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Pierre Lévy

Curadoria de dados e inteligência coletiva

O filósofo francês Pierre Lévy é um reconhecido pesquisador das tecnologias da inteligência. Segundo ele, o mundo vive a quarta revolução e chegará a um sistema semântico de metadata universal situado na nuvem e construído colaborativamente. A curadoria de dados dos usuários da internet e a inteligência coletiva foram os principais temas de sua conferência no Fronteiras do Pensamento. Lévy, que foi um dos conferencistas da temporada de estreia do Fronteiras na capital gaúcha em 2007, retorno ao palco do projeto no ano em que este comemora dez anos.

Um dos importantes defensores do computador e da internet para a ampliação e a democratização do conhecimento humano, Lévy iniciou retomando alguns tópicos de sua primeira conferência e traçando os principais acontecimentos da evolução do raciocínio humano. De acordo com ele, a curadoria de dados se aproxima da atividade de um curador de museu ou galeria de arte, que descobre, estuda, expõe as peças e as explica para os visitantes interessados. Na web, este curador trabalha com qualquer tipo de conteúdo digitalizado. “Esta atividade de seleção e organização dos dados se tornou uma atividade central da nossa época. Uma época em que quase a maioria da humanidade está conectada à internet”, explicou. Esta curadoria é uma das coisas mais interessantes que podem ocorrer no ambiente on-line e envolve amigos, conhecidos, colegas, relações profissionais e, até mesmo, pessoas que não conhecemos.

A curadoria de dados colaborativa faz parte da grande transformação que estamos vivendo enquanto civilização. Uma mudança pela qual nossos antepassados já passaram em seus tempos. “Quando inventamos a escrita e a fala, a linguagem, de uma hora para a outra, se encontrou materializada em signos que eram duráveis e poderiam ser acumulados. A nossa capacidade de memória cresceu de forma dramática. E novas formas de política, arquitetura e economia apareceram.” Inovações que surgiram no Egito, na Mesopotâmia e na China e continuaram ocorrendo. Novas formas de agricultura foram desenvolvidas, assim como formas de conhecimentos sistemáticos, como a astronomia. Com a criação do alfabeto, o ser humano passou a registrar os sons, anotando a linguagem em cerca de 30 signos determinados. E o mesmo ocorreu com os números, especialmente com os números árabes, que possibilitaram uma aritmética mais complexa e abriram caminho para novas criações, como o dinheiro para facilitar o comércio. “As civilizações que adotaram o alfabeto se tornaram mais poderosas do que civilizações interiores que continuaram a usar técnicas mais antigas de escrita.”

Uma outra grande inovação da comunicação foi o surgimento da impressão. A técnica permitiu multiplicar, de forma automática e industrial, os signos da escrita. “É quase certo que sem a impressão não teríamos tido a Revolução Industrial e a multiplicação e a difusão de jornais e livros, assim como a formação de bibliotecas que permitiram a revolução moderna científica. Não teríamos visto também a evolução da democracia moderna e a opinião pública surgindo a partir do século 18 de forma mais ampla, assim como a reforma religiosa e um grande número de ideologias não religiosas que se desenvolveram a partir do século 18 também”, avaliou.

Estas mutações de comunicação desempenharam um importante papel na consolidação das formas de pensamento. E é uma revolução similar às anteriores citadas – que Lévy defende – que estamos vivendo na atualidade. Ainda temos signos duráveis através da escrita e do alfabeto, mas eles não são mais apenas impressos. Também estão disponíveis em ambientes digitais, onde pequenos robôs que trabalham com algoritmos os pegam e os codificam em “0” e “1”, transformando naquilo que desejam: texto, música, imagem e outros tipos de arquivos. Qualquer tipo de dado pode ser manipulado e atualizado por meio da internet. “Se colocamos estas características juntas, a ubiquidade, a interconectividade e a atualização automática, chegamos a este universo de comunicação completamente novo que provavelmente vai dar lugar a uma civilização inteiramente nova, que ainda não conseguimos nem prever ou imaginar, porque estamos no início desta transformação econômica, política, cultural e científica.”

O mundo já presenciou as civilizações dos escribas, a da alfabetização e a da tipografia. O filósofo explicou que, hoje, estamos na civilização que trabalha com algoritmos. “Prevejo que a economia vai se basear na informação e no conhecimento. Tenho quase certeza que a próxima revolução científica não será nas ciências naturais, que já ocorreu no passado, e hoje vivenciamos os benefícios dessa mudança. A revolução do futuro se dará nas ciências humanas, porque teremos uma quantidade incrível de dados que vão dizer respeito à atividade humana.”

No final do século 21, apenas 1% da população mundial estava conectada à internet. Atualmente, este percentual atingiu 45%. E Lévy acredita que, em dois anos, mais da metade estará on-line. Uma medição demográfica que sinaliza este novo modo de comunicação, e que cloud computing e processamento de um grande volume de dados (big data) são as principais características. Grandes empresas, como a Amazon, e governos são os principais analistas destes dados. Mas uma nova mudança deve ocorrer. “Num futuro próximo, os indivíduos serão capazes de colocar em prática e de regular estes algoritmos que processam muitos dados. Um pouco como aconteceu nos anos 1960 e 1970, numa situação em que apenas os governos e empresas muito grandes tinham computadores. Nos anos 1990, já começamos a vivenciar uma época em que todos tinham computadores pessoais. No futuro, vamos passar por uma transição assim e conseguir personalizar programas muito poderosos”, ressaltou.

E outra alteração já ocorreu: com os dados acessíveis de forma onipresente na internet, os direitos autorais, que foram concebidos no surgimento da impressão, estão sendo colocados em questão. Eles não vão se tornar obsoletos, mas hoje um autor não depende mais da editora para publicar um livro, assim como outros materiais podem ser divulgados na internet sob licenças como a Creative Commons, criando um tipo de direito autoral coletivo. E a redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e Pinterest, são o palco para esta troca de dados. “Ao contrário da forma clássica e tradicional de comunicação, que era controlada por editores, chefes de redação e vários tipos de controle institucional, neste novo sistema de comunicação não temos mais este controle. Todo mundo é capaz, ao menos tecnicamente, de desempenhar todos os papéis: leitores, espectadores, críticos, autores, editores ou curadores no sentido em que escolhemos selecionar um número de dados que julgamos interessante.”

Esta não é uma revolução apenas técnica, mas também social e cultural. Não existe uma hierarquia imposta na internet, embora algumas pessoas tenham mais recursos ou sejam mais conhecidos. Mas todos os usuários atuam como pares que se comunicam, num processo que Lévy classifica como estigmergético, cuja comunicação não é simplesmente do usuário A para o usuário B. “Por meio da utilização de algoritmos, eles podem selecionar ou criar dados e podem colocá-los nesta memória coletiva. Eles vão usar os mesmos algoritmos para filtrar estes dados que já estão na memória coletiva e se apropriar deles, transformando, avaliando ou categorizando de uma maneira pessoal e reenviando-os para a memória coletiva.”

Este é o processo de construção desta memória que é imensa e foi possibilitada pela automatização. A curadoria colaborativa de dados é uma gestão que ocorre em diversas áreas, como a conservação do patrimônio cultural, por exemplo. A atividade de museus e bibliotecas passa a ser cada vez mais digitalizada, colocando os dados à disposição. Também a forma habitual de categorizar os dados passa a não valer mais. “Uma tendência recente é pedir aos amadores para agirem como um grupo para desempenhar este papel de curadores. Descrever o conteúdo dos dados e categorizá-los, refazendo este catálogo de forma coletiva. Será que é perigoso e todo mundo tem esta competência? Ficamos inquietos, mas vamos pensar no que acontece com a Wikipédia. No início, muitos ficavam com medo dessa enciclopédia onde todos podem escrever. No entanto, tem funcionado bem, pois os erros cometidos por uns são corrigidos por outros”, explicou.

O trabalho de museus e bibliotecas pode ser feito em todos os lugares, por qualquer pessoa, transformando profissões antigas como as de curador de museu ou bibliotecário. Outras áreas também são afetadas por esta revolução, como a história, a geografia, a sociologia e a economia. Nesta última, por exemplo, existe uma grande quantidade de dados sobre o que as pessoas compram e gostam, e isso está impulsionando a criação de produtos e serviços.

Na área do jornalismo, os dados também estão gerando novas atuações. Os jornalistas de dados analisam informações abertas e disponibilizadas por governos e instituições para buscar matérias relevantes. E, nas escolas, também é preciso orientar os jovens a lidar com fontes de informação confiáveis e a pesquisar dados essenciais na internet.

Para Lévy, esta é uma nova situação que requer uma nova educação e o surgimento de novas habilidades do cidadão. Ele destacou três grandes tipos de competências que seriam necessárias para executarmos esta curadoria de dados de forma inteligente e relevante:

- inteligência pessoal: precisamos aprender a dar prioridade a certos assuntos, pois não é possível ser ótimo em curadoria de dados em todos os temas. Também é importante ser capaz de escolher boas fontes de informação e fazer a interpretação dos dados, mantendo a categorização para facilitar que sejam encontrados.

- inteligência crítica das fontes: fazer análise crítica das fontes e nunca confiar em apenas uma delas, escolhendo canais de diferentes ideias, conceitos, políticas e línguas. E também fazer análise pragmática, verificando a coerência da fonte e evitando a manipulação e a ilusão dos dados.

- inteligência coletiva: praticar a comunicação estigmergética, criando memórias locais e globais. Também manter o poder que temos como autores e a responsabilidade de categorizar os dados como curadores. Porque tudo o que fazemos na internet (desde a produção ou o compartilhamento de um conteúdo e até mesmo um “like” no Facebook) terá uma influência nesta memória coletiva.

A inteligência coletiva traz esta noção do conhecimento coletivo. E as competências citadas são importantes para a formação e a atuação do indivíduo e para o caminho que queremos seguir. “Não é porque agora temos uma inundação de algoritmos trabalhando a nosso favor que teremos que abdicar de tudo o que trouxe honra para o espírito humano, que é a consciência, a significação e a memória”, finalizou Pierre Lévy.


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