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Ian McEwan

Em busca do real

Ian McEwan, premiado e destacado escritor britânico e um dos mais importantes ficcionistas de sua geração, trouxe para o público do Fronteiras do Pensamento São Paulo uma maneira pouco usual de tratar do realismo na literatura.

“Acho que vale a pena lembrar a invenção extraordinária que é escrever", iniciou McEwan, “que uma pessoa consegue transferir ideias de seu cérebro para o cérebro de outra pessoa através de marcas numa página."

O autor considera a pesquisa parte do processo de criação e, ao fazer essa consideração, compartilhou com o público a pesquisa que realizou para escrever o livro Sábado. A escrita de seu romance ocorreu concomitantemente à pesquisa, pois desejava entrelaçá-los. Uma vez que a personagem principal é um neurocirurgião, McEwan se lançou a uma pesquisa de campo em um hospital que se consolidou como o maior centro de neurocirurgia da cidade de Londres.

Em um período de quase dois anos, o autor frequentou o hospital, acompanhando diversos procedimentos cirúrgicos. Enquanto acompanhava uma cirurgia, bateram à porta da sala, ao que o escritor foi solicitamente verificar. “Com licença, doutor", disse uma das jovens estudantes de medicina que estavam à porta, “o senhor se importa se nós ficarmos aqui observando?". McEwan disse que elas eram bem-vindas! “O senhor poderia nos dizer o que está acontecendo?", perguntaram. “Sim, venham aqui onde estão as ressonâncias magnéticas e eu vou lhes explicar a cirurgia." Havia 16 telas computadorizadas que deram base à explicação sobre o que “eles" estavam fazendo: “uma clipagem de um aneurisma". Após apontar as características do procedimento indicando-as nas telas, as duas estudantes lhe agradeceram, e até hoje o escritor se pergunta como elas teriam ido nos exames da faculdade.

“Enquanto eu conversava com elas, eu pensava: 'Se eu não consigo fazer isso, eu não posso fazer esse romance, se eu não entender essa pesquisa, se eu não conseguir descrever a cirurgia, eu não tenho o direito de escrever sobre esse assunto'. Eu me senti menos culpado pela minha trapaça arrogante e também menos culpado porque duas alunas de medicina receberam um tutorial de neurocirurgia de um escritor", relembrou McEwan.

Após este breve relato, o autor retomou o eixo do sua conferência, o realismo na literatura. “Todo escritor de ficção tem que lidar com o mundo que nós compartilhamos, que, na verdade, é o ponto do realismo. É a tentativa de religar aquilo que os outros reconhecem e fazer isso de uma maneira que é praticamente transparente, que você vê através das palavras. Nós usamos personagens imaginários, até fantasmas, mas em cidades verdadeiras, em lugares verdadeiros e com pessoas verdadeiras".

Geralmente nos perguntamos se um romance, livro ou obra é bom ou ruim, mas, e se nos perguntássemos se um livro é verdadeiro? “É uma pergunta muito mais difícil para uma pessoa que trabalha na tradição de realismo", afirmou, e citou Henry James acerca da virtude do romance ser o seu “ar de realidade".

Uma vez que o romance depende de uma pesquisa, é preciso se perguntar como uma informação entrará na obra. O autor pode mudar os fatos? Será perigoso criar um muro que preserve a obra de arte?

Após a publicação de Ao Deus-Dará, escrita na década de 1980, McEwan recebe uma carta de uma senhora: Caro McEwan, eu gostei muito do seu livro, publicado há muitos anos, acho que muitas pessoas já falaram isso pro senhor. Mas na página 49 o senhor descreve Mary e Caroline olhando o céu, obviamente, uma lua num céu em Veneza, e o senhor diz que Órion estava cobrindo o céu. Então preciso lhe dizer que Órion só aparece no hemisfério norte nos meses de novembro a março. Se quiser ver Órion no verão, o senhor precisa ir à Nova Zelândia.

“Eu poderia ter escolhido Escorpião, com seu gigante Antares", assentiu o autor, pois esta seria mais coerente de ser vista da Itália. “Em anos ninguém havia dito nada parecido para mim. Muitas cópias daquele livro já haviam sido vendidas e eu sabia que ela tinha absoluta razão." Ficou então o dilema, manter Órion no verão italiano em sua obra ou seguir os fatos. McEwan optou pela segunda alternativa e corrigiu a informação.

Relembrou o caso de William Golding, que, em sua obra O senhor das moscas, um óculos era usado para criar fogo. Todavia, a personagem que o portara era descrita como míope e a lente usada para esse tipo de distúrbio visual não poderia criar fogo. Golding recebeu cartas indicando o erro, mas ele se recusou a corrigir o equívoco por insistir que a personagem deveria ser míope.

McEwan descreveu um cirurgião usando um pincel em um procedimento, mas recebeu um e-mail do hospital londrino (onde realizou seu estudo de caso) e lhe informaram que eles não usavam pincéis e o que ele havia pensado ser um pincel na cirurgia era, na verdade, uma esponja. Uma conexão entre o ato de pintar e o de fazer uma cirurgia tinha sido identificada pelo autor no objeto pincel, entretanto, a não veracidade do fato o fez suprimi-lo de sua obra.

“A carta de correção, muito educada, é a forma máxima do envolvimento do leitor com o romance que você está escrevendo. Correções, sob o meu ponto de vista, são muito bem recebidas. Eu pego a linha, por exemplo, da minha heroína no livro Reparação. Bem no final, ela mesma diz (ela também é escritora), chega a esta conclusão quando um coronel lhe adverte que estava fazendo as coisas erradas, ela não se importa e diz como eu digo: adoro esses pequenos detalhes, essa maneira pontilhista de encarar a verossimilhança, a correção de pormenores que, ao se acumularem, proporcionam tanta satisfação. E logo depois, ela acrescenta: como policiais numa equipe de busca, engatinhamos em direção à verdade", concluiu Ian McEwan.

O escritor então se abriu às perguntas da plateia. Discorrendo sobre o realismo como uma alta forma de artifício, comentou sobre sua identificação com o depoimento de Joseph Conrad no prefácio de O Negro do Narciso, em que comenta o cume de sua ambição artística: “a tarefa que venho procurando cumprir é a de fazer com que, pela força da palavra escrita, você seja capaz de escutar, seja capaz de sentir, e acima de tudo de enxergar". O romance, para o conferencista, é uma “coisa de visão"; ademais, observa, 40% de nosso cérebro está dedicado ao processamento visual e nós somos seres muito ligados ao ver. Contou ao público sobre como usa respeitosamente os personagens de sua família. Discorreu sobre seu processo de criação e sobre a atenção à vida na busca do momento certo.

Inferiu sobre a luta constante do escritor contemporâneo para conseguir estar na solidão, de se desligar, de não sentir culpa, de não ser pressionado (algo que não existia poucas décadas atrás). Comentou acerca da força que Hamlet de Shakespeare exerce sobre sua obra e sobre toda a literatura que o sucede, assim como o diálogo que todo escritor estabelece com o passado literário. Sobre o Brexit, preferiu não professar sobre o que poderá vir, mas defendeu a União Europeia, que, “com todos os seus erros e burocracias, representa um dos tratados políticos mais importantes da história do mundo". Salientou a importância de se recordar dos fatores negativos do passado que levaram ao Mercado Comum Europeu,que depois levou à União Europeia. Seu temor acerca do Brexit é o isolamento da Inglaterra e da crescente xenofobia, quando seria preferível o orgulho de se ter uma variedade de jovens e imigrantes que vieram ao país para trabalhar. Discorreu sobre a diferença do processo de ler um livro conhecendo o autor e sem conhecê-lo, que o contato com o autor altera a recepção da obra. Comentou sobre Bob Dylan e o Prêmio Nobel de Literatura celebrando a vitória da música. Por fim, esclareceu que o retrato de coisas como a relação incestuosa em seu romance O jardim de cimento não se faz como apologias, pelo contrário, mas estas emergem, pois são partes da realidade que ele, como romancista, as traz para a literatura. Ian McEwan, escritor muitas vezes apelidado de “macabro", garantiu uma noite suave e iluminada, convidando o público do Fronteiras do Pensamento a passear nos territórios que cercam sua obra, seu processo de criação e sua poética.


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