Voltar para Resumos

Fernando Savater

A educação do cidadão no século XXI

Fernando Savater, ativista nos campos da ética, política, religião e luta contra o terrorismo, trouxe para o público do Fronteiras do Pensamento muitas das principais ideias que permeiam sua vasta produção, composta de mais de 50 obras, e procurou estabelecer um diálogo com a audiência brasileira respondendo às perguntas colocadas pela plateia.

O professor de Filosofia (como prefere ser referido) trouxe para a conferência um tema caro à democracia: a educação. Ambas nascem juntas. Nos povos nos quais não havia democracia, como no Império Persa, os cidadãos não eram educados, justamente por não haver cidadãos, mas súditos. A estes a única coisa ensinada era cumprir o papel específico que iriam desempenhar na sociedade.

Na Grécia, todavia, era preciso educar os cidadãos. A eles não eram ensinadas apenas habilidades laborais, pois nenhum grego nascia com lugar determinado na escala social, a partir de sua formação cidadã eles iriam ocupar um determinado cargo público ou desempenhar certa atividade.

Os cidadãos gregos eram formados para governar, uma vez que na democracia todos os cidadãos são governantes. Em Política, Aristóteles defende que antes de ser governante é preciso que tenha sido governado. Depois da formação cidadã, todos deveriam estar prontos para ocupar qualquer cargo político, para ser governantes.

A formação grega não descartava o lado técnico, mas tinha acima de tudo um caráter humanista, em que se discutiam os fins da sociedade.

A educação contemporânea se centra muito no aspecto instrumental e pretende formar bons empregados, bons trabalhadores, negligenciando a formação de bons cidadãos. “A educação não deveria ficar contente em formar profissionais, trabalhadores, não importa o nível, que vão seguir a rotina do país, mas que não saibam debater sobre os fins da vida comum. A ideia de cidadão é que, como ele é governante, ele tem que saber discutir com os fins da vida comum”, argumentou.

Savater acrescentou ainda que, não importa o poder econômico ou o papel desempenhado na sociedade, todos devem ser educados para exercer o seu papel de governantes, de agentes políticos.

Uma das questões da democracia contemporânea, citando John Kenneth Galbraith, é o temor permanente da influência dos ignorantes. “Está claro que os ignorantes querem, têm voto e decidem como os demais. Se eles são muito mais numerosos que as pessoas preparadas, educadas, esses ignorantes encaminharão a vida social na direção da demagogia, vão colocar obstáculos às soluções necessárias sempre que implicam algum sacrifício, vão favorecer as desigualdades etc.”, colocou.

A ignorância de Galbraith é a ignorância do imprescindível para a relação política com os outros, “ou seja, a ignorância de quem não é capaz de entender uma argumentação inteligível que alguém lhe faça sobre propostas, propósitos ou necessidades”, salientou, “é alguém que não pode persuadir nem ser persuadido”.

Uma vez que a democracia é baseada na capacidade de persuadir e ser persuadido, a falta de capacidade de expressão tende à violência. “A violência é a forma de expressão dos que não sabem se expressar. Por isso, é preciso favorecer que todos tenham meios de expressão”, argumentou Savater.

As funções intelectuais precisam ser desenvolvidas por meio da educação, e uma educação de qualidade para todos. Não adianta termos a melhor educação para as elites e uma “educação fast-food” para a maior parte da população.

Dois são os maiores inimigos da democracia: a miséria e a ignorância. “Quem luta contra eles são os verdadeiros defensores da democracia e não aqueles que bombardeiam países ou invadem territórios”, defendeu o conferencista. Nesta luta, são os professores de educação básica os baluartes da democracia.

“O problema é que a boa educação é cara, é preciso investir muito dinheiro para se chegar a este nível de educação para todos. Pensem que em populações como as nossas as pessoas que mais precisam de educação são aquelas que não podem consegui-las por seus próprios meios. (...) Ademais, os professores têm que reciclar seu conhecimento, não podemos seguir ensinando o que nos ensinaram, precisamos nos atualizar, aprender novas coisas, e para isso precisamos de tempo livre para estudar e professores que nos substituam durante a nossa ausência. Evidentemente que tudo isso custa caro, uma parte muito importante do orçamento de qualquer país. A educação boa é cara, mas a educação ruim é mais cara ainda para os países”, explicou.

A educação é a luta contra a fatalidade social de que os filhos dos pobres tenham que permanecer pobres e que os filhos dos ignorantes tenham que permanecer ignorantes. E a mudança no quadro de investimento em educação é algo que precisa ser exigido dos políticos. Se isso não for cobrado, os políticos não o farão principalmente porque o tempo da política é diferente do tempo da educação. Uma reforma educacional implementada hoje só teria resultados visíveis em 15, 20 anos. Não há políticos que pensem em tão longo prazo.

Para Savater, os professores deveriam ser mais valorizados não apenas do ponto de vista salarial, mas também social. “Nos programas de discussão e debate no rádio e na televisão sempre são convidados atores, cientistas, artistas, catedráticos da universidade e nunca professores de ensino fundamental. E, no entanto, são eles que estão em contato com as crianças e vendo a evolução delas, como em 15 ou 20 anos mudaram as coisas por causa da internet, dos telefones móveis etc. Mas ninguém os escuta. Além de reconhecê-los devidamente, os professores de ensino fundamental deveriam ter uma espécie de reforço social (que eles merecem e não o têm).”

O papel do professor se transformou na era digital, mas não foi suprimido. Se anteriormente se educava para informar e hoje as informações estão mais acessíveis (pelos meios de comunicação de massa e pela internet), cabe ainda ao professor desenvolver com os alunos as habilidades de pesquisa, orientação e gestão da informação. “A internet pode ser um instrumento extraordinário, mas ela não educa, quem educa são as pessoas, só aprendemos a viver com outros seres humanos”, salientou.

Durante sua vida, confessou Savater, procurou suscitar o interesse, com pouco êxito, pela educação. Um interesse que não se dirige apenas a pais e outros envolvidos diretamente com as escolas, mas a todos os cidadãos, colocando a educação como interesse de todos.

“Todos temos de saber que educamos os nossos concidadãos, ou então, se não queremos educar, temos de suportar o que nos acontecer quando essas pessoas não educadas irromperem na vida pública (...) Por isso, eu gostaria que vocês também se convertessem em missionários da educação e insistissem em uma boa educação pública (porque a educação tem que ser sempre pública, ainda que o custo possa ter fundo privado) para formar cidadãos críticos e responsáveis”, concluiu Savater.

Respondendo perguntas da plateia, o professor de Filosofia falou sobre a educação em tempos de Franquismo. Colocou que os professores podem ensinar o respeito nas relações, uma vez que, diferentemente do seio familiar, as relações na escola não são baseadas em amor. A escola é, portanto, educadora em si mesma, na convivência social com todos.

Defendeu o pensamento crítico na educação e que a neutralidade axiológica promulgada atualmente não é uma postura que pode ser levada totalmente a cabo, posto que nem tudo está sob discussão, alguns valores (como os direitos humanos) estão estabelecidos. “Não se pode defender o canibalismo como uma variedade gastronômica como outra qualquer”, exemplificou.

Sobre a questão da nova onda de imigrantes que chegam na Europa, retomou a história do continente. A identidade europeia é formada de múltiplas identidades. Os números árabes (donde deriva o termo “algarismos”) venceram os números romanos, pois foram melhor aceitos pelos cientistas renascentistas e hoje fazem parte da cultura europeia. A catedral de Siracusa na Sicília é emblemática nesse sentido, porquanto suas fundações eram primeiramente de um templo grego, depois romano, as paredes foram erguidas pelos normandos bárbaros, a decoração interna foi feita pelos árabes e a fachada é do barroco espanhol.

O conferencista relembrou que acreditava ser a literatura sua vocação, mas não havia propriamente uma carreira na área e escolheu a filosofia como segunda opção. Com isso, aproximou-se mais dos autores fronteiristas, como Jorge Luiz Borges e Nietzsche, que ficam entre a literatura e a filosofia.

Discorreu sobre o livro escrito junto à sua esposa, que veio a falecer antes de concretizá-lo. Em sincero lamento, disse não ter encontrado na filosofia ou na cultura algo que aplacasse a dor de perdê-la, que sua vida acabara junto à sua morte e ele se tornara um sobrevivente.

Falou sobre seu livro Ética para meu filho (originalmente Ética para Amador), cujo título remete a Ética para Nicômaco de Aristóteles. Foi escrito para a disciplina de ética que passou a fazer parte do currículo espanhol e não tinha materiais de apoio aos professores. Na época, seu filho Amador tinha 15 anos e ele o adotou como personagem interlocutor. O livro pretendia também oferecer material para discussão entre pais e filhos, com questões colocadas como diálogos e com humor.

Arguido sobre a corrupção na política, salientou que a corrupção não é um problema ético, mas político. A impunidade é a grande questão, faltam mecanismos de controle institucionais, punições para coibir a corrupção. “A ética não resolve os problemas políticos assim como uma borrifada de água benta não apaga um incêndio”.

Retomou a questão da democracia ser uma luta contra a miséria e a ignorância, acrescentando que o enriquecimento apenas ocorre dentro de uma sociedade e nunca em um local isolado e consequentemente a riqueza traz responsabilidade social. Criticou o populismo, que, para o professor, é a democracia dos ignorantes, na qual a vingança se sobrepõe à reforma. O populismo parece querer acabar com os ricos enquanto a socialdemocracia procura erradicar a pobreza.

Por fim, o professor Fernando Savater discorreu sobre o tema “Como viver juntos”, ressaltando que “o mundo não tende a ser totalmente plano, sem estrondos, polêmicas. A polêmica não é ruim, pelo contrário, é boa. O que é ruim é convertê-la em fratura, enfrentamento social”. Devemos ter a capacidade de convencer e ser convencidos, sem violência, mas na ágora das ideias. É preciso paciência, especialmente na política. Paciência para perseverar naquilo que se acredita ser bom.


Voltar para Resumos