cada um vai escolher o seu caminho e a sua possibilidade.”

É por este motivo que o destino da democracia está intimamente ligado ao destino da educação. Os condicionamentos sociais, as diferenças de status e outros fatores permanecem. Mas a verdadeira transformação, que não seja sangrenta ou com violência, passa pela educação. “É o que faz com que o filho do pobre nem sempre tenha de ser pobre. Que o filho do ignorante nem sempre precise ser ignorante. Que os filhos dos excluídos, dos que de alguma maneira não tenham nível social, possam alcançar seu posto, seu lugar social. A educação luta contra esta fatalidade, que faz com que os filhos tenham de repetir os erros, as deficiências e as carências de seus pais”, afirmou.

A ignorância e a miséria são inimigas da democracia, que não se defende com bombardeios ou exibições de força bélica. Mas Savater explicou que também há outros males que afetam as liberdades, como a corrupção, que é um fator que desmoraliza a população. “O problema da corrupção não é a violação da confiança que foi depositada pelos cidadãos nos políticos. O mal da corrupção é a impunidade. É inevitável que onde haja liberdade haja pessoas que abusem dela e a utilizem mal. Mas não é inevitável que essas pessoas fiquem impunes, que as leis só castiguem os pequenos e não os grandes, que as redes da lei sejam feitas para capturar os peixes pequenos e deixar passar os grandes, ao contrário do que acontece nas redes de pesca habituais.” O conferencista defende que é preciso formar uma sociedade consciente do seu papel. “A vida social não é um espetáculo que está sendo representado, com as pessoas na plateia aplaudindo ou vaiando os atores. Nós, cidadãos, também estamos no palco e temos de participar dessa representação, temos responsabilidade de participar. Por isso a educação existe para formar cidadãos capazes de intervir na representação”, enfatizou.

O filósofo relembrou uma frase de Alfred Kohlberg, que dizia que “todas as democracias contemporâneas vivem sob o temor permanente da influência dos ignorantes”. São os ignorantes, cujo voto vale o mesmo dos demais, que acabam favorecendo os jogos demagógicos. “A ignorância que é perigosa para a democracia é a ignorância de quem é incapaz de entender um argumento alheio, é incapaz de entender um texto simples que expõe uma série de pontos importantes. O ignorante é o incapaz de persuadir os outros ou de ser persuadido pelos outros. Quem não é capaz de persuadir ou ser persuadido não está preparado para viver na democracia, porque ela é um regime de persuasão mútua.”

Ser persuasivo não é um demérito, pois não existe bobagem maior do que dizer que todas as opiniões são respeitáveis. “Todas as pessoas é que são respeitáveis, tenham as opiniões que tiverem. Mas as opiniões em si não são respeitáveis. Se uma pessoa acredita que dois mais dois são cinco, não deve ser presa ou torturada por isso. Mas a opinião de que dois mais dois são cinco não é mais respeitável que a opinião de que dois mais dois são quatro. Temos de nos acostumar a distinguir que a forma de respeitar as opiniões é discuti-las. Do latim, 'discutere' era puxar uma árvore para ver se tinha raízes fortes ou não. Quando alguém discute uma opinião, quer ver se ela tem raiz na realidade, ou se é algo superficial”, avaliou.

Esta raiz ou superficialidade é que enfatiza a premissa de que a educação deve ser feita de pessoa a pessoa. A tecnologia, a internet e a televisão facilitam o acesso às informações. Mas só uma pessoa pode educar a outra. “A escola deve ajudar a criança a navegar pela informação que ela recebeu de modo avassalador e total. Ela tem de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o útil do supérfluo, o positivo e socialmente interessante do atroz e criminoso. Hoje a informação é, simplesmente, um mar no qual temos de aprender a nadar. Esta é a metáfora habitual da navegação através da internet. Nunca se pode substituir o professor por um instrumento mecânico”, apontou. Então, uma pendência que a sociedade tem é reconhecer a dignidade social que um professor detém.

Para o conferencista, no ensino da ética, três virtudes são essenciais e devem ser reforçadas:

- a coragem para poder viver: pois vivemos diante da morte, das dificuldades e das ameaças, e não se pode viver eticamente sem coragem;

- a generosidade para poder conviver: pois viver com outros exige, de alguma maneira, ceder, e precisamos limitar nossos desejos no choque com os demais;

- e a prudência para sobreviver: pois a vida está cheia de armadilhas e de riscos, e exercer o bem é, muitas vezes, arriscado. Mas passar por martírios sem proveito não serve de nada.

A boa educação, obviamente, é cara e os estados são omissos. “Mas acredito que a má educação custa ainda mais caro para os países. Hoje, entre aqueles afetados pela crise na Europa e outros lugares, os países que têm mais probabilidade de superar a crise são aqueles que investiram mais em educação”. Fernando Savater complementou que a educação é um projeto de longo prazo, que passa a ser percebido 15 ou 20 anos depois. É nossa responsabilidade recordar os políticos de que eles serão substituídos a cada nova eleição e que a sociedade vai continuar atuando. “Nós professores de filosofia dizemos as coisas que todo mundo já sabe. Eu queria recordar vocês dessas coisas que vocês já sabem e fazer com que lembrem outras pessoas também. Pois este é o motivo que faz com que a educação deva ser uma preocupação primordial da nossa sociedade”, finalizou.


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