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Valter Hugo Mãe

Deus era um livro

Valter Hugo Mãe, premiado e destacado escritor da nova geração da literatura portuguesa, trouxe para o público do Fronteiras do Pensamento um texto inédito redigido especialmente para o encontro e promoveu uma calorosa conversa, com leveza, humor e poesia, acerca de seu universo particular, suas convicções e reflexões e momentos marcantes de sua carreira.

Sua obra tem conquistado e estabelecido um lugar de reconhecimento tanto pela crítica quanto pelo público. Além disso, o conferencista tem uma respeitável lista de prefácios em seus livros, nos quais figuram José Saramago, Caetano Veloso, Alberto Manguel, Ferreira Gullar e Adônis.

O resumo desta conferência foi estruturado em tópicos que ressaltam algumas passagens do encontro. Gostaríamos de afirmar que são os mais notáveis ou interessantes momentos da conferência, todavia, o que o público pôde conferir foi uma criação artística em tempo real através da palavra, uma obra completa e inexorável, da qual trazemos fragmentos.

Deus era um livro

Tínhamos em casa uma Bíblia que era a própria carne de Deus. Não a poderíamos tocar. Não poderíamos passar diante dela sem respeito. Sem estarmos lavados, silenciosos, de mãos abertas e nenhum segredo, de pensamento puro. Deus estava guardado em uma cuidadosa gaveta da nossa casa e era feito de papel. Deus era um livro.

Lembro-me de pensar que a Bíblia era também morta. Tinha a característica de existir como plenitude entre o lugar convencional da matéria e o lugar esdrúxulo da alma. Envolvida pelo seu sudário, sepultava-se uma e outra vez naquela gaveta. E uma e outra vez ressuscitava. Habituado à morte e à vida, aquele livro era uma natureza absoluta, existia nas duas condições.

O convívio com tão melindroso pedaço de papel parecia igual a termos uma pessoa muito velha em casa, com dois mil anos, profundamente ofendida e cheia de dor. Uma pessoa de família, quer dizer, de todas as famílias. Que nos competia cuidar por martírio e honradez. Para nosso desespero, sabíamos que, se aquela pessoa houvesse de perecer, isso nunca poderia ocorrer nos nossos domínios. Enquanto nos competisse, ela precisava ser incentivada a respirar e alcançar uma réstia de felicidade.

Minha avó explicava, “a Bíblia é a esperança... a Escritura sofria". Lembro-me bem de pensar acerca disso. Durante a profunda atrocidade do mundo, a Bíblia, tão cheia de esperança e tão antiga, sofria. Era um livro magoado. Ela sabia que os erros são cíclicos e que a humanidade aprende pouco. Faz sempre pior do que pode.

Eu ponderava muito nesta ideia, fazer tão bem quanto posso. Lutar para fazer o bem ao meu alcance. Nunca pior. E isso negaria a míngua da dignidade com que vivemos.

Sobretudo por ser criança, a Bíblia não me competia, senão pela dimensão imaginária. Não a leria. Haveria até de ser um sacrilégio ao escutar a palavra de Deus, porque seria como obrigá-lo a falar a uma imprestável alma ignorante como era eu então.

Eu imaginava a Bíblia, não a lia. Imaginava. Creio que a frequentava pela sua emanação e não pelo que efetivamente pudesse conter. Fechada na sua história infinita e sagradíssima, eu inventava sua mensagem com todas as forças do meu pensamento, com toda a criatividade de minha ilusão. Enternecia-me com luzes e flores, todas as grandes e pequenas dores, solidões ou fragilidades. Acreditava que ser sagrado vinha de estar atento e proteger.

Minha avó materna oferecia imagens de Nossa Senhora de Fátima e bíblias às netas. Aos netos não. Creio que julgava importante salvar as mulheres, sempre necessitadas de defesa contra o pecado num mundo de homens maus [eu até posso dizer que estou de acordo com minha avó, comentou, interrompendo a leitura].

Eu cheguei a escrever no meu caderno de segredos: “Quando morrer, vamos viver na Bíblia".

Eu procurava furtivamente um versículo que pudesse ser o Paraíso, um que pudesse pedir para nossa família, onde nos metêssemos numa multidão abençoada e contente. Mas não o encontrava. O texto codificado do livro era intransponível. Creio que foi o meu pai o que primeiro me disse “isso é como poesia, só depois de muito tempo se sabe ler". Eu, que nunca tinha ouvido falar de poesia, fiquei com a ideia de que alguns textos demoram anos a deixarem-se ler, como animais selvagens que não conseguimos caçar e muito menos domar. Animais em permanente fuga, sem dono. Alguns textos não se domesticam, porque não se habituam às pessoas. São sempre de uma natureza diferente, como se escritos para propósitos além do humano. Transcendem por definição o que um homem pode ser.

Fogem-nos e talvez nos ferrem as mãos se lhes passarmos os dedos nas páginas tão aparentemente quietas. Alguém sempre me recomendava, “é melhor que não mexas nisso, não é para tua idade". A Bíblia não era para minha idade, era um animal adiado. E minha avó repetia, “a Bíblia não é um brinquedo", e tudo que não fosse um brinquedo estava substancialmente vedado às crianças.

Eu, por um comportamento irrepreensível, furtava-me a ser visto como criança em muitos momentos. Acreditavam até que eu tinha uma alma velha. Não era verdade, apenas me seduziam os assuntos graves. Não os conseguia ignorar. Ser feliz para mim implicava a cura da tristeza. Coisa que tinha tanto de impossível quanto de louco. Coisa que quase se tornava sedutora na tristeza.

Eu nunca sonhei ser um escritor. Eu escrevia e maravilhava-me com a simples fabulação dos sonhos dos outros (escritores incluídos). Não cresci para ser, cresci para saber que alguém seria. E isso nunca me retirou felicidade. Deu-me até uma infinita paciência. Tive muito a impressão de que Deus não reparou no fato de me ter criado. Eu teria vindo à vida por um lapso, um equívoco, que não chamou a atenção de ninguém.

Antes de saber o que era literatura, eu julgava todas as coisas escritas como sagradas. Ou seja, prestando atenção e cuidando. Comecei a anotar uns versos aos 6 anos de idade. Eram observações bizarras que eu precisava de entender, como se dentro das próprias palavras nascessem mistérios e realidades. Nunca lhes chamaria poemas. Eram minha forma de inventar a Bíblia, de materializar a Bíblia como um livro também meu e de cuidar de uma voz que pudesse ser decente para levar às pessoas perfeitas do Paraíso. Creio que comecei a escrever sobretudo para me comunicar com os mortos, tendo em conta que Deus estaria no mundo dos mortos e era esse genuinamente o mundo que deveria nos preocupar.

As pouquíssimas pessoas que notaram meus versos diziam que eu iria ser escritor, como disseram que eu seria artista plástico quando me viam desenhando tardes inteiras. Mas eu não achava que um escritor seria importante. O importante era a expectativa de as palavras fazerem um milagre. Para mim, as palavras prometiam milagres, nunca foram da dimensão da normalidade. Tenho dificuldade de entender a literatura como normal.

Ainda hoje penso na literatura, mormente na poesia, como utopia de presentificação. O que o texto quer é iludir a sua existência apenas ideal e mudar para a evidência, até que nos pareça materializado em volta. O texto é um lugar, excetua-se dos mapas, mas inclui-nos mágica e intensamente. Nele cabemos.

A poesia, assim como a palavra religiosa ou espiritual, também aspira à sua própria transcendência, ou seja, é deixar de o ser, abrindo caminho a um sentimento a partir do qual se torne impossível regressar por completo ao mundo material. Depois do poema, como depois da oração e da fé, nenhum indivíduo volta a coincidir por completo à realidade mais evidente e tangível. O leitor adentra o misterioso universo das ideias, onde, ajudado pelas palavras do poema ou da oração, ele se desliga das palavras para encontrar uma estranha conquista de intensidade. Uma realidade que é aberta pelas palavras, mas já não é senão outra coisa, que se excetua largamente do que é material. Nessa intensidade reside a pura experiência espiritual, que não é exclusiva da crença num Deus e é apanágio de todas as sensações de estarmos para lá da contingência física, para lá da limitação ostensiva que a realidade mais imediata nos parece impor, mas não inconscientes. Nunca inconscientes. Estamos superconscientes. Para mim a poesia não é alienação, é a chave para a consciência.

O texto vai ser tão sagrado quanto formos capazes de sagrar a vida e a graça da existência.

Livros

Eu tenho impressão de que dentre as pessoas mais importantes da minha vida estão alguns livros. Talvez até muitos livros. E muitas vezes o que eu descubro é que minha capacidade de gostar de alguém vem por causa de um livro. A cumplicidade que eu estabeleço com essa pessoa e a profundidade da relação tem que ver com um livro qualquer que nós partilhamos. E o livro está entre nós como outra pessoa.

Aquilo que eu acho que me aconteceu é que eu transferi a sacralização que eu atribuía a esse mistério não respondente a algo mais concreto, que somos nós. E a maneira com que eu tenho de intensificar o coletivo, de me sentir minimamente razoável no coletivo, é através dos livros. E eu acho que muito devagarinho a criança que achava que veio ao mundo só para ver, começou a acreditar que pudesse dizer alguma coisa, porque foram os livros que intermediaram a criança com os outros.

Humanidade

Não vai existir nunca a solução de um problema que frontalmente nós não assumimos. Se a gente não fizer esse reconhecimento primeiro, não vai nunca haver uma forma de ultrapassarmos um determinado estágio da vida ou da humanidade.

É comum fazermos menos do que sabemos. Sabemos sempre, na nossa consciência, chegar a um gesto mais educado. Depois não agimos verdadeiramente em consonância com o que sabemos. E nesse esquizofrênico desfasamento entre o que sabemos e o que fazemos reside eventualmente o cataclismo de vivermos ainda numa sociedade profundamente injusta e desigual.

Por isso, nós estamos num tempo que é esplendoroso para o saber, mas ainda não é esplendoroso para a aprendizagem. O homem sabe, mas não aprendeu. Na verdade, nós só aprendemos quando mudamos a conduta. Se você souber como executar uma determinada cordialidade, elegância para com outra pessoa e não fizer isso, você continua sendo um indivíduo não educado, ou seja, você continua grotesco, propendendo para o animal. Apenas a mudança do comportamento, apenas a mudança da conduta é verdadeiramente a conquista da educação.

Eu acho que a humanidade de fato ainda não começou [citando Milton Santos]. A humanidade ainda é um projeto adiado. O esplendor da humanidade ainda está por vir.

Eu vejo a decadência ou tenho uma tendência para ser espectador da decadência e me compadecer e sofrer demasiado por aquilo que eu vejo que está errado. Mas eu não acho que a decadência seja o objetivo, o futuro. Eu acho que um dia a humanidade vai de fato começar.

Sagrado

A gente normalmente fica muito equivocado com o que afinal é sagrado. Aquilo que é sagrado é prática humana. Não há nada mais sagrado do que estar em prática, aquilo que é exercido entre os homens. Aquilo que é colocado num altar, na verdade, é dessacralizado. Porque eventualmente, se colocamos a coisa num patamar de altivez, ela deixa de dialogar conosco, de estar entre nós, deixa de ser uma partilha absoluta conosco. Acredito apenas que sagrado é a paridade. É possível a igualdade, o cuidado para com o outro sem a elevação.

O que eu acho que faço nos meus livros tem que ver com a impressão com que eu cresci do que é sagrado e com a obrigação de descer os santos à Terra, uma obrigação de descer Deus ao meio de nós. Porque é nesse momento que Ele verdadeiramente será sagrado, se Ele realmente estiver no meio de nós.

Violência

Eu não acho que a violência faça parte do conceito da humanidade. A humanidade é uma construção benigna, e só assim faz sentido. A violência é um reduto da fisicalidade animal que é uma contingência da humanidade. Nós nos tornamos violentos quando não ponderamos, quando não pensamos, quando não somos gente. Somos violentos no momento exato em que deixamos de ser pessoas.

Não sei se o ser humano vai algum dia conseguir desligar do lado puramente animal que corrompe o projeto humano... mas eu acho que sim. Leva mais tempo. A humanidade é uma coisa muito pequena ainda. Eu sei que vivemos hoje e queremos uma solução para hoje. Por isso, seria muito bom que alguém se levantasse na plateia e dissesse: “Eu sou o primeiro ser humano da História!". Mas eu já falei disso em alguns lugares e nunca ninguém se assumiu como o primeiro ser humano. Seria lindo.

José Saramago

Vocês não têm ideia do que é receber um retorno, um telefonema, uma palavra, um postal do Saramago e ele captar a essência do nosso livro como se estivesse estado no processo da criação, como se tivesse estado perto de nós, como se soubesse quem somos.

O que mais admirava no Saramago era a generosidade dele para com as pessoas. Ele era muito atacado em Portugal, por sua convicções políticas, demonizavam o Saramago por conta do partido que ele defendia. E eu o admirava muitíssimo porque ele sempre foi um indivíduo de boa-fé.

Eu quase nunca estava de acordo com ele, mas o Saramago foi um indivíduo de profunda boa-fé. Era um indivíduo que, verdadeiramente, tudo o que disse, disse por convicção de que era o melhor caminho para todos nós. E eu acho que, se todos nós estivéssemos no mundo dessa forma, deixaríamos de ter problemas. Se todos nós pudéssemos assumir uma postura de frontalidade e honestidade àquilo que verdadeiramente acreditamos, o único que estaria em causa seria a conversa, uma conversa de boa-fé. E acho que foi isso que eu sempre tive com o Saramago.

Felicidade

Ninguém é feliz fácil. E quase ninguém é feliz. Eu até acredito que é possível ser feliz, mas dá muito trabalho e não tem muita gente feliz no mundo. A felicidade é muito penosa.

Valter Hugo Mãe trouxe uma criação poética memorial, uma leitura em primeira pessoa de sua infância, e descortinou uma realidade íntima e convicções profundas do texto de sua própria história para o público do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


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