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Saskia Sassen

Debate Especial Saskia Sassen e Richard Sennett

Dois dos mais renomados sociólogos urbanos da atualidade, a holandesa Saskia Sassen e o norte-americano Richard Sennett protagonizaram uma noite em que a discussão esteve centrada nas cidades, com seus conflitos e suas possibilidades. No debate especial promovido pelo Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, eles abordaram o tema da edição 2015 do seminário internacional, Como viver juntos, focando em temas como interdependência, cooperação, migração e zonas fronteiriças.

Richard Sennett analisa, em seus estudos, a organização urbana e as consequências sociais e emocionais do capitalismo contemporâneo. A cooperação e a interdependência foram os tópicos principais de sua fala. Segundo ele, a ideologia econômica atual não motiva a solidariedade e a cooperação, além de diminuir a participação nos sindicatos, especialmente depois do colapso financeiro da última década. “A nova economia, que é uma economia neoliberal, enfatiza muito a autonomia. Imagina que a colaboração e a cooperação são coisas que só os fracos fazem. Se você fosse um ator na nova economia, então teria de se virar por conta própria. Há motivos estruturais para isso: a economia é a curto prazo, as pessoas não ficam no emprego durante muito tempo e acabam não construindo elos sociais", ressaltou.

No entanto, esta não é toda a história por trás do cenário. A partir da década de 1970, Sennett estudou relações cívicas e sociais em comunidades étnicas carentes e encontrou muita cooperação entre elas. “Parece impossível imaginar isso hoje. Quando estudei um grupo de comunidades carentes em Paris na década de 1980, a comunidade judaica e várias comunidades muçulmanas trabalhavam juntas em projetos específicos. Todo mundo tinha na cabeça os problemas no Oriente Médio, mas lá na cidade esses grupos cooperavam. Nos Estados Unidos, a mesma coisa acontecia para comunidades carentes de negros e brancos. Cada vez mais, desde a década de 1960, eles trabalhavam juntos. E isso acabou desaparecendo", explicou. Para ele é isso que caracteriza o tempo atual: o desaparecimento da ideia de interdependência, de que um precisa do outro, de fazer parte de um grupo.

Sennett mencionou que muitos pensadores da sociologia do passado como Georges Sorel e Gustave Le Bon acreditavam que era a violência que unia os seres humanos. “Mas eu não acredito nisso. Acho que algo que nós temos que superar é um tipo de ideologia que iguala a cooperação e diz que ela está em conflito com a concorrência. E a concorrência é algo em que nem todos ganham. Torna-se impossível, portanto, ter qualquer tipo de cooperação, seja política ou social. Então, passei a pensar em formas pelas quais poderíamos analisar a cooperação e a concorrência como algo que pode acontecer ao mesmo tempo."

A resposta, segundo ele, pode ser uma forma dialógica de cooperação, encarada como um processo e não como um meio de se atingir um fim. Ou seja, as pessoas cooperam umas com as outras porque isso é uma vivência e uma aptidão que se tem. Para isso, são necessárias três habilidades:

- saber ouvir: para entender o significado que está por trás das palavras utilizadas.

- usar a voz subjuntiva: uma linguagem que deixe espaço para a ambiguidade, para que possa existir um relacionamento mesmo com ideias diferentes e falta de consenso.

- estabelecer distâncias sociais: permitindo que todos colaborem e estejam juntos, mas que possam manter suas próprias opiniões e posicionamentos.

“O que eu tentei mostrar de forma breve é que há algo errado na nossa sociedade na forma como enxergamos a cooperação. Nós a enxergamos como se fosse um dom moral. 'Você é uma pessoa boa, então vai cooperar com os outros.' Mas trata-se de um elo social, e é um elo que está enfraquecendo", observou. Para Sennett, praticar a cooperação desta forma é um processo contínuo. “Não se pode escrever uma lei dizendo 'seja dialógico'. Mas acho que quando cooperamos em práticas concretas nós devemos tentar seguir estas regras. E com isso vamos conseguir esse elo social nas nossas vivências", finalizou.

Saskia Sassen é uma referência na área da sociologia urbana por suas análises sobre os fenômenos da globalização e da migração urbana. Concordando com algumas ideias expostas pelo marido e discordando de outras, ela falou mais sobre o aspecto da interdependência que atinge as cidades, especialmente as maiores cidades do mundo, como Nova York e Londres, mas também São Paulo e Rio de Janeiro. Ou seja, como o capital financeiro está adquirindo grandes espaços e eliminando o tecido urbano, não em um sentido de cooperação, mas em uma rede geográfica de extração. “Quando uma corporação, uma pessoa jurídica, compra uma propriedade, a tendência é produzir um megaprojeto. Isso elimina todo o tipo de elemento de tecido urbano – ruas pequenas, praças". De acordo com ela, esse tipo de projeto desurbaniza o espaço urbano e diminui os espaços de convivência. As cidades sempre tiveram vida longa, e muitas das antigas acabaram se renovando. “Mas quando se tem essa pegada enorme, de megaprojetos altamente densos, você está introduzindo rigidez no tecido urbano", completou.

Saskia enfatizou que, se existe um lugar onde aqueles que não detêm o poder possam fazer história, então há economia e cultura. E isso acontece nas cidades. Não acontece num grande condomínio ou num parque industrial, pois as pessoas acabam perdendo a capacidade de serem sujeitos urbanos. “Na hora do rush, quando todo mundo está correndo para pegar um trem ou um ônibus, os atores são sujeitos urbanos. Sejam ricos ou pobres, todos querem se movimentar, e ir para algum lugar." Para ela são esses momentos que definem uma cidade e que fazem com que ela tenha uma voz.

A pergunta que a conferencista sempre faz é quem, afinal, é dono da cidade? “Acho que nós vivemos num mundo onde as nossas economias geram um novo tipo de formação, que eu diria que é muito problemática. Algo que funciona como uma formação predatória. Não é uma questão de desigualdade, não é uma questão apenas dos ricos. É algo bem mais complexo e intratável, mais intangível e difícil para conseguirmos entender." Para exemplificar, citou o exemplo de Londres, cuja parte central da cidade pertence mais aos sheiks do Qatar do que à Rainha da Inglaterra. Saskia defende que este movimento não pode ser classificado como gentrificação, que é o processo de troca de um grupo por outro com maior poder aquisitivo em um determinado espaço, que passa a ser visto como mais qualificado. A questão é ainda mais complexa e envolve todos os sujeitos da cidade, inclusive os imigrantes.

Falando nesse tema, relacionou-o com as migrações no mar Mediterrâneo. “O que estamos observando aqui? Será que isso é migração? Será que é o termo correto? Não. O imigrante histórico é aquele homem e aquela mulher que saem em busca de uma vida melhor. O que estas pessoas estão buscando é simplesmente o mínimo de vida. A vida posta a nu, os elementos mínimos necessários para sobreviver. E o pano de fundo é uma perda radical do habitat: a multiplicação de zonas de guerra, desertificação, inundações e 200 milhões de hectares de terras comprados por 15 governos e 105 corporações nos últimos cinco anos. Isso manda embora todos os pequenos agricultores. Para onde essas pessoas vão? Para os centros urbanos. Então, temos que fazer novas cidades, e que não sejam cidades corporativas", observou. Segundo ela, Detroit e outras cidades na Itália e na Alemanha que estão abandonadas poderiam ser assumidas por imigrantes, que criariam um novo mundo, uma alternativa e nova maneira de fazer as cidades. “Estamos perdendo essa capacidade de fazer tecidos urbanos nas cidades. Mas essa história emergente, algumas boas ou ruins, algumas trágicas, mas com muitas possibilidades, deveriam ser vistas como já vimos no passado: como forças para a construção de novas cidades, e fugindo do controle corporativo, em vez de ficar acrescentando favelas", finalizou.

No momento reservado para perguntas da plateia, Richard Sennett e Saskia Sassen falaram sobre zonas de fronteira, economia criativa nas comunidades, individualismo, tecnologia e redes sociais, mobilização e construção de cidades onde possamos efetivamente viver.


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