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Valter Hugo Mãe

Eu ainda estou procurando acreditar que existo

Valter Hugo Mãe, premiado e destacado escritor da nova geração da literatura portuguesa, trouxe para o público do Fronteiras Braskem do Pensamento uma conferência com uma atmosfera de intimidade. O conferencista criou um ambiente que parecia reduzir quaisquer distâncias a um espaço não mais longínquo que dividir uma mesa com o escritor.

Quiçá como um gracejo ou pela conquista emocional de aterrissar em novas e sedutoras terras, pediu para ser apresentado, no Teatro Castro Alves, como “novo escritor baiano”. Mãe brindou o público com um texto breve de abertura no qual se enfatizam as relações dele, enquanto escritor, com as mais diversas pessoas e situações, desvelando as expectativas e singularidades humanas de cada uma delas. Um texto sobre a perplexidade com a qual enfrenta a posição de escritor, numa coleção de evidências de sua existência por meio de outras pessoas.

Neste resumo, traremos, além deste texto inédito de sabores variados, com o qual abriu a conferência, algumas de suas falas costuradas a partir de sua conversa com o público do Fronteiras.

O que as pessoas esperam de um escritor e tão logo esperam de mim

Uma senhora na aldeia de Podence disse que andar por ali um escritor era como passar uma florzinha na rua. Expliquei-lhe que as terras de Bragança são a melhor das fugas, planto por lá muito coração e colho livros. Ela acotovelou-se no muro e respondeu: “Havia de vir aqui escrever sobre as pessoas que dão nomes ao gado só para terem a ilusão de uma família”. Um velhote a passar refilou: “Já não há vagar para conversas, daqui a pouco é a hora da fome”. Era meio-dia. Pelo vidro grande do meu quarto, uma mulher viu-me a escrever. As pernas encaracoladas sobre o rabo, um chocolate e uma garrafa de água na mesa. Deixou-me o recado: “Pense em mim, mesmo que não me tenha visto a vê-lo. Na sua janela, pareceu-me assistir à oficina do mundo. Escreva sobre as moças de Bragança que se apaixonam por escritores. Olhe que elas são muitas”.

Na Ilha da Madeira, uma senhora que me confundiu com um imigrante desculpou-se perguntando: “Então, você quem é, que parece mesmo o neto da minha tia?”. Respondi: “Sou escritor, sou do continente”. Ela, como se tivesse culpa, diz: “A gente aqui na Ilha só conta distâncias. Os nossos livros são aventuras tristes com gente ao longe”. Eu encolhi os ombros. Ela pediu: “Viu a procissão? Diga-me alguma coisa sobre a procissão”. Eu disse: “As procissões são veículos gigantes”. A mulher perguntou: “O que isso quer dizer? É um poema? Você escreve coisas dessas? Devia escrever algo que desse para entender”.

Quando confessei que ando às voltas com a história de um japonês para o meu novo livro, uma senhora protestou dizendo: “Nós aqui com tanta falta de memória e você aflito com a memória dos outros”. Contestei, defendi-me, e ela arrematou: “Ando há anos a pedir para porem a história do meu marido num livro e vocês, os escritores, só sabem escrever coisinhas de merda. Depois queixam-se que as pessoas não gostam de livros. Os livros japoneses são todos iguais, homens baixinhos e mulheres a fazer arroz. O meu marido tinha mais de dois metros, era uma estátua linda”.

Acabei o meu novo livro e saí para tomar um café. Perguntaram por que estava com cara de perdido. Expliquei que ainda me sobrava a cabeça dentro do texto. E eu disse que era sobre o Japão. Responderam-me: “Você só escreve sobre desgraças, é muito burro”.

Nos Açores, pedi que não me dissessem nada senão maravilhas. Guardo daquelas ilhas apenas ideias bonitas e quero continuar assim. As pessoas riram-se de mim. Um mocinho aconselhou-me a escrever um romance sobre a raiva daquela gente. Para me fazer de desentendido, perguntei: “Achas que sim?”, e ele respondeu: “A gente que não sai à rua de facas na mão porque teme usá-las para morrer em vez de usá-las para matar”.

Sentei-me com o escritor João Pedro Porto no banco onde o extremo poeta Antero de Quental se matou e sentimos uma esquisita alegria. Um senhor simpaticamente fez uma fotografia nossa e disse que a Ilha precisava de visitas, nem que fossem visitas deprimidas. A morte de Antero de alguma forma era uma companhia. Eu repetia ao João Pedro: “Não me digas senão coisas lindas sobre os Açores”, e ele parecia que até uivava.

Numa escola na cidade de Esposende, um aluno veio avisar-me da intenção das moças. Queriam tirar fotografias comigo para ficarem famosas no Facebook. Eu sorri. Ele explicou: “Inventam que estão a namorar consigo, depois aparecem grávidas e você é que se mete em problemas”. Eu sorri. Ele acrescentou: “Escreva um romance sobre moças que só gostam de moças, porque essas não engravidam, são como os escritores, só usam a língua portuguesa”.

Toda gente me pergunta sobre quando escreverei um romance caxineiro (Caxinas é o lugar de pescadores onde eu vivo, onde eu tenho a minha casa). Digo sempre que literariamente aquilo que me atrai nas Caxinas é trágico, demasiado triste, não sei se resultaria numa homenagem ou num lamento desesperado.

Na fila do hipermercado, eu dizendo isso, e um senhor respondendo: “Você escreva uma porcaria qualquer sobre os caxineiros e leva logo no focinho”.

À entrada dos Estados Unidos, o polícia me mandou para uma sala esconsa e exigiu que falasse a verdade sobre essa coisa ridícula de ir dois meses para Boston pelo ar de escrever um romance. Queria saber quem era a personagem do meu livro, qual o endereço e o número do telefone [norte-americanos são absolutamente originais]. Despejaram as minhas coisas sobre a mesa e muitas tombaram no chão. Abriram uma carta que eu escrevera para uma amiga e me preparava para colocar no correio. A carta começava assim: “Reza por mim, vou ficar na América do Norte por dois meses”. Tendo traduzido a carta no computador, o polícia perguntou se eu era suicida e que conhecimentos tinha de explosivos. Mandaram me investigar, viram a minha cara no Google e disseram que as pessoas que cometem crimes ficam famosas. Demorei ali quase uma hora. Depois inventei que meu livro era sobre um padre japonês que morrera no século XX, mas que vivera em Boston. Consideraram que finalmente a minha história fazia sentido. Como a personagem estava morta, já não tinha endereço nem telefone. O polícia disse: “Pode arrumar as suas coisas e ficarei atento para ver você nas entrevistas da Oprah Winfrey”.

Disseram-me que, se eu não escrevesse nos jornais, haveria de ter um romance por ano. Eu respondi que é fundamental que o tempo passe. Não sou o mesmo homem de livro para livro. Aconteço enquanto os textos surgem e partem. Um senhor, ao ouvir atentamente, pediu-me que escrevesse mais um romance antes de ele morrer. Estava a morrer à pressa. Dizia: “As doenças estragam os relógios”. Depois acrescentou: “Fale das cegonhas, porque os cabrões mataram as cegonhas todas”.

A minha mãe acha que eu devo escrever sobre amores bonitos, livros que convençam as pessoas de que a felicidade é possível. Eu sei que a minha mãe quer que eu escreva sobre a felicidade para que a descubra como algo que não possa voltar a perder.

Uma moça disse a um cantor meu amigo que tinha um projeto para ele e ia escrever letras que ele haveria de musicar para fazer um disco novo. Depois virou-se para mim e disse que não me dava nada porque eu sou careca e lembro-lhe o ex-marido que a deixou por uma espanhola. Acrescentou: “Se pudesse, eu torcia-lhe esse pescoço”.

Veio um moço chamado Miguel e perguntou: “Você importa-se de escrever sobre a minha vida? Sou muito sozinho e não tenho ninguém. Assim, podia passar a ter um livro que imitasse que os meus pais estão vivos”.

A professora Malu Fontes, da Bahia, propõe à minha pessoa para representar a humanidade na necessidade eventual de uma nova arca de Noé [isso foi hoje]. Eu agradeci muito, mas sinto-me uma pessoa plural, se entrassem milhares de pessoas junto, eu estaria como sem pernas, sem quase nada de alma.

Bahia

Eu conheço o Brasil muito e em alguns lugares estive muitas vezes. E toda a gente falava da Bahia como se fosse uma evidência, como se me dissessem: “Ô, idiota, você, enquanto não for à Bahia, não foi ao Brasil, você foi a uma emanação”. E é verdade que até certo ponto o resto do Brasil parece uma emanação baiana, uma fração do esplendor ou da luz que existe aqui.

Eu tinha uma coisa que achava que era muito racional. Achava que a Bahia talvez não fosse um lugar para um português, porque a Bahia mantém ou tem um traço de uma herança portuguesa muito forte. Pensei: “Eu não preciso atravessar o oceano para ver uma casa portuguesa. Um largo que parece mesmo um largo português. Eu vejo um largo português todos os dias quando estou em casa”. Então, eu achava que a Bahia era de fato um dos lugares que fosse como supérfluo para um português conhecer. Mas a verdade é que toda a gente me avisava e eu, quando cheguei, nós fomos imediatamente para o Largo do Pelourinho. Só não chorei porque estava todo mundo olhando para mim e eu achei que era tão os primeiros quinze minutos de mim aqui que eu precisei fazer de conta que sou assim mais duro e menos fácil de impressionar. Então, eu segurei, mas acho que tem qualquer coisa que acontece ali, qualquer coisa que acontece nesta mestiçagem, que eu, não tendo vindo ver antes, subitamente passei a pertencer a qualquer coisa que nos inclui e que inclui a mim que sou português, e efetivamente reconheço neste espaço um radical português, mas um radical português enriquecido por algo que em Portugal era absolutamente impossível de acontecer. E por isso é como se o passado tremendo de Portugal, como foi eventualmente tremendo o passado de todas as nações europeias, é como se esse passado tremendo tivesse conseguido fazer sucesso na Bahia, como se estivesse bem-sucedido, como se a Bahia estivesse mais perto de sanar o quão terrível foi a história.

A única coisa que a gente pode, de alguma forma, quase para criar uma justiça para o passado que todos nós herdamos, é chegar mais perto de uma sociedade melhor. Aqui, a Bahia, me comove por isso, por essa mesclagem, por essa mestiçagem. E, mestiçado como está, pela facilidade do bem-estar, do sorriso, do abraço, da receptividade, da comunhão, da amizade, da alegria.

Ontem, durante a tarde, eu passeava um pouco por todo lado ali no centro, e as festas são contínuas em cada porta. As pessoas saem à rua para dançar qualquer tipo de música, e acho que, por vezes, nem importa que música está tocando, desde que exista um ajuntamento de pessoas dançando, e vem sempre mais alguém, quem vai dançando fica, como nós fizemos. A gente ficou dançando em vários bailes, de todos os estilos. Vimos rock, vimos funk, vimos samba, vimos vários e gostamos de todos. Vimos até um bem mal educado de funk com umas letras... digamos, uns poemas populares [risos], um pouco sedutores, erotizados,... deve ser uma coisa carioca [risos]. Eu não sabia que existiam canções assim. A gente nem sabe se dança ou se tira a roupa. E foi muito bom [risos].

Brasil

A minha vinda ao Brasil, com alguma frequência, desde há uns anos, deu uma melhorada na minha espiritualidade, e eu passei a ter uma espiritualidade que não tolera qualquer coisa. Agora eu tenho uma fé, e a fé tem que ser uma coisa positiva, se for uma coisa decadente não quero mais.

Uma coisa é muito clara, a espiritualidade é uma coisa humana, é uma dimensão humana, por isso a transcendência em última análise somos nós. Nós é que somos capazes de provocar a transcendência, nós é que somos capazes de criar uma sensação de plenitude que nos atribui essa impressão de que estamos para lá do que era possível. Por isso, de alguma forma, o impossível é nosso. E há muito da frequência do Brasil e desta comunicação como uma espécie de antidepressão brasileira.

Acho que isso é que é muito glorioso na vossa sociedade, na vossa comunidade. Porque o Brasil é um país difícil, um país que em muitas dimensões é ingrato com seus próprios cidadãos. Mas, de alguma forma, os cidadãos estão sempre predispostos a uma superação e, por vezes, não encontramos isso em outros povos. Há povos que têm toda a abertura, toda a estrutura para se levantarem, mas as pessoas não estão predispostas a isso, as pessoas ficam de tal maneira oprimidas que elas próprias não são motor de nada. O Brasil tem isso de incrível, o povo brasileiro é todo ele um motor, é todo ele uma dinâmica incontida e imparável. Acho que pode levar muito tempo, mas quem quiser dominar o Brasil vai sempre se dar mal.

O paraíso são os outros

Para mim é muito claro que a questão do mal ou a questão da tristeza é-nos dada pela natureza. A natureza cria para nós um desafio que nos coloca num patamar imediatamente sujeito à morte e ao sofrimento. A gente nasce em agonia, nasce absolutamente imprestável, não somos procedentes, não conseguimos sobreviver sem imediatamente essa coisa maravilhosa que é o outro. Essa é a primeira evidência, a natureza, por mais esplendorosa que seja, não escolheu o ser humano para ser feliz. A única coisa que ela garante ao ser humano é a terrível sentença de vir a morrer. E, efetivamente, individualizado em absoluto ninguém sobreviveria. Nenhum de nós, tendo nascido como nascemos, se formos abandonados sem coletivo, nenhum de nós sobreviveria, não somos capazes de fazer isso. Essa é a primeira ideia. A felicidade, para mim, é uma conquista sobretudo cultural, que tem de ver com uma ansiedade quase física de espécie para que sobrevivamos, tem de ver com o fato de nossas mães e nossos pais, as pessoas que cuidam de nós, sentirem uma pulsão para nos salvarem, para nos ajudarem, para nos fazerem preparar para uma vida adulta.

Mas essa pulsão não é imediatamente uma entrega para a felicidade. Nenhum de nossos pais ou cuidadores pode nos dar a felicidade. Pode contribuir para nos proteger, mas não pode garantir a felicidade, porque a felicidade é de fato uma construção de consciência e a felicidade é sobretudo uma coisa individual e largamente intransmissível. Nesse sentido é que a minha felicidade pode ser muito diferente da felicidade de alguém, de outra pessoa, de qualquer pessoa, diante de mim.

Eu não acredito em uma felicidade que seja alienada, muito pelo contrário. A felicidade é exatamente uma maturação do pensamento e uma maturação de conduta, de forma de estar na vida. E o que é que isso implica? Implica reconhecer que o sofrimento faz parte porque o sofrimento foi oferecido pela natureza. Por isso não vai haver ninguém feliz que não tenha sofrido ou que não tenha em si, mesmo no momento de felicidade, uma tristeza.

Madureza

Eu acreditei em muitas coisas na minha vida, mas talvez tenha demorado para acreditar em mim. E quando a gente demora tanto para algo tão fundamental a gente não habitua. E uma das coisas mais marcantes da minha vida hoje é não querer cair em deslumbre, porque eu sei que os autores mais queridos, mais bem-sucedidos, têm um momento em que são profundamente esquecidos e, de algum modo, eu vivo quase esperando, que um dia, eventualmente, venderei poucos livros, as pessoas já terão lido muitos livros meus, já não vão querer me ler mais, guardarão uma simpatia por mim, mas talvez não se mobilizem para se juntarem numa sala como fizeram hoje. Por isso eu guardo muito esses momentos, eu não tenho essa impressão de que no próximo ano vai ser melhor, vai ser maior. Eu tenho sempre a consciência de que eventualmente este é um dos momentos mais bonitos da minha vida.

Eu não viria aqui para ser só metade de mim, para ser só um pouco do que sou.

Valter Hugo Mãe, tocado pelo espírito baiano, trouxe mais faces de si, de sua intimidade, de suas convicções e a poética de sua obra para o público do Fronteiras Braskem do Pensamento presente no Teatro Castro Alves, em Salvador.


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