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Eduardo Giannetti

Debate especial: Somos a civilização da leveza?

O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti trouxeram dois ângulos distintos a respeito da relação dos indivíduos com o mundo do consumo. Para Lipovetsky, o consumo não pode ser criticado nem idolatrado. A solução para o futuro, criando uma civilização consciente, responsável e sustentável, está na tecnologia e no investimento em educação e cultura. Giannetti, por sua vez, relacionou a crise ambiental com a crise psíquica dos indivíduos, cuja resposta estaria no resgate de valores mais primordiais. Estes foram os pontos centrais do debate especial da temporada 2017 do Fronteiras do Pensamento, intitulado Somos a civilização da leveza?

Considerado um dos gurus da pós-modernidade, Lipovetsky é um dos principais pensadores contemporâneos para os temas da moda e do consumo. Teórico da hipermodernidade, ele afirma que a leveza invadiu a nossa rotina e transformou o nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal. “Em todas as civilizações houve um lugar que foi dado à leveza. Por exemplo, na existência de festas, de jogos e de momentos de descontração. Mas também no imaginário. As sociedades sempre imaginaram poderem escapar do peso. O imaginário de Ícaro, por exemplo, que construiu asas com cera e se elevou na atmosfera. Tomado por uma embriaguez dessa leveza, ele acabou sendo queimado pelos raios do Sol.”

Lipovestky, então, perguntou: será que, nesta sociedade de leveza, o futuro nos reserva um destino similar ao de Ícaro? Ele explicou que a sociedade contemporânea de consumo em massa entrou em uma nova etapa: o hiperconsumo. Esta é uma era que se caracteriza pela excrescência de produtos, marcas e publicidade, e na qual somos tomados por uma lógica de pagamento e troca, que inclui até mesmo as coisas mais elementares da vida. “Sempre definimos a modernidade por conceitos como o desencantamento, a secularização, a racionalização. Mas eu acredito que há uma outra dinâmica, que foi colocada pela modernidade, que é a vontade de aliviar a existência. É uma bela fórmula de Nietzsche que diz que, para os modernos, há uma vontade de um alívio universal da existência. As culturas antigas sempre tiveram maneiras de aligeirar e aliviar a pena dos homens. Com a religião, com a magia, principalmente para preparar para o além. Enquanto que os modernos quiseram transformar a vida cotidiana, fazendo recuar a morte, o sofrimento e a fome. E a sociedade de consumo, que surgiu no meio do século XX, se inscreve nessa lógica.”

A sociedade de hiperconsumo se caracteriza por um imenso encantamento a respeito das coisas “leves”. Valores de peso como o trabalho e o sacrifício são abandonados em detrimento de outros como prazer e lazer. E a leveza de viver se resume à compra e à distração de massa num processo que funciona como o mercado da moda e que está em constante mudança de modelos. O objeto principal deste mundo do consumo, hoje em dia, é o smartphone, e a humanidade vive mais “leve” do que o próprio “leve”, inclusive nos nossos atos de consumo. “O paradoxo é que, à medida que o nosso mundo se encontra reestruturado pelo princípio da leveza, ele nos parece cada vez mais pesado. Nós vivemos mais tempo e em boa saúde e as grandes fomes no mundo desapareceram. No entanto, o estresse, a pressão e as ansiedades tornaram-se moeda corrente. O consumo, no início, parecia algo leve, que nos permitia viver tranquilamente, sem muitos problemas. Mas, na verdade, não é isso que acontece. O automóvel é uma coisa leve, mas hoje estamos o tempo todo em congestionamentos. Nada mais pesado do que os congestionamentos.”

O leve ficou pesado por excrescência de si mesmo. Nesse ritmo, as necessidades não param de crescer, mas o orçamento das famílias não cresce da mesma maneira. O resultado é que todo o esforço e o trabalho acabam sendo voltados apenas para o consumo e no sonho alimentado pelas pessoas de uma existência mais leve. “É a partir daí que vemos o crescimento de novas expectativas em relação ao consumo. Existem duas. Alguns defendem que, diante dessa proliferação de necessidades que a Terra não vai poder suportar, é preciso reduzir as necessidades. É preciso institucionalizar o que se chama de decrescência, o desconsumo. O imaginário da simplicidade voluntária, dizendo que é preciso retornar às coisas mais elementares. Vamos nos livrar desse peso excessivo do consumo que não nos torna felizes. E que então devemos defender uma nova sabedoria que consiste em reduzir as necessidades. E há, por outro lado, uma segunda escola que diz que finalmente o consumo não é tão ruim. A gente aproveita um pouco isso, mas precisamos encontrar novas tecnologias na existência. Tecnologias frequentemente centradas no slow life, no lento, em saborear o presente, o instante da vida.”

Lipovestky afirmou não acreditar na primeira opção, a do desconsumo, pois ela representa uma utopia que não tem chance de se realizar. Para ele, a segunda opção é mais viável, configurando uma boa opção para o futuro, visto que logo a humanidade será composta por 10 bilhões de indivíduos que precisam, obrigatoriamente, se alimentar.

O filósofo francês ressaltou que hiperconsumo não deve ser elogiado intempestivamente, mas também é algo que não pode ser diabolizado. A solução, segundo ele, é a busca por novos equilíbrios, que permitam o desenvolvimento sustentável com tecnologias limpas e energias renováveis. “O caminho para o futuro talvez esteja apenas na inovação. A inovação não é uma palavra ao vento. A inovação exige meios de parte dos nossos governantes que têm que mostrar que são responsáveis em relação aos desafios do futuro e do planeta. E desenvolver a inovação significa, fundamentalmente, investir no campo da pesquisa, e, ainda mais fundamentalmente, no domínio da educação, da formação. Eu penso que é o futuro da nossa humanidade, e é o único caminho que permite o desenvolvimento do nosso planeta, mas também dos indivíduos. É o único caminho, pois eu não sou daqueles que diabolizam o consumo. São os intelectuais que diabolizam o consumo. Mas ele traz muitas coisas, inclusive o consumo médico, que nos permite viver mais. É um pouco fácil diabolizar o consumo. Mas, ao mesmo tempo, o que é desagradável é quando o consumo se torna fim, um ideal de vida. O consumo não é um ideal. Ele pode ser um meio, mas não um ideal. Os homens não se definem essencialmente pelo consumo.”

Dessa forma, o enaltecimento do consumo não é o melhor que podemos sonhar para o século XXI. É preciso dar novos caminhos para que ele consiga inovar. “Não vamos conseguir recuar o universo do consumível com belas frases. Vamos fazer recuar o imaginário do consumo dando aos homens e às crianças bem cedo outros objetivos na vida, além de ir ao supermercado e comprar marcas. Não é um drama absoluto. Não é um desastre. Mas temos que propor outra coisa à humanidade.”

Lipovetsky ressaltou que a paixão pelo consumo é uma das paixões dos homens, mas que, frente à paixão pelo saber e pelo conhecimento, perde a sua importância. “A escola tem um papel fundamental, na minha opinião, no século XXI, porque nós estamos na sociedade do conhecimento. Então, é pela via da inteligência que poderemos solucionar os grandes problemas da humanidade. Por meio da escola, podemos dar às crianças o gosto pela cultura, pela reflexão, pela criação artística. Porque isso também se aprende. Penso que, na sociedade da leveza, temos que fazer a distinção entre duas formas de leveza.” Segundo o filósofo, existem dois tipos de leveza: a do consumismo e da superficialidade, e a leveza que convoca o trabalho sobre si, com construção e cultura. Uma sociedade não se forma apenas pelo ato do consumo. Ela precisa da criação. Lipovetsky complementou com uma frase do escritor francês Paul Valéry: “É preciso ser leve como o pássaro e não leve como a pluma”. “A pluma é o consumível. O pássaro é aquele que controla a leveza. Uma leveza que não é tão somente a superficialidade, mas que é a construção do futuro por meio das coisas que nós gostamos. E é com essas coisas que nós poderemos fazer recuar o império do consumismo”, finalizou. 

Economista, cientista social, professor e escritor, Giannetti analisa em seus livros aspectos da vida humana e ocidental, como economia, política, meio ambiente e religião, idealizando um futuro para o Brasil, que se mostra uma alternativa aos modelos já conhecidos e rumo a um desenvolvimento pautado pelos próprios valores. Em sua exposição, abordou a crise civilizatória e o lugar do consumo nos impasses e dilemas enfrentados atualmente no mundo. 

Giannetti fez de ponto de partida uma frase da Carta Encíclica Laudato Si’ do papa Francisco, na qual critica o consumismo e reforça a necessidade de combater a degradação ambiental e as alterações climáticas: “Os desertos externos estão crescendo no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos”. Assim, abordou as duas questões: os desertos externos, representados pela crise ambiental, e os desertos internos, a partir do que chamou de crise da ecologia psíquica.

Na parte dos desertos externos, iniciou falando sobre a relação entre a sociedade moderna ocidental e o mundo natural. “A promessa da tecnologia moderna sempre foi o domínio que o homem exercerá de forma crescente sobre o mundo natural. Grandes pioneiros da ciência aplicada à tecnologia, como Francis Bacon e o próprio Descartes, sempre antecipavam a conquista de um assenhoramento que a humanidade passaria a exercer. De um domínio crescente que nós teríamos em relação ao mundo natural, para que ele satisfizesse os nossos desejos que são crescentes e – provavelmente – infinitos. O grande paradoxo é que essa tecnologia que nos prometia dominar a natureza se torna agora uma ameaça de descontrole, e não de controle da natureza. Nós estamos, provavelmente, perdendo o controle sobre as bases naturais da vida.”

O mundo possui 7 bilhões de pessoas. O 1 bilhão que está no topo da pirâmide é responsável por metade das emissões de gás de efeito estufa. Os 3 bilhões seguintes por 45%. E os 3 bilhões na base da pirâmide por apenas 5%. E são estes últimos que já estão pagando a conta da mudança climática. Segundo ele, por mais otimistas que possamos ser em relação à inovação tecnológica, essa corrida armamentista do consumo nos leva a um precipício. No lugar de países disputando a supremacia militar está o mundo no paradoxo: as pessoas estão investindo cada vez mais em materiais, e o resultando está longe do esperando, gerando insegurança.

O economista citou, como exemplo, a inserção de bens posicionais, que podem ser tangíveis (como smartphone, carro ou casa) ou intangíveis (como grau de escolaridade) e que deflagram novas possibilidade de conferir status entre os seus semelhantes. “Quanto mais uma sociedade prospera, e depois que ela resolve as necessidades básicas da vida, as pessoas passam a prestar muito mais atenção na sua posição relativa e no que os bens refletem sobre a sua vitória ou derrota no mundo do consumo e do reconhecimento alheio.” Para Giannetti, tem alguma coisa errada na sociedade quando uma pessoa afluente, por qualquer parâmetro, se percebe como uma perdedora e ainda por cima sente carências com mais intensidade do que a grande maioria dos carentes de fato.

Sobre os desertos internos, que Giannetti batizou de crise da ecologia psíquica, ele afirmou que o psiquismo vem sendo agredido de maneira intensa e danosa nas últimas décadas. “Assim como o modo como a tecnologia e a forma de vida ocidental, de forma inesperada, produziu efeitos imprevistos e indesejados no modo como ela buscou controlar a submeter a razão no mundo natural, algo semelhante a isso se passa na dimensão da subjetividade e no modo como esse padrão civilizatório ocidental, extremamente agressivo e ousado, na sua aspiração de controle, algo muito semelhante ao que ocorre na natureza externa, ocorre no que diz respeito à natureza interna do ser humano.”

Para ele, a ciência, além de não saciar a fome de sentido, destrói as possibilidades alternativas de busca de sentido em termos humanos. Dessa forma, o consumo se torna uma grande fuga ao mesmo tempo em que, neste cenário, uma em cada cinco pessoas em idade de trabalho sofre de algum tipo de distúrbio mental a cada ano, além de taxas de suicídios superiores ao número de mortes em acidentes nas estradas em países como Estados Unidos, Alemanha e na Inglaterra. “Eu não condeno os ídolos da modernidade – a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico. Mas eu acho que já é mais do que hora de nós entendermos que esses ídolos têm limites. E nós não podemos esperar da ciência, da tecnologia e da riqueza material a satisfação de aspirações e anseios dos humanos de uma vida mais plena, de uma vida mais feliz, de uma vida em que as relações pessoais ocupem um espaço muito mais rico na nossa existência do que este afã de consumo e de sacrifício de autonomia na vida pessoal”, finalizou.

Na parte reservada ao debate, cada um dos conferencistas respondeu as questões do mediador e do público. Para Lipovetsky, é preciso criticar o consumo, mas sem torná-lo um vilão, ao mesmo tempo em que não é possível torná-lo um valor da humanidade. “Não é verdade que o mundo no qual estamos seja uma espécie de inferno no qual todo mundo está fechado em relação aos outros. Veja o que eram as democracias do século XIX, os golpes de Estado, as manifestações com mortos, e ainda há muitos países no planeta em que os conflitos terminam com sangue. Nas democracias mais avançadas os costumes se pacificaram. Então, a alternância política se efetua, de um tipo de governo a outro, sem que existam grandes conflitos e grandes violências. Além disso, consumismo não é simplesmente o consumo da televisão e de coisas superficiais. É, por exemplo, o fato de que muitos serviços médicos são muito mais importantes do que no passado. A gente sempre pensa que consumo é o supermercado e um monte de porcarias. Este é um ponto importante. Mas o universo consumista é também o universo da medicação”, ressaltou.

Giannetti explicou que a humanidade deve sonhar e buscar formas alternativas, num mundo onde os valores estão em crise, e não os modos de produção. “As pessoas estão felizes e satisfeitas com a vida que estão levando? Tem muitos sinais e evidências de que não. De que elas estão divididas internamente. Elas gostariam de alcançar uma outra forma de sociabilidade, uma outra forma de vida. Gostariam que suas vidas fossem pautadas por outros valores, mas nós estamos numa armadilha. Enredados num jogo que nos leva para onde não desejaríamos ir. São feitas pesquisas nos EUA regularmente sobre valores. Mais de dois terços da sociedade norte-americana acham que a sociedade é excessivamente materialista e apegada ao dinheiro. E, no entanto, eles vivem assim. É um paradoxo. Como é possível que a maioria das pessoas não se reconheça nos valores que regem a sua convivência e, no entanto, a sua convivência é regida por esses valores? E elas desejam mudar de vida”, afirmou.


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