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Mario Vargas Llosa

Cultura, literatura e liberdade

Prêmio Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa é um dos mais importantes escritores da atualidade. Em 2010, participou pela primeira vez do Fronteiras, falando sobre a banalização da cultura. Crítico das ditaduras e dos regimes totalitários, e defensor da democracia, é autor de mais de 50 livros, entre ficção e ensaios, publicados em vários países do mundo. As obras e os autores que influenciaram a formação do seu pensamento político foram os temas centrais de sua conferência no Fronteiras do Pensamento, que marcou o início da temporada 2016 e a comemoração dos dez anos do projeto.

Nesta conferência autobiográfica, que poderia ser intitulada Da utopia à realidade, iniciou ressaltando a importância das ideias, que são as responsáveis pela orientação da vida. “As boas ideias fazem progredir a partir dos pontos de vista econômico, social e cultural. As ideias ruins, às vezes, nos fazem retroceder e nos orientam em direções erradas, nas quais acontecem desgraças, frustrações e sofrimentos. Mas as ideias estão sempre presentes, por isso é importante levarmos em conta e nos interessarmos por elas”, explicou. Foi na adolescência que se encantou pelas ideias de um livro. A noite que ficou para trás, de Jan Valtin, pseudônimo do escritor alemão Richard Julius Hermann Krebs, contava as aventuras do autor militante do comunismo na Alemanha nazista. “Era a vida aventureira e heroica de um militante desse partido que, segundo o livro, parecia lutar por um ideal de justiça, de fraternidade, de coexistência na diversidade, das crenças, dos costumes, das religiões. Algo que parecia traduzir um ideal muito generoso político, social e cultural.”

Aos 15 anos de idade, quando leu o livro, Vargas Llosa vivia em um Peru dominado pela ditadura de Manuel Odría, que durou oito anos. Segundo ele, a palavra política estava associada à desordem e ao caos. Mas foi movido pelas imagens do livro de Valtin ele ingressou na Universidade Nacional Maior de São Marcos, uma das mais antigas e populares instituições de ensino do país. “Tinha a tradição de universidade inconformista e rebelde, que havia resistido às ditaduras e tinha sido um dos focos de resistência de todas as ditaduras na história do Peru. Eu pensava que, se havia comunistas no Peru, eles deveriam estar nessa universidade. E que lá eu poderia contatá-los e talvez me juntar a eles. E efetivamente foi assim que aconteceu”, contou. Ele militou durante um ano no Partido Comunista. Como os colegas eram muito pragmáticos do ponto de vista ideológico, teve várias divergências. Nessa época, com o existencialismo em moda, Vargas Llosa entrou em contato com os textos dos franceses Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Maurice Merleau-Ponty, intelectuais com repercussão no mundo inteiro, que eram de esquerda mas não se identificavam com o partido comunista ou com o marxismo. “O que é literatura?, livro de Sartre, me defendeu contra o sectarismo e a visão dogmática do Partido Comunista naquele em que eu militei. Era um livro que abarcava muito mais coisas do que apenas a literatura. Me fez perguntar se essa vocação literária que eu descobri em mim quando era quase um menino seria possível num país como o meu, com desigualdades gigantescas, com uma minoria desfrutando de privilégios extraordinários enquanto as maiorias estavam muito empobrecidas e marginalizadas. Este livro me deu uma resposta positiva. Ele dizia que a literatura não era gratuita, pois as palavras são atos e feitos, e têm uma consequência na vida real”, salientou.

Para o escritor, a literatura é um instrumento que não apenas proporciona encanto e prazer, mas também move a história e pode encaminhá-la para a direção certa. “A vida humana, a condição humana e o mundo são mais complexos do que esta visão mecanicista que representa o materialismo dialético. As ideias de Sartre me protegeram contra a visão dogmática do comunismo que encarnava o Partido Comunista Peruano como os outros partidos dessa época, pois estavam profundamente impregnados com a visão rígida do marxismo, que era o stalinismo.” Nessa época, afastou-se do Partido Comunista, mas continuou a ser um homem de esquerda que acreditava que o socialismo traria o paraíso à Terra, com igualdade, justiça social e liberdade.

No final dos anos 1950, foi a Revolução Cubana que manteve este ideal socialista vivo em Vargas Llosa. Ele visitou Cuba pela primeira vez em 1962, durante o período da crise dos mísseis da União Soviética. “O que eu vi em Cuba me impressionou enormemente. Provavelmente, eu não vi tudo o que acontecia, mas o que eu vi me emocionou muito: uma cidade com um povo mobilizado, que parecia esperar a invasão do país mais poderoso da Terra, e estava disposto a lutar por uma revolução que havia convertido os quartéis em escolas e permitia se respirar um ar de fraternidade”, mencionou. Nos anos 1960, ele visitou Cuba por cinco vezes e foi descobrindo que a realidade do país se distanciava do romantismo que havia sido difundido, num processo que classificou de “lento mas constante desencanto”.

Um dos motivos de decepção foi a criação das Unidades Militares de Ajuda à Produção (Umap) que, para o escritor, era um eufemismo para designar os campos de concentração para onde foram enviados os contrarrevolucionários, os homossexuais e os criminosos comuns. O escritor enviou uma carta para Fidel Castro e foi chamado para uma reunião com outros escritores. O encontro durou 12 horas e as explicações dadas não convenceram os presentes. Posteriormente, Vargas Llosa escreveu um artigo criticando a invasão da Tchecoslováquia pelos soviéticos e o apoio dado por Castro à operação, e assinou um manifesto de protesto contra a prisão de Heberto Padilla, que chegou a ser vice-ministro de Comércio Exterior de Cuba e foi acusado depois de ser contrarrevolucionário. “Isso acabou significando a ruptura da minha relação com Cuba e, de certa maneira, a minha ruptura com o socialismo. Foi um período no qual eu me senti órfão. Tinha abandonado algo que, durante muitos anos, tinha me dado uma segurança no campo político”, declarou.

Nessa época, uma nova leitura abriu os olhos de Vargas Llosa para os caminhos equivocados de algumas ideologias: O ópio dos intelectuais, do filósofo francês Raymond Aron. Segundo o livro, a busca pela perfeição é inerente ao mundo intelectual, por isso o marxismo representa na aparência o tipo de perfeição que os artistas buscam. “Aron dizia: a democracia é imperfeita e, muitas vezes, está impregnada de corrupção. É verdade. Mas, no entanto, ela criou as sociedades mais civilizadas da história. E é o sistema que reduziu mais a violência”.

Ao ler O homem revoltado, ensaio filosófico de Camus, se deparou com o peso de algumas circunstâncias. “A ideia central do pensamento dele é: não se pode afastar a moral da política, porque, quando elas se distanciam, surge a violência. E o resultado é a carnificina, a injustiça brutal, a censura, a perseguição do dissidente, a tentativa de destruir intelectual e fisicamente quem pensa de maneira diferente e se afasta da linha ortodoxa.” Uma tentativa de uniformização da sociedade que também apareceu nos ensaios do filósofo francês Jean-François Revel, autor que tinha visto no socialismo a utopia e descobriu que a prática era distante disso.

“Acabei reconhecendo a democracia, aceitando que ela não era a máscara da exploração, como havia acreditado antes e como acreditavam os socialistas latino-americanos daquele tempo. A democracia efetivamente partia do pressuposto de que o paraíso não pode ser criado na Terra em termos sociais, mas que se podia ter sociedades aperfeiçoáveis e capazes de reconhecer os seus erros e corrigi-los”, afirmou. A democracia permite a coexistência na diversidade e é a melhor maneira de conter a violência que tem acompanhado a sociedade humana.

A fase seguinte e a evolução definitiva ao realismo em política aconteceram quando o conferencista estava morando na Inglaterra. Ele fez a leitura de grandes pensadores liberais, entre eles o filósofo político britânico de origem judaica russa Isaiah Berlin, que escreveu sobre os grandes inimigos da democracia e a tolerância, que ele considerava a essência do liberalismo. Também analisava a caricatura que é o pensamento liberal quando aplicado somente ao pensamento de mercado, da ideia de que um mercado aberto resolve todos os problemas. Berlin mostrava que não. “A liberdade era algo indivisível, que deveria operar na política, na economia, na cultura, no social, no individual, e que o verdadeiro progresso era ter mais opções para escolher em todos os campos da vida humana. Este era o progresso. E isso que representava, fundamentalmente, a ideia liberal”, ponderou.

Vargas Llosa falou sobre A sociedade aberta e seus inimigos, livro do filósofo austríaco Karl Popper, considerado um defensor da democracia liberal, que remete o pensamento totalitário a Platão. “Em A república, Platão tentou organizar a sociedade perfeita e praticamente eliminou a liberdade, nessa construção artificial de sociedade que é perfeita em que cada um vai ter uma função determinada, para que tudo funcione de maneira regulada e garanta a existência material, o bem-estar, e a educação e formação do cidadão. Mas esta ideia, que está por trás de trazer os paraísos à Terra, só pode ser materializada por meio de uma violência monstruosa”, declarou. Ele defendeu que os seres humanos são diferentes e que todas as ideologias que tentaram organizar a vida acabaram criando os piores infernos na história da humanidade.

“Com Popper eu encerro, porque ele representa em boa parte o que eu acredito, continua sendo o modelo ideal. Dessas sociedades imperfeitas, mas que são menos injustas e intolerantes do que aquelas criadas por outras ideologias, pois fizeram o homem avançar na luta contra o infortúnio e as injustiças”. De acordo com ele, essas ideias demoraram a chegar na América Latina, que descobriu na prática que não são os regimes autoritários ou o sonho da utopia através de uma revolução armada aquilo que vai trazer a felicidade, e os países que encarnam essas utopias estão vivendo hoje uma situação dramática de escassez e de violência política. “Essa democracia, que os intelectuais costumam desprezar tanto, é a que aos poucos vai criando espaços de coexistência na diversidade e traz a prosperidade, que é lenta para as nossas necessidades, mas que não representa o retrocesso – que costuma representar todas as sociedades totalitárias sem exceção. É possível ter, apesar dos problemas, uma visão mais otimista do que aquela que nós tínhamos no passado. Depois de muitos equívocos, a América Latina, aos poucos, vai entrando no rumo certo”, finalizou Mario Vargas Llosa.


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