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Ian McEwan

Em busca do real

O escritor britânico Ian McEwan é um dos mais importantes ficcionistas de sua geração. Autor de livros como Reparação, Sábado, Na praia e O jardim de cimento, encara a literatura como uma forma de investigação da natureza humana. O papel do autor, a sua experiência com o realismo, o trabalho em alguns de seus livros e a conexão com autores do cânone foram alguns dos temas de sua conferência no Fronteiras do Pensamento, no auditório Araújo Vianna, em um evento especial que marcou os 10 anos do projeto.

McEwan iniciou falando sobre a morte do autor. O que fica, realmente, após o funeral, o obituário e, talvez um ano depois, o memorial construído pelos amigos mais próximos? Segundo ele, permanecem a reputação e outras coisas que não se podem prever. “O sucesso e o declínio do autor, por exemplo. Durante muitos anos, o autor passa ao obscurantismo, e talvez depois volte a ser mais famoso ou repentinamente famoso após sua morte."

Para alguns escritores, o que restam são 60 centímetros na prateleira de uma estante. Ou dois metros, no caso de outros. Mas este espaço físico representa uma história que um autor ou autora jamais poderiam ter planejado. “É como se fosse uma metaficção: ficção a respeito da ficção. É uma história que conta toda a vida criativa. E eu, antes de morrer – espero que não morra hoje à noite –, vou tentar passar aos senhores a minha ideia do que é a minha história. Eu tenho 68 anos. E fico pensando: quando eu chegar aos 70, estarei no outubro da minha vida."

A trajetória de McEwan na literatura começou aos 20 anos com a produção de contos, um gênero que, de acordo com ele, permite ao escritor fracassar e não levar muito tempo para constatar isso, passando por vários níveis de experimentação. Sua estreia foi com o volume de contos Primeiro amor, últimos ritos. “As minhas histórias estavam repletas de coisas escuras, sinistras, com narradores escuros e sinistros. Narradores que pareciam repletos de paixões até ridículas. Eu esperava que essas histórias fossem vistas como histórias de humor negro. Na verdade, eu esperava que elas fossem descritas como sendo histórias de humor negro. Mas, depois de um tempo, eu percebi que fui cada vez mais me colocando contra a parede. E comecei a expandir a minha escrita e entrei na área do realismo. A luta de tentar representar um mundo numa página, que é um mundo do qual todos compartilhamos e reconhecemos."

A representação deste mundo envolve pesquisa. E foi exatamente a pesquisa que se tornou uma das maiores paixões do escritor. “Com cada romance é como se eu estivesse começando uma nova jornada. Com apenas um mapa mínimo para guiar o meu caminho. A investigação da natureza humana era a alma deste projeto, de tentar gerar a sensação de um mundo compartilhado." Para escrever o romance Sábado, McEwan acompanhou, durante dois anos, o neurocirurgião Neil Kitchen, participando da rotina de trabalho a partir das 6 da manhã, assistindo a cirurgias e procedimentos e utilizando as mesmas roupas. Sem revelar sua identidade de escritor, em uma ocasião, foi abordado no bloco cirúrgico por duas estudantes de medicina que gostariam de assistir ao procedimento e o confundiram com o médico. “Eu disse a elas: 'Aproximem-se aqui. Gostaria de lhes mostrar estas imagens de tomografia'. Eu já era uma fraude absoluta. Mas pensei: se eu não conseguir me safar com isso, não vou conseguir escrever este livro. Então, com a minha melhor voz de autoridade no assunto, eu disse: 'Nós vamos agora bloquear este aneurisma na artéria mediocerebral, e vamos utilizar esta via que foi criada por um cirurgião canadense e vamos fazer o bloqueio do vaso'. Eu falei durante cinco minutos. E, ao final da minha fala, elas me agradeceram. 'Muito obrigada, doutor. Foi muito iluminador'. E foram embora. Eu sempre fiquei me perguntando que nota elas tiraram na prova."

Para McEwan, este trabalho acontece na busca pelo realismo. Mas o interessante é que, mesmo quando se tenta descrever um mundo governado por instituições, o escritor acaba fazendo coisas erradas. Exemplificando, contou o caso de uma correspondência recebida a respeito de um livro publicado há 28 anos, intitulado Deus-Dará. Em determinada cena, os personagens estão em Veneza, em julho, e olham para o céu claro, visualizando a constelação de Órion, a mais linda do mundo para McEwan. A leitora, no entanto, não perdoou a falha. “Ela escreveu que era impossível ver a constelação de Órion em julho no Hemisfério Norte. 'Se você faz questão de ver Órion em julho é melhor ir à Nova Zelândia' – ou Porto Alegre, ela poderia ter dito. E acrescentou: 'Já que o seu romance é tão sinistro, por que não a constelação de escorpião? Eu tenho 87 anos e moro numa pequena ilha no Canal da Mancha. Eu passo grande parte do meu tempo, nas noites de verão, deitada numa rede olhando as estrelas. Boa sorte com os seus livros'. Eu não tive escolha. Na edição seguinte do livro, mudei a constelação."

“No livro Sábado, o herói está constrangido por ter sido convencido pela esposa a comprar um carro caro. O Mercedes 500 SE fica na garagem, mas um dia, ao sair para jogar squash, resolve dirigi-lo. Liga o motor, coloca a marcha em primeira, tira o pé da embreagem e sai na direção da rua. Um tempo depois, chega uma carta de um leitor. 'Prezado senhor McEwan, eu sou correspondente de automobilismo, e posso lhe dizer que não existe edição com transmissão manual da Mercedes 500 SE. Se o senhor faz questão que o seu herói mude de marcha com as mãos, não olhe a série 7 da BMW e também nenhum Audi. Esses modelos mais caros não existem com câmbio manual. As pessoas plutocráticas não querem mudar de marcha, provavelmente elas nem sabem. Porém, se o senhor realmente insistir em ter um câmbio, por favor, utilize uma Mercedes 320 K.' Que escolha eu tive? Troquei para um carro automático, tirei todas as referências no livro onde ele tirava o pé da embreagem. E escrevi para ele: 'Muito obrigado, eu tenho um carro de 17 anos que está caindo aos pedaços. Será que o senhor poderia me dar algum conselho para o próximo carro que eu deveria comprar?'. E ele me aconselhou."

Na ciência, de acordo com McEwan, existe um conceito de que, se uma hipótese não puder ser provada como falsificável, ela não é uma hipótese científica de verdade. A natureza do realismo é que ele tem um elemento falsificável. O escritor reforçou que talvez exista a verdade num romance, mas que nem todos chegam à mesma conclusão após a leitura. Assim, citou o caso de O senhor das moscas, romance que acompanha o declínio rumo à selvageria de um grupo de meninos presos numa ilha. Durante anos, o escritor William Golding recebeu cartas de jovens leitores, contestando o uso dos óculos do personagem Porquinho como única forma de produzir fogo na ilha. “William Golding deixa claro que o Porquinho é míope. E, durante todo o resto da carreira, ele ficou irritado porque recebia cartas de meninos de 11 anos de idade dizendo que, se você é míope, é impossível fazer fogo usando o óculos, porque a lente é côncava. Ela espalha a luz, e não a concentra. Se você precisa de óculos para fazer fogo, na verdade, o Porquinho teria que ter hipermetropia". Golding se recusou a mudar o livro, e várias conversas sobre este tema com seu editor estão em sua autobiografia.

Esta é uma dificuldade que acompanha a todos. Mas, para McEwan, reagir a cartas que dizem onde você errou no seu realismo é a maior forma de engajamento que podemos imaginar. O Brasil possui uma tradição fantástica de realismo mágico, e o realismo tem diversas formas, pois é apenas um dos métodos da ficção. Um dos exemplos é A metamorfose de Franz Kafka. Gregor Samsa acorda de sonhos perturbadores transformado num inseto gigante. “A questão é que, uma ou duas linhas depois, Kafka diz que a primeira preocupação de Gregor Samsa, quando ele viu as suas pernas de inseto balançando no ar, foi que ele iria se atrasar para o trabalho. Porque ele não conseguia virar de barriga para baixo. Esta é a transição do fantástico: quem vai ser transformado num inseto do dia para a noite? Não importa o quão perturbador seja o seu sonho, esta é uma possibilidade que não existe."

Vladimir Nabokov proferiu, certa ocasião, uma palestra brilhante sobre qual era o tipo de inseto no qual Samsa se transformou. Kafka nunca deixou isso claro. É isso que McEwan define como “acariciar os detalhes", expressão retirada de uma aula de Nabokov na Universidade de Cornell em 1952. “Ele falava para alunos do primeiro ano, dizendo como deveriam ler um livro. Eu sempre achei que o conselho dele sobre como ler um livro é um conselho nada mau para escritores sobre como escrever um livro. Ele disse: 'Vocês são jovens demais e ignorantes demais para ficarem se preocupando com os temas. Esqueçam o luar da generalização. Para amar um livro, o que vocês devem fazer é acariciar os detalhes'. É por isso que eu acho que Nabokov passou algumas páginas acariciando os detalhes de que tipo de inseto o Gregor Samsa se transformou."

É esta busca pelo realismo e a sua tradição que o escritor valorizou em seu mais recente romance, Enclausurado. O livro parte de uma impossibilidade física e biológica, com um feto palestrando e opinando sobre o mundo e a sua ansiedade, enquanto presencia os planos da mãe e do amante dela de assassinarem o seu pai. “Eu vejo este livro como um romance que segue a tradição do realismo. Porque, uma vez que esta primeira premissa é aceita, todo o resto que eu faço, neste romance, está no universo de um mundo compartilhado que eu acho plausível." McEwan finalizou a sua conferência lendo dois trechos de Enclausurado.


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