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Saskia Sassen

Debate Especial

Dois pensadores da sociedade e das relações urbanas desafiaram o nosso modo de pensar as metrópoles e os elos sociais. O casal Richard Sennett e Saskia Sassen, responsável por obras de grande influência nas áreas da sociologia e urbanismo, expôs dois temas e então promoveu um grande debate a partir das questões colocadas pelo público do Fronteiras do Pensamento.

A sociabilidade

Richard Sennett deu início à conferência discorrendo sobre a crise e como ela afeta a ligação social entre as pessoas. “Quando nós (norte-americanos) tivemos a nossa crise financeira, pensei 'a revolução chegou!'. As pessoas iriam às ruas, os bancos seriam tomados pelas multidões e haveria um grande momento de coesão social durante a crise. Infelizmente, conforme sabem, isso não aconteceu. Tivemos uma grande crise financeira e não houve solidariedade social que resultasse da resposta pública a isso.” Ademais, o número de pessoas filiadas a sindicados caiu após a crise, grupos políticos que faziam lobby para a reforma financeira contavam com um número cada vez menor de membros e um clima de desespero se instaurou.

O sociólogo nos convidou a pensar no porquê desses desdobramentos, o que fez essa liga social se tornar fraca. O primeiro ponto abordado foi a distinção entre solidariedade e sociabilidade. O tipo de resposta que esperamos após uma crise é a solidariedade, na qual as pessoas se unem, reagem e reivindicam como um único corpo. Já a sociabilidade se aplica mais às sociedades complexas, como aquelas que conhecemos hoje, “uma ligação entre pessoas que são diferentes ou têm pontos de vista diferentes”, definiu Sennett, “ou seja, pessoas que não são iguais e talvez nem gostem umas das outras podem, mesmo assim, estabelecer uma ligação social”.

O ponto de vista da sociabilidade é mais realista do que o da solidariedade, que implica uma união baseada na adoção de uma mesma crença. A sociabilidade pode aparecer principalmente sob duas formas: 1) as pessoas estão acima de suas diferenças, elas encontram uma linguagem comum para se comunicar, como propôs Immanuel Kant acerca do cidadão; 2) ao expor as diferenças das pessoas umas às outras, a interação entre elas e a exploração de suas diferenças é o que cria a ligação social, na proposição de Georg Simmel.

Para sociedades complexas, a sociologia de Simmel parece nos dar o caminho para a compreensão dos fenômenos contemporâneos. O autor explora este assunto na obra Juntos, os rituais, os prazeres e a cooperação política. Para ele, a ação de lidar com as diferenças caracteriza a sociabilidade como uma habilidade, isto é, algo que se aprende e se desenvolve, pois o que fazemos naturalmente é buscar a solidariedade.

Há três habilidades dialógicas propostas por Sennett acerca da sociabilidade. O conceito de habilidades dialógicas provém do campo literário, mais especificamente da obra de Mikhail Bakthin, que estabelece que só lemos um romance porque não sabemos o que está acontecendo. Se soubéssemos o final da história, não o leríamos. Analogamente, na vida social prestamos atenção em outras pessoas por não saber qual será o resultado final das relações e não por partilhar uma ideologia comum.

A primeira habilidade para interação em um ambiente social complexo é a escuta (pouco praticada pelos políticos). Há uma habilidade de escutar as pessoas mesmo quando elas não conseguem se expressar com as devidas palavras, deduzir do contexto o que de fato as pessoas querem dizer. Envolve a habilidade de sentir empatia acerca do que as pessoas estão dizendo. Também está relacionada à habilidade de devolver às pessoas aquilo que elas estão buscando expressar. Um elo forte é criado a partir da interação que se estabelece a partir da escuta.

A segunda é a habilidade de direção, que se utiliza de uma voz subjuntiva. Por meio dela, abre-se um espaço para a ambiguidade em situações dialógicas sociais, o que permite trazer as pessoas para o contexto, criando elos.

A terceira habilidade refere-se a criar distâncias sociais e administrá-las. Diferentemente da proposta marxista de erradicar as distâncias, para que todos existissem como um, unidos, seria se colocar a partir das distâncias (como mulher, como negro, como programador de softwares etc.). A identidade se consolida em uma forma de desafiar as pessoas a dialogar. É uma habilidade de gerenciamento das distâncias sociais. Seria como dizer “eu não entendo exatamente a sua experiência, então conte-me mais”. Essa habilidade aponta pela preferência dada à empatia sobre a identificação. Uma vez que há diferença entre as identidades, a identificação (“eu sei como você se sente”) é uma postura menos madura do que a empatia (“eu não sei como você se sente, mas sei que isso é muito importante para você”). É a habilidade de administrar as diferenças para se reconhecer o que não há em comum.

“A minha ideia sobre as sociedades modernas é que nós estamos perdendo as nossas habilidades sociais, como pensar em comunidade, como lidar com colegas de trabalho ou, nas cidades, como nos relacionarmos com pessoas diferentes de nós”, concluiu Sennett, que acrescentou que as mídias sociais e o ambiente urbano têm forte impacto sobre a perda das habilidades sociais. “Existe uma crise de sociabilidade que permitiria nos expressarmos”.

As cidades globais

“As cidades estão entrando em uma nova fase”, iniciou Saskia Sassen. As mudanças trazem desafios como a falta d'água e novas formas de violência, nas quais as gangues estão assumindo o controle de partes da cidade.

As cidades são seres complexos e incompletos, residindo na incompletude, no caráter inconclusivo da cidade, na sua capacidade de se reinventar. A longevidade de muitas cidades se deve também a esse caráter.

Perpassam nas cidades questões ambientais e sociais, com destaque para o fenômeno contemporâneo dos refugiados. As guerras têm gerado um grande movimento de pessoas em fuga para regiões pacíficas.

Outra questão atual é a perda de habitat. Isso se deve não apenas às guerras, mas também à atuação dos grileiros e do aumento das terras utilizadas para agricultura e pecuária que resultam na perda de fauna e flora e expulsão de pessoas. A cidade acaba se tornando o último local para onde aqueles que não possuem habitat poderão ir.

Saskia não vê a questão dos refugiados como uma migração. “Os EUA receberam uma série de crianças que viajaram sozinhas fugindo da violência. Não são migrantes, isto é, pessoas que saem em busca de uma vida melhor. Essas pessoas não querem uma vida melhor, eles querem aquele elemento mínimo de vida”, argumentou. Os refugiados inauguram uma nova fase nas cidades.

As cidades se tornam destinos, recebendo refugiados, muitas vezes com formação universitária, mas que não têm poder. As metrópoles abarcam um grande número de pessoas sem poder. Todavia, não é interessante “achatar” essas pessoas, uma vez que elas podem fazer uma economia local, uma cultura e até uma política. “Eles não se tornarão necessariamente poderosos, eu estou abordando a questão de ter ou não ter poder, pois a cidade é um espaço muito diverso que permite uma terceira diversidade, que é uma complexidade dos sem poder, a possibilidades de eles fazerem algo”, discorreu.

As cidades vivem problemas estruturais – há edifícios desmoronando, sistemas de encanamento ruindo e outros problemas decorrentes da antiguidade das construções – e problemas ambientais, “cada superfície em uma cidade precisaria trabalhar com o meio ambiente, é preciso ir muito além de recolher águas pluviais e reaproveitar essas águas”. A socióloga cita, como um caso de avanço no setor ambiental, uma nova bactéria desenvolvida por biólogos que, se colocada em “água marrom” (degradada em banheiros, cozinha etc.), produz a molécula de um plástico durável, resistente e biodegradável. A água degradada, nesse caso, além de não ser descartada, ganha novo uso. A cidade se fortalece nesse tipo de recodificação de algo que era negativo para algo positivo.

Todos os setores econômicos que não são urbanos têm um momento urbano na forma de serviços especializados (advocacia, contabilidade etc.), pois trabalham globalmente. Os produtos da mineração ou da agricultura, por exemplo, não são consumidos localmente, mas são comercializados globalmente.

As cidades passam por um momento de fragilidade, por causa da crise, da desigualdade em massa, de ser o último refúgio para aqueles que foram alvo das ações dos grileiros.

Após a crise, foram buscados novos setores de investimento, e um dos mais promissores foi a compra de terras em áreas urbanas. De acordo com uma pesquisa realizada por Sassen, as 100 principais cidades do mundo estão recebendo investimentos locais e estrangeiros de pessoas interessadas apenas na compra de imóveis e terras. “Em Amsterdã, um investidor estrangeiro comprou 12 edifícios antigos e tombados no centro da cidade; em Londres, a nobreza do Qatar tem mais propriedades do que a família real inglesa”, apontou.

Esse tipo de aquisição pode aumentar a densidade nas cidades de forma impactante. O problema é que este processo está gerando mais desurbanização do que urbanização. Os megaprojetos se sobrepõem a praças e locais públicos, convertendo diversos espaços em áreas privadas. “Torres e torres de escritórios, áreas corporativas, erradicam a incompletude

da cidade”, problematiza a conferencista. Sem o caráter incompleto, os sem poder não poderão fazer história (farão a limpeza dos prédios, mas não história). “Os espaços incompletos são zonas estratégicas nas quais podemos implantar o nosso conhecimento, inovar de maneiras extraordinárias.”

Voltando à questão dos refugiados, Saskia elucida que cidades subpopulosas estão encontrando potencialidade para este cenário. Em um pequeno vilarejo no sul da Itália com apenas 17 habitantes, idosos em sua maioria, o bispo incentivou os refugiados a assumirem a cidade e desenvolverem nela sua cultura. Esta é uma saída melhor do que aumentar sem fim uma cidade, desurbanizando-a, porque as beiradas desse espaço urbano são locais de miséria.

Desafios urbanos

Durante o debate, Saskia abordou a questão dos centros urbanos das cidades globais e a necessidade de ampliar o número de centros nas metrópoles, um processo de descentralização. Também é preciso transformar espaços privados em locais públicos.

Ela falou sobre a implantação das ciclovias em São Paulo, relembrando a dificuldade deste processo em Nova York, cidade que já incorporou as bicicletas aos seus meios de transporte. “É um desafio. Pode ser realizado, no entanto, e espero que possa ser feito não com punho de ferro, mas sim de forma mais amena.”

Richard Sennett discorreu sobre o problema da violência urbana, relembrando sua infância em Chicago e a atitude de promoção da segurança do bairro pela própria comunidade (que estava nas mãos de gângsteres). O problema da violência não se resolve apenas com cooperação e coesão social, pois requer a ação do Estado, com um policiamento que vai além da coragem individual e da corrupção. Há uma visão da burguesia centro-esquerda que imagina que liberar as pessoas para que estejam umas com as outras, liberar a energia empresarial das comunidades, as tornariam boas. Todavia, não é isso que ocorre. “Sou resistente à noção de que uma melhor forma de vida se consegue eliminando o Estado”, afirmou.

Abordando mais diretamente a questão das ciclovias e da mobilidade em São Paulo, Saskia relembrou a implementação do TransMilenio em Bogotá e como a classe média e as classes mais altas não gostaram da novidade. “Uma liderança forte precisa saber lidar com o protesto”, ressaltou, “eu não digo suprimir, mas lidar. Quando foram implementadas as ciclovias em Nova York, muitos protestaram, mas agora é algo comum. Eu respeito uma liderança municipal que vislumbra o futuro.” Acrescentou que, na Europa, a população não quer ter carros, pois custam caro (ter e manter) e atrapalham. Mesmo quem tem maior poder aquisitivo opta por bicicletas e “motorinos”. As culturas estão mudando, e novas maneiras de lidar com a questão do transporte emergem.

“Sempre que temos essas discussões, eu fico tão triste, por ser idoso, por estar além da idade em as ciclovias são algo atrativo”, contrastou Sennett, “o que as pessoas da minha idade precisam é de transporte público”. Ele defende este ponto como um importante assunto em pauta, que é preciso reduzir o uso de automóveis, mas não apenas com uma proposta que privilegia as pessoas fisicamente móveis ou aptas à prática do ciclismo. É importante considerar investimentos em acessibilidade para idosos e pessoas com necessidades especiais de locomoção. Aponta para Londres como uma cidade que investiu muito em ciclovias e negligenciou a questão da acessibilidade. Uma cidade precisa oferecer boas condições a todos os cidadãos e não apenas a grupos específicos.

Saskia Sassen apontou que em São Paulo a descentralização também tem papel fundamental, pois há uma grande aglomeração no espaço central. Com mais centros espalhados por toda a cidade, a aglomeração é reduzida. Londres é um bom exemplo de descentralização. A autora colocou também a possibilidade de uma cidade abarcar áreas mistas. Na China, há cidades que estão se urbanizando sem eliminar as áreas rurais produtivas, ou seja, a existência de hortas e pomares em meio ao espaço urbano. São novos modelos de cidade que estão emergindo.

Sobre o aspecto ambiental, Sassen destacou a força do trabalho coletivo e citou o exemplo de uma cidade de governo socialista no Texas. Em um projeto habitacional nos bairros pobres, foram liberados recursos para a construção das moradias, e uma bactéria foi usada na tinta aplicada sobre superfícies de concreto. Quando a bactéria vive no concreto ela deposita um cálcio que combate gases responsáveis pelo efeito estufa. A ação que aponta para a melhoria da qualidade do ar “mobiliza a comunidade como um todo, uma coisa pequena que dá suporte a outra, e assim se cria um tecido”. E completou: “Não estou falando de romance na comunidade, mas de trabalhar junto para realizar algo positivo”.

Uma questão abordada que afeta seriamente a Sennett são os monopólios no Vale do Silício. Antes um local de pesquisa e inovação, tornou-se um ambiente livre apenas no discurso. Ao longo dos últimos 20 anos, o número de empresas reduziu e monopólios foram formados. “Isso é feito de forma bastante brutal: alguém tem uma boa ideia e há direitos autorais e uma patente sobre ela; então, um desses gigantes, como a Google, irá comprá-lo ou tirá-lo do mercado”. O volume de inovações nessas grandes empresas vem diminuindo. Os monopólios privilegiam o desenvolvimento de tecnologia A em vez de B. Pode-se imaginar que as melhores tecnologias sobreviveriam, mas não é isso que ocorre. Quanto mais poderosas as empresas, menos elas se interessam em pesquisa e maior interesse em comercializar um número limitado de tecnologia. Há uma degradação do nível da tecnologia em função do monopólio tecnológico. “O presidente Obama deveria procurar pequenos empresários antes que eles sejam extintos.”

Saskia Sassen e Richard Sennett abordaram ainda a crescente popularidade de Donald Trump nos Estados Unidos, a diversidade de imigrantes que formou a cidade de Nova York e as relações de cooperação e poder no âmbito familiar.


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