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Elisabeth Roudinesco

Ainda podemos sonhar com outra vida?

Reconhecida intelectual francesa, Elisabeth Roudinesco é uma das maiores especialistas em história da psicanálise e transformou a complexa doutrina freudiana em matéria-prima para best-sellers, como a História da Psicanálise na França. Biógrafa de Jacques Lacan e de Sigmund Freud, acredita que a psicanálise deve evoluir no mesmo ritmo das mudanças que transformam o mundo. A grande virada dos tempos contemporâneos, marcados pela crise da democracia e do individualismo, foi a temática central de sua conferência no Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre.

A grande virada pode ser caracterizada como a passagem do antigo para o novo, e também a maneira como aqueles que viveram esta renovação transmitem os acontecimentos para as gerações seguintes. Mas nem sempre o que permanece é a visão otimista, especialmente quando se analisam os tempos atuais e se reflete sobre o futuro. “Isso me fez pensar numa frase famosa de Romain Rolland, que foi retomada pelo filósofo Antonio Gramsci e que eu aprecio particularmente e corresponde bem à nossa proposta: 'É preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade'. Eu sou pessimista por inteligência e otimista pela vontade. A inteligência acompanha frequentemente o pessimismo. Porque toda forma de reflexão digna desse nome supõe que a gente adote uma distância crítica em relação à realidade e que não se deixe enganar", declarou. No entanto, segundo Roudinesco, o perigo está em permanecer no pessimismo da inteligência e considerar que apenas o mundo do passado era melhor. “Dessa forma, a gente se condena a nenhuma vontade de agir para mudar o curso da história. E substitui o pessimismo da reflexão por uma aversão."

A grande virada seria, assim, a morte de algo antigo que ainda não foi substituído pelo novo. Na atualidade, é marcada pelas turbulências globalizadas que ameaçam a Europa com desvios totalitários, pelo descrédito na política tradicional e pelo sentimento de perda de representação social. Há um crescente anseio por mudanças, mas de rumo incerto.

Ao longo da história, três sistemas políticos estavam destinados a se enfrentar: o fascismo, o comunismo (que se tornou o stalinismo) e a democracia liberal. “A noção de grande virada muda permanentemente e supõe o princípio da existência de vários elementos imbricados que se expõe ao risco permanente de conduzir à guerra: a crise de legitimidade do Estado, o crescimento do nacionalismo, a aceleração dos conflitos de classe e a crise econômica."

A Queda do Muro de Berlim, simbolizando o fim do comunismo em 1989, abriu caminho para o capitalismo liberal e para a noção de autossuficiência do indivíduo. Assim como a fissura de 11 de setembro de 2001, no ataque terrorista às Torres Gêmeas e ao Pentágono nos Estados Unidos, foi uma grande virada globalizada que seria uma expressão profunda da sociedade ligada a vários fatores. “Esses fatores seriam o progresso científico e tecnológico, a transformação dos costumes essencialmente nos países democráticos – que a gente chama de globalização –, o crescimento das desigualdades, a crise da cultura ocidental, a redução da subjetividade a uma individualidade e, em último lugar, o aparecimento do radicalismo religioso fundado sob o Islã."

Segundo a psicanalista, é nesse contexto que é reforçado o ódio à liberdade, à Revolução Francesa, à declaração dos direitos do homem e do cidadão e à França, que simboliza depois de 1789 esses ideais. “Essa loucura religiosa é uma guerra contrarrevolucionária feita contra a modernidade ocidental. É terrorista, suspendeu a proibição de matar e valorizou a pulsão de morte em estado bruto. Ela escraviza as mulheres, frequentemente com o consentimento delas – e nada é pior do que a servidão voluntária –, e conta com atores que são convidados a morrer, ou seja, a realizar a morte deles pelo assassinato e rejeitar uma vida considerada medíocre." É uma escolha pelo terror que não tem relação com “morrer como herói", pois é uma escolha exterminadora.

O desenvolvimento da guerra ao terror acompanha o crescimento das forças populistas, que visam colocar em causa as conquistas da modernidade, com o objetivo de restaurar uma ordem antiga fantasiada. “Do lado do fanatismo religioso e do lado do populismo, a gente percebe uma rejeição dos princípios da democracia, sempre muito frágil, e uma aspiração à ressurreição do passado. E uma ressurreição sob as formas mais reacionárias, como o projeto de destruição da arte, da cultura e do prazer individual, e, em suma, uma pulsão de morte impossível de ser sublimada segundo a definição de Sigmund Freud."

Para Roudinesco, esse populismo, que não tem relação com nenhum movimento popular, é o veículo de uma espécie de desejo de fascismo e autoritarismo. “Esse populismo, como as injunções criminosas saídas do Islã fanático, se opõe à cultura individualista e rejeita as elites ditas cosmopolitas ou globalizadas. Esse populismo é o sintoma de um mal-estar da representação política. Na verdade, nós assistimos ao desenvolvimento de uma verdadeira contrarrevolução obscurantista em escala mundial. Diante dessa situação, tudo acontece como se a aspiração a um ideal democrático, que conduziu os povos desde 1789 – os europeus e aqueles que foram tocados por essa revolução –, tudo acontece como se a liberdade não fosse mais desejada, e sim enfadonha. Tudo acontece como se a submissão fosse preferível a essa liberdade, porque ela é suscetível de trazer a segurança", apontou. Os representantes do populismo rejeitam os políticos clássicos, para se voltar para os demagogos, os ditadores ou charlatões que os adulam e os enganam. É esse populismo que provoca o aparecimento de políticos como Vladimir Putin na Rússia, Donald Trump nos Estados Unidos e outros exemplos em países da América Latina.

E a França, um dos países mais pessimistas do mundo – tanto no plano individual quanto no coletivo –, vê a sua influência ser reduzida, tanto no enfraquecimento de sua língua quanto na redução dos ideais de liberdade e paz que almejou serem universais depois de séculos de guerras sangrentas. “Existe uma nostalgia da época em que a França parecia reinar sobre o mundo a partir do seu modelo republicano fundado sob um estado forte e laico, capaz de integrar as minorias e estruturar uma nação soberana. Essa nostalgia, que é forte na França, se traduz nos discursos que fustigam o liberalismo e o socialismo. Da mesma forma, já vimos reaparecer na França – na imprensa, por exemplo – uma fraseologia que havia desaparecido há muito tempo e que se impôs como ideologia dominante. Isso demonstra uma verdadeira virada intelectual contemporânea no próprio momento em que a esquerda social democrata está no poder e que se manifesta na França pela revalorização de temas da extrema direita."

O resultado é também a revalorização de escritores e temas da extrema direita, a apologia de um poder autoritário e um regime contra o espírito da resistência francesa. “Assistimos também a uma histerização das identidades – judeus, muçulmanos, católicos, negros, brancos etc. Nesse contexto, a dupla questão do terrorismo e da religião islâmica – 5 milhões de franceses são hoje muçulmanos – tem um papel fundamental. No país da laicidade e do universalismo, nós falamos hoje muito mais de comunidade, de religião, de terror e de novas invasões bárbaras."

Roudinesco também abordou a questão da redução da subjetividade a uma norma química. Depois de 50 anos, os problemas psíquicos normais e os problemas mentais e desordens de personalidade passaram a ser tratados em escala mundial por substâncias químicas eficazes. “Milhões de pessoas no mundo consomem psicotrópicos. Cada um de nós consome. Mas, pela força deles – queremos isso ou não –, o excesso dessas drogas acompanha um certo abandono da liberdade e da vontade. Não é a droga que é em si mesma nociva. Elas são necessárias. O problema é a maneira de usar sem distanciamento crítico, usando-as como um remédio para todos os problemas da vida cotidiana. Quando o consumo é excessivo e descontrolado, a palavra conflitual é frequentemente abandonada em benefício de um ideal pragmático que tenta excluir a exploração de si e a liberdade subjetiva."

A conferencista sinalizou que as drogas são impotentes para realizar sozinhas toda a cura humana necessária, que envolve fatores como morte, paixões, sexualidade e a relação com o outro, modelando a subjetividade de cada um. Mas a hostilidade mundial à teoria freudiana é o sinal da perda da concepção da liberdade humana, fundada não sobre a individualidade triunfante, mas sobre a subjetividade singular. “A química se contenta com o otimismo da vontade sem o pessimismo da inteligência que permite ao sujeito interrogar-se sobre si mesmo. Isso traz uma felicidade imediata, mas não basta. O poder químico, como os excessos do liberalismo financeiro no mercado, é tal que os laboratórios farmacêuticos do mundo todo não param de inventar nomenclaturas para curar 'doenças', inventando males que dependem da química."

Então, como sair dos impasses enumerados? “Penso profundamente que estamos neste momento numa nova virada. Que em qualquer lugar no mundo se inicia uma reflexão sobre os desastres atuais, mas também sobre os progressos. Como fazer para reduzir as desigualdades, sem atentar para as liberdades quando a gente sabe que 10% da população mundial tem mais de 80% das riquezas disponíveis? Como fazer quando temos – como eu – o sentimento de que as grandes referências da tradição se destruíram e que a sociedade não propõe nada novo?" Tendo crescido sem toda a tecnologia disponível hoje, escrevendo cartas e sem a pressão do tempo real, seria possível pensar na possibilidade de alimentar um desejo para que essa época e hábitos voltem. Mas a psicanalista discorda. “Tínhamos a impressão de que a vida era melhor. E olhando de perto, e apesar dos apocalípticos, não! Na verdade, não era melhor. Para se construir uma sociedade da felicidade é preciso levar em conta o que é positivo naquilo que os profetas da desgraça acham abominável: nos progressos da ciência, da medicina e das comunicações. Por nada no mundo eu gostaria de voltar ao antigo mundo. Mas, ao mesmo tempo, eu não ia querer perder nada desse antigo mundo que se chama herança, cultura e transmissão".

No final do século XX, afirmava-se que o fracasso do comunismo significava a impossibilidade para o homem de ascender à igualdade. Depois percebemos que o capitalismo, na sua versão mais ilimitada e especulativa, favorecia a miséria psíquica e econômica, da mesma forma que os Estados de não direito, por ódio ao Ocidente. No ultraliberalismo sem limites, os indivíduos sem alma estão de um lado, acompanhados pelo consumo fenomenal de drogas, e o fanatismo religioso está do outro. O primeiro reduzindo o homem a uma mercadoria, e o segundo o classificando como um nada.

A solução? Poderia ser a ressurreição das consciências, e o sonhar com algo novo ainda não pensado ou escrito, uma outra via possível. “Aí está algo a que a gente deveria aderir: sem otimismo excessivo, mas sem pessimismo destrutivo. Resistir pelo espírito, pela vontade e por ações positivas às ideologias destruidoras do mundo contemporâneo, apoiando-nos sobre o presente e sobre uma herança do passado para pensar o futuro. Transformemos o desespero em esperança mesmo que a gente saiba que isto vai levar tempo", finalizou.


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