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Elisabeth Roudinesco

Ainda podemos sonhar com outra vida?

Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, autora de biografias de Jacques Lacan e Sigmund Freud, elaborou sua conferência provocada pelo tema desta edição do Fronteiras do Pensamento, “A grande virada”.

“É um assunto tão vasto que me permitiu pensar a própria noção de 'grande virada'. Essa noção tem o sentido da passagem do antigo para o novo e da maneira pela qual esses que viveram a passagem narram esta passagem àqueles que não a viveram”, iniciou. Um fato, um acontecimento, que se torna narrativa e passa a constituir uma memória e atinge o patamar de narrativa fundadora, com um relato nacional que alimenta o inconsciente coletivo dos povos.

A conferencista interpretou o tema do Fronteiras como a busca de uma visão otimista do presente e do futuro, sem, por isso, deixar de admitir as dificuldades de nossa época, o que implicaria certo pessimismo. Tal inferência se coaduna com o pensamento de Romain Rolland acerca do “pessimismo da inteligência” alinhado ao “otimismo da vontade”.

O pessimismo se estabelece na inteligência por um distanciamento crítico para com a realidade, “sem se deixar levar por ilusões”. Entretanto, com a fixação no pessimismo e em enfatizar que o velho mundo era melhor que o que está por vir, nos condenamos a não ter a menor vontade de agir para mudar o curso da história, e a vontade seria suprimida a uma espécie de paralisia. Por outro lado, apenas agindo sobre o otimismo da ação voluntária, corremos o risco de “afundar num culto absurdo de um presentismo excessivo que abole a reflexão”.

Uma grande virada é uma fratura, uma quebra ou mesmo uma negação, não uma revolução, mas o ponto de inflexão quando algo de antigo morre e aquilo que o sucederá ainda não nasceu. Roudinesco cita o exemplo russo de 1929 (NEP – Nova Política Econômica), no qual houve “um pragmatismo que inverte o ideal em seu contrário”, uma grande virada, um autêntico pesadelo, que marca o fim da revolução.

Até 1917, as revoluções se sentiam filiadas à Revolução Francesa, porque as revoluções posteriores ocorreram mais na América Latina e na China, sem referência ao ato fundador de 1789. A Revolução Francesa foi ainda evocada como paradigma por todas as insurreições que tentaram derrubar regimes comunistas em nome da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A grande virada, historicamente evocada, foi o crack da Bolsa de 1929, a maior crise que o capitalismo já conheceu. Àqueles tempos, três sistemas políticos estavam destinados a se enfrentar: o fascismo/nazismo, o comunismo e a democracia liberal. A noção de grande virada implica a existência de elementos imbricados que se expõe ao risco de levar à guerra: “a crise da legitimidade do Estado; o crescimento do nacionalismo; a aceleração dos conflitos de classe; a crise econômica”, delineou.

Tais elementos se fazem presentes igualmente na grande virada contemporânea. O 11 de Setembro corroborou para uma mudança profunda na sociedade ligada a vários fatores, como o progresso científico e tecnológico, a transformação dos costumes (principalmente nos países democráticos), a globalização, o crescimento das desigualdades, a crise da cultura ocidental e a redução da subjetividade a um individualismo e o surgimento de um radicalismo religioso fundamentado no Islã, “a única religião que não renunciou a instaurar um Estado teológico-político no mundo inteiro”.

Emerge um ódio “à democracia e a toda forma de Estado de Direito, ódio às mulheres e aos homossexuais, um ódio à liberdade e principalmente o ódio à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Então, um ódio à França, porque ela encarna desde 1789 esses ideais.” Um movimento de contrarrevolução como o ocorrido na Europa nos séculos XIX e XX. É uma guerra declarada à modernidade ocidental, “uma guerra terrorista que suspende a interdição de matar e valoriza a pulsão de morte, no senso freudiano do termo”

O novo populismo, que não tem relação com o desejo popular, aponta para um desejo de fascismo, consciente ou inconsciente, fundado na rejeição geral da classe política que é considerada corrupta. Esse populismo, tal como as injunções criminais oriundas do islamismo fanático, se opõe à cultura individualista e rejeita as elites cosmopolitas ou globalizadas. “É um sintoma de um mal-estar na representação política”, elucidou Roudinesco. Com isso, constatamos o surgimento de uma contrarrevolução obscurantista. “Tudo acontece como se a liberdade não fosse mais desejável, mas tenha se tornado enfadonha. Tudo acontece como se a submissão fosse preferível à liberdade, porque ela seria suscetível de trazer a segurança”, argumentou.

Os políticos populistas rejeitam os políticos clássicos e se voltam aos demagogos e aos charlatões, aduladores e enganadores. O sucesso de Vladimir Putin na Rússia é um exemplo claro, uma vez que este pretende restaurar o imperialismo czarista sob as bases de uma religião ortodoxa. Donald Trump é também emblemático.

A Europa não atravessa guerras em seu território desde 1945 (sendo o início do século XX o mais mortífero de todos os períodos da história), mas não realizou seu sonho de abolir pura e simplesmente a guerra.

No contexto da grande virada, a França é um dos países mais pessimistas do mundo, tanto no plano individual quanto no plano coletivo, “enquanto na realidade se vive de maneira muito mais agradável que em muitos países do mundo”, um pessimismo decorrente do que é vivido, como a perda da influência francesa no mundo, como o apagamento de sua língua e do seu universalismo. Também decorre da valorização do poder do dinheiro, a lei dos mercados sempre invocada em detrimento da preponderância atribuída tradicionalmente ao saber e à cultura. Há uma ruptura entre a elite e as classes populares, acusadas de não conseguirem se modernizar. As camadas populares, por sua vez, rompem com as elites e com a classe política, se acomodando bem à globalização, ao nomadismo, ao hedonismo, ao multilinguismo e até mesmo a uma sexualidade desenfreada.

O novo nacionalismo europeu, que se opõe especialmente aos imigrantes das antigas colônias que passaram a ocupar seus países e não pertencem a uma herança cultural cristã, está trazendo um potencial de guerra. “Não devemos nunca esquecer que entrar em uma guerra parece sempre ser, no inconsciente coletivo dos povos, uma resposta a uma grande fantasia de declínio da nação”, alertou.

“A esses dois flagelos regressivos que são a busca de um fanatismo indenitário religioso e do outro lado o reinado de um capitalismo financeiro ilimitado, um defendendo o retorno à ordem antiga e o outro à desordem inigualitária, eu acrescentaria um terceiro, mais societal, aquele da redução da subjetividade a uma norma química”, acrescentou a conferencista, que passou a discorrer sobre o modo como os problemas psíquicos normais, mentais e toda desordem de personalidade estão sendo tratados quase exclusivamente por substâncias químicas.

Por causa do poder dos psicotrópicos, eles acabam sendo acompanhados, no plano ideológico, de certo abandono da liberdade e da vontade. “Não é a droga que é nociva, elas são úteis. O problema é a maneira de utilizar essas drogas sem distanciamento crítico, como remédio a todos os conflitos, a todos os problemas sociais, políticos e psíquicos. Consequentemente, quando um consumo é excessivo, pouco controlado, a palavra conceitual é progressivamente abandonada em benefício de um ideal pragmático que exclui a exploração de si e a liberdade subjetiva”, criticou. A química se contenta com um otimismo da vontade sem o pessimismo da inteligência (o único que permite ao sujeito interrogar sobre si mesmo).

Os laboratórios farmacêuticos não param de inventar nomenclaturas para tratar doenças que não dependem da química. “É preciso se interrogar sobre o poder desses laboratórios farmacêuticos e dessa terapia biológica que tende a medicalizar de maneira excessiva as nossas ansiedades, ou seja, a angústia existencial própria da condição humana”.

A conferencista inferiu acerca de estarmos em uma nova virada, uma reflexão sobre os desastres e progressos atuais. “Como fazer para reduzir as desigualdades sem atentar contra as liberdades ou contra a liberdade econômica quando sabemos que 10% da população mundial detém mais de 80% das riquezas disponíveis? Como fazer quando temos o sentimento de que as grandes referências da tradição foram destruídas, o antigo mundo, e a nova sociedade não propõe nada novo no lugar? (...) Onde estão a felicidade e a verdadeira vida? Os sonhos? Como sair da simples sobrevivência? Da simples crítica do presente que conduz ao niilismo e da negação do otimismo da vontade? Como sair desse dilema? Nem voltar às tradições defuntas e nem se limitar ao consumo selvagem sem limites e ao abandono de todo o compromisso?”, questionou.

A resposta para estar em um certo sentido do sonhar: “O sonho de um futuro ainda não circunscrito. Esse é o verdadeiro nome da aspiração a uma outra vida que reatualiza os ideais da Revolução Francesa. Saber ao menos sonhar antes de qualquer ação. Saber ao menos sonhar com a ideia de que outra vida é possível. E nós temos que contribuir para isso sem otimismo excessivo e sem pessimismo destruidor, resistir pelo espírito, pela vontade e pelas ações positivas às ideologias destruidoras do mundo contemporâneo. Nos apoiando e nos baseando sobre o presente e também em uma herança do passado para pensar o futuro. Transformar a desesperança em esperança, mesmo se soubermos que é preciso tempo”, concluiu.

Elisabeth Roudinesco ainda respondeu às perguntas do público acerca das origens de novas utopias, indicou a lentidão de processos de transformação e que poderemos ver ainda, por exemplo, a longo prazo, os desdobramentos da Primavera Árabe. Comentou sobre não gostar do complexo de Édipo, salientando que a genialidade freudiana foi trazer a tragédia para o tratamento, colocando o paciente não mais como um coitado, mas como um príncipe. Discorreu sobre a revolução simbólica promovida por Freud e como ela o destacou em sua época. Aproximou a psicanálise mais da filosofia do que da ciência por não haver a noção de progresso estimada pela última. Enalteceu ainda o forte ecletismo da psicanálise na América Latina, que é mais desejável do que o dogmatismo, concluindo sua conferência junto ao público do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


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