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Leonardo Padura

Insularidade: a maldita circunstância de água por todo lado

O escritor e jornalista Leonardo Padura nasceu em um país de fronteiras líquidas. Reconhecido por sua literatura noir, e especialmente pelo best-seller O homem que amava os cachorros, teve a sua obra traduzida para mais de 20 países. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, abordou o tema da insularidade – uma maldita circunstância, falando de Cuba, dos sentimentos e problemas dos que habitam a ilha, e de como o fato de viver cercados pela água condiciona a maneira de ser e de existir dos cubanos.

O ponto de partida foi o seu passeio preferido, assim como o de muitos “habaneros”: o Malecón em Havana. Segundo Padura, o Malecón é uma e muitas coisas, a começar sendo um grande muro de cimento que separa, há um século, a cidade do mar e tem um metro de altura e 60 centímetros de largura. “Com orgulho, nós havaneiros dizemos que este é o banco de um parque público mais longo do mundo, pois uma prática comum é sentar-se no muro do Malecón, às vezes de frente, às vezes de costas para o mar, para aproveitar a brisa (quando há brisa) e praticar um dos mais amados esportes nacionais: o dolce far niente”. Assim, ele detalhou que aqueles que se sentam de costas para o mar contemplam o tempo, a cidade e a vida dos outros. E os que sentam de frente para o mar se empenham em olhar para dentro de si mesmos.

Esta é a essência do Malecón: concretizar a fronteira geográfica, os limites orgânicos e espirituais e a condição de ver e viver a vida daqueles que moram em Havana – a insularidade. “O Malecón se constitui no fim de algo e no começo de outra coisa, dependendo do ponto de vista ou do estado de espírito com o qual se deseja olhar. Início ou fim da ilha; início ou fim do que está além, sempre como uma promessa mais ou menos tentadora, mais ou menos inalcançável. O Malecón é a constância material e visual de uma condição geográfica, percebida às vezes como uma fatalidade, a qual o poeta Virgílio Piñera, em seu verso mais célebre e citado, descreveu como ‘A maldita circunstância da água por todos os lados’”.

Esta é uma condição que se revela evidente e traumática quando é sabido que, por mais de 50 anos, os habitantes do país não tiveram liberdade para se movimentar ou viajar além dos limites da ilha. “Uma das leis revolucionárias criadas na década de 1960, quando o governo cubano adotou o socialismo como seu sistema político, foi controlar de modo restrito o movimento de seus cidadãos para o que está além do Malecón. Desde então, foram construídos muros fronteiriços densos quando se instituíram figuras jurídicas como a ‘permissão de saída’, concedida pelas autoridades migratórias cubanas aos que pretendiam viajar, ou a ‘saída definitiva’, que significava a concessão de autorização para sair com a condição de nunca contemplar o retorno ao país natal que se abandonava.” Uma lei que, para o escritor, era uma forma de, até pouco tempo atrás, premiar ou castigar os cubanos. 

Esse sentimento opressivo da insularidade, conforme destacou, foi bem caracterizado nos romances do novelista, ensaísta e músico cubano Alejo Carpentier, que, em diferentes ocasiões, viveu fora de Cuba. Seu livro O século das luzes, um dos grandes romances hispano-americanos, é para Padura a representação da denúncia do fechamento histórico territorial decretado pelo poder. Ele indicou que o sistema para viajar ao exterior e a saída de Cuba podia ocorrer por quatro variantes: integrar uma delegação oficial (para esportistas, jornalistas, artistas e funcionários estatais), viagem pessoal para visitar familiares, a “saída definitiva” e a saída ilegal para o exílio sem a obtenção de permissão. “Somadas todas as alternativas, não deixa de ser curioso que de um país de fronteiras quase fechadas por lei, além disso fisicamente insular, tenham saído tantas pessoas utilizando rotas tão diferentes. O resultado de partidas e fugas foi o de conseguir que, em cinco décadas, cerca de um quinto da população cubana tenha se espalhado pelos lugares mais remotos do planeta – incluindo a Groenlândia.”

Desde o início de 2013, a “permissão de saída” foi abolida pela política de mudanças do governo Raúl Castro, embora algumas profissões ainda precisem da “carta de liberação” e o processo continue difícil e demorado. “Esta nova situação, que já foi aproveitada por muitas pessoas com a intenção de sair brevemente ou por um tempo maior do país, fez com que alguns começassem a olhar de um modo diferente para as centenas de metros de concreto armado do muro do Malecón... Ao menos encorajados por um sonho, uma possibilidade. Acima de tudo, por um direito.”

Padura explicou que o exílio ou o desejo e a necessidade de partir são parte essencial da história e do espírito cubanos desde muito antes da construção do Malecón. O primeiro escritor verdadeiramente cubano também foi o primeiro que sofreu os rigores do exílio em tempos coloniais. José María Heredia se viu obrigado a deixar Cuba em 1822, só podendo retornar em 1836, quando se atreveu a pedir uma permissão ao governador para, já doente, ver a mãe uma última vez. “Foi nesse longo exílio, morando nos Estados Unidos e no México, que Heredia escreveu vários de seus poemas mais transcendentes e publicou seus livros, formando a primeira grande obra lírica da literatura cubana, a mais alta expressão do romantismo em língua espanhola.” Entre seus poemas, Padura destaca “Niágara”, de 1824, em que Heredia registra a nostalgia pela pátria cubana perdida e se indaga frente à grandeza das cataratas e da natureza. 

O escritor cubano também citou outros conterrâneos que se viram forçados ao exílio, como Cirilo Villaverde, José Antonio Saco e José Martí, um dos grandes poetas ibero-americanos e conhecido como o apóstolo da independência de Cuba. “Na distância, Martí não só escreveu suas melhores páginas, mas preparou a guerra que eventualmente levaria à independência de Cuba. Talvez por tantos anos de estranhamento forçado, que o obrigou a atravessar o oceano tantas vezes em busca de destinos transitórios para viver e alimentar seu projeto político, Martí escreveu em um de seus versos mais conhecidos que ‘el arroyo de la sierra / me complace más que el mar’...”

Além dos autores já citados, Padura nominou outros como Severo Sarduy, Guillermo Cabrera Infante e Reinaldo Arenas. Durante dois séculos, mais de uma dezena de escritores cubanos se viram impulsionados a viver no exílio, convertendo a distância física em uma constante da literatura. “Em muitos casos, a parte mais significativa de suas obras foi escrita a distância e, na maioria deles, com o olhar e a alma colocados na terra que começa ou termina com o muro do Malecón.”

Talvez o caso mais representativo tenha sido o de José Lezama Lima, que saiu de Cuba e foi para Jamaica, dez vezes menor e ainda mais insular do que a ilha vizinha. “Assim como Carpentier, que perseguiu de maneira ostensiva o universal como base de sua estética, Lezama o alcançou por conta da distância poética que ele colocou entre sua realidade diária como funcionário público e seu olhar ganancioso de homem dotado de um espírito sem limites culturais ou temporais.”

As tensões em Cuba foram reduzidas e os viajantes que não queriam ficar imóveis começaram a ter esperança. Embora, para a imensa maioria, ainda esteja vetada a possibilidade de viajar como turistas. E o Malecón segue firme em seus cimentos, de acordo com Padura, como a testemunha de uma fatalidade geográfica.

Ele também discorreu sobre a obrigação de os autores cubanos comercializarem as suas obras através de uma agência literária adjunta do Ministério da Cultura, a única instância autorizada a gerir edições, firmar contratos e cobrar direitos autorais. Em 1990, após a queda da União Soviética e as mudanças que ocorreram em Cuba, muitos escritores conseguiram ultrapassar os limites do muro. Mas as ilusões foram degradadas pela realidade. “As histórias que os autores cubanos acreditavam ser importantes e atraentes, os escritos que pretendiam ser inovadores, a origem que teria algo exótico e interessante, não foi assim considerada para a maioria das editoras da língua – menos para as de outros idiomas –, e a insularidade literária caiu como um fardo sobre as pretensões de muitos escritores que não puderam atravessar o muro do mercado e, quando mais, tiveram que se conformar em continuar publicando em Cuba – se pudessem – ou em selos pequenos ou marginais do mundo maior que está além dos mares que cercam a ilha.”

O escritor cubano explicou que a origem desse fracasso é simples: as insularidades física e mental têm o efeito secundário e indesejável de provocar o localismo. “O próprio Carpentier, citando Unamuno, uma vez advertiu fazendo uma referência à cultura de todo o continente latino-americano: a essência da arte é ‘encontrar o universal nas entranhas do local’. Mas como podemos olhar para o universal se temos uma coexistência contínua e autofágica com o local?”. Nesse sentido, o encarceramento físico pode significar o encarceramento mental.

No entanto, Padura afirmou que a insularidade também pode ter um efeito benéfico: o sentido de pertença. Mesmo a distância, muitos seguiram política e poeticamente atados à ilha. E é esse o sentimento que une Padura ao local onde nasceu e onde ainda vive, mesmo possuindo a cidadania espanhola. “Porque eu sou cubano, um escritor cubano, que escreve sobre Cuba e os cubanos e que, por vontade própria, decidiu – mesmo nos momentos mais difíceis da minha vida e da vida do país, como os desolados e famintos anos 1990 – permanecer vivendo e escrevendo em Cuba. Este é o sentimento de pertença que não apenas me liga ao meu país, à minha cidade (com o seu Malecón e o seu muro), ao meu bairro (moro no mesmo lugar onde nasci), mas que me avisa de algo muito mais complicado: que nunca serei outra coisa que não um escritor cubano e que, se morasse em outro lugar, eu seria um desses cubanos que nunca poderia ‘deixar’ Cuba.”

É esse sentimento de pertencimento que, impulsionado pelos lugares, pela música, pelo esporte (baseball) e pela gastronomia (mesmo que a considere desastrosa), que o fizeram se tornar o escritor que ele é, construindo personagens que são tão “habaneros” e cubanos quanto ele, com as suas cargas de amor, ódio e estranhamento. “Para o meu personagem fetiche, Mario Conde, eu o condenei, sem possíveis apelações, a viver de suas nostalgias havaneiras, escondido em um bairro que se parece muito com Mantilla, e do telhado de sua casa desde sempre eu o encorajo a descrever o que vê e a lamentar o que se perdeu neste lugar fascinante. Eu lhe transmiti meu sentimento de pertença e o tornei irremediavelmente havaneiro, porque eu, seu criador, não sou outra coisa senão isso, um havaneiro que escreve sobre a pertença insular.”

Padura definiu que o escritor é a sua cultura, inclusive o idioma e a forma como utiliza este idioma, além das infinitas referências e circunstâncias próprias de sua identidade, numa relação de dependência com o meio. Escrever sobre Cuba é a missão fatal que o acompanha e que ele aceita porque não pode deixar de cumpri-la. Viver na ilha é uma decisão, um exercício de arbítrio que ele aceitou de forma voluntária para seguir sendo alguém que vive as suas nostalgias, suas recordações, suas frustrações e, claro, suas alegrias e seus amores. “Ainda que não pratique com muita frequência essas sensações e revelações, como andar no final da tarde pelo Malecón, me sentar em seu muro de frente para a cidade para ver a vida, ou de frente para o mar para ver a mim mesmo e pensar que, além do oceano, há um mundo que tive a sorte de conhecer e desfrutar, mas que não me pertence, me faz voltar a sentir que, na parte interna do muro, existe um país que, apesar das leis e proibições que chegaram a torná-lo hostil, pertence a mim. E ao qual eu pertenço, como o muro do Malecón”, finalizou.


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