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Amós Oz

Meus livros, meu país, minha política

Reconhecido por sua literatura e candidato recorrente ao Prêmio Nobel, o escritor israelense Amós Oz tem uma extensa obra publicada em mais de 40 países. Nos últimos anos, também se consagrou como ensaísta. Autor de Como curar um fanático e lançando no Brasil Mais de uma luz, novo livro de ensaios, ele falou em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, sobre política, a relação entre os judeus israelenses e os árabes palestinos, literatura e, especialmente, sobre o aumento do fanatismo no mundo.

Segundo ele, muitas pessoas se interessam pela literatura como um meio de entretenimento e informação. Mas, em Israel, muitas práticas são diferentes, em particular quando envolvem política e – obviamente – fanatismo. “Em Israel, as pessoas compram os livros para ler e para ficar bravos com os autores. E muitos compram seis cópias do mesmo livro, e destroem um por um de raiva. Israel não é uma nação e nem é um país. Israel é um grupo de discussões. Oito milhões e meio de cidadãos que são oito milhões e meio de primeiros-ministros. Cada um é um messias, cada um tem a sua própria opinião. Ninguém concorda com o outro. Cada um tem a fórmula para a redenção instantânea.”

Segundo ele, os israelenses sempre duvidam uns dos outros e se consideram os donos da razão. “Nós temos que questionar, duvidar dos outros. Eu perguntei a meu pai quando ainda era jovem: ‘Me diz, pai, por que nós judeus sempre respondemos uma pergunta com outra pergunta?’. E meu pai respondeu: ‘Por que não?’. Eu concordo com ele. Por que não? É muito raro encontrar dois israelenses que concordam com uma coisa. Aliás, é muito raro que um israelense concorde com ele mesmo. Porque todo mundo é ambivalente, cada um tem uma mente e alma dividida.” Este é o lado que Oz admira nos israelenses: o fato de que cada indivíduo se autonomeou, ao mesmo tempo, como mensageiro político, líder nacional, profeta e messias. No entanto, existe um lado sombrio, manifestado por meio do fanatismo, do extremismo e da redução da tolerância. A complexidade do mundo, de acordo com o escritor, é uma das respostas para o fenômeno. “Eu acredito que um dos motivos é que, quanto mais complexos os problemas vão se tornando, mais as pessoas esperam respostas simples. E os fanáticos, os dogmáticos, sempre têm uma resposta simples para tudo. ‘Ah, vamos culpar a globalização. A culpa é do Oeste, do Ocidente, dos muçulmanos, do colonialismo. A culpa é do capitalismo, do sionismo, as religiões são culpadas por seu polarismo, permissivismo. Escolha quem é o vilão. Mate o vilão e o reino dos céus vai começar imediatamente.’ Esta é a resposta dos fanáticos. Simples, com uma frase atraente, eficaz e fácil de você memorizar e usar.” Duas ou três gerações após o mundo assistir às atrocidades do racismo nazista e do radicalismo soviético, as pessoas estão procurando por respostas simplistas. E este é o grande perigo para Oz.

Muitas vezes, é esse simplismo que muitos querem ver aplicados na questão do conflito entre israelenses e palestinos, que Oz classifica como mortal, doloroso e complicado. “Os palestinos dizem que a terra deles é o lar deles. E eles têm um argumento forte. Os judeus israelenses também dizem que esta é a única terra, a única terra dos nossos ancestrais. E eles também têm um argumento poderoso. Não é um filme de Hollywood com o bandido e o mocinho. É um conflito entre os que estão certos e os que estão certos. Ambos estão certos. Porque parece mais um conflito de injustiça contra injustiça e justiça contra justiça. Muitas pessoas fora de Israel não conseguem entender e acham que é preciso tomar lados. E, inclusive, intelectuais do Ocidente que detestam os filmes de Hollywood. Quando se fala do Oriente Médio, eles querem saber quem é o vilão e quem é o mocinho.”

Segundo Oz, é preciso chegar a um meio-termo nesta questão e assumir um compromisso. Compromisso que é sinônimo de vida, pois para ele o oposto disso é fanatismo e morte. Um acordo que não passaria pela constituição de sociedades binacionais ou multinacionais, visto o fracasso vivido por Iugoslávia, Chipre, Líbano, Síria, Iraque e União Soviética. “O que nós precisamos agora é dividir a casa muito pequena em apartamentos ainda menores. Dividir um apartamento em dois. Temos que aprender a ser vizinhos. Temos que começar com uma divisão do apartamento e depois aprender a dizer bom-dia com educação. No hall, entre os dois apartamentos no mesmo andar. Depois, talvez, um visitar o outro, tomar um café. O café árabe, que é muito melhor do que o café israelense. E depois dar risadas sobre a nossa estupidez passada. Quem sabe, um dia, cozinharmos juntos. Quer dizer, uma economia compartilhada. Quem sabe, depois, um mercado comum, ou uma federação ou uma confederação do Oriente Médio. Mas o passo número um deveria ser uma solução de dois Estados, uma linha clara onde os palestinos vão saber que o lar deles é o lar deles. E os judeus israelenses vão saber que o lar deles é deles.”

A solução de dois Estados funcionaria como uma amputação para ambos, representando renúncia tanto para israelenses quanto para palestinos. Um caminho doloroso e difícil, mas a única alternativa possível na visão do escritor. “Os palestinos não têm para onde ir. E os judeus israelenses também não têm para onde ir, não querem sair de lá. Não podem agora se tornar uma família feliz porque eles não são felizes, não são unidos e não são parentes. São duas famílias infelizes.”

Nos últimos anos, alguns têm se dado conta de que israelenses e palestinos não estão sozinhos no país e precisam considerar uns aos outros. Ao mesmo tempo em que a fadiga tem se manifestado no conflito. Todos estão cansados. Mas muitos consideram o posicionamento de Oz como traição. “No meu país eles acham que eu sou um traidor perigoso. Já me chamaram de traidor muitas vezes na vida. Eu levo isso como uma honra. Porque isso me coloca em excelente companhia. Não estou falando daquele traidor que trabalha na fábrica e que vende a produção ou a fórmula da planta para a concorrência para ganhar dinheiro. Não estou falando de concorrência. É diferente. Pessoas que mudam nos olhos daqueles que odeiam mudança e temem a mudança. Pessoas que mudam de lado são perigosos, são traidores. E muitas vezes pessoas são chamadas de traidores só porque eles estão à frente do seu tempo. Será que eu estou à frente do meu tempo? Bom, daqui a 50 ou 100 anos nós poderemos responder a esta pergunta. Porque hoje eu não sei.” Oz citou algumas pessoas que estiveram à frente do seu tempo, como Charles de Gaulle, Mikhail Gorbachev, Émile Zola, Theodor Herzl e muitos outros, que também foram considerados como traidores por seus conterrâneos.

Amós Oz explicou que acredita apenas em um acordo pragmático neste caso, afastando-se de mudanças totais ou iluminações repentinas que não ocorrerão. E isso o situa até mesmo em lados opostos dos personagens dos seus livros. Muitos deles têm ideias divergentes do próprio autor. “Meus protagonistas acreditam em coisas que eu não acredito. No meu último romance, o último que foi traduzido para o português, que é Judas, Jesus e Abravanel acreditam em amor universal. Eu não. Eu acho que amor é um commoditie muito raro. Eu acho que um ser humano consegue amar cinco pessoas. Dez. Talvez quinze. Depois disso, isso não é amor. Pode ser empatia, compaixão, amizade. Mas não é amor. Porque amor é uma coisa íntima. Ninguém pode amar um continente. Se alguém disser que ama a América Latina, ou ama o Terceiro Mundo, ou o sexo feminino, significa que ele não ama ninguém.”

Alguns dos seus personagens, como Shmuel Ash de Judas, romance lançado em 2014, acreditam em salvação instantânea. Oz acredita em solução. “Eu conheço muitas pessoas no meu país que me chamam de radical perigoso. Mas eu não sou. Eu sou evolucionista. Quando se fala de assuntos públicos, política e assuntos humanos e até de família. Relacionamento entre vizinhos. Eu tenho a mentalidade de um médico do interior. Começando a tratar das feridas, as mais urgentes primeiro. Procure ajudar o máximo possível. Não acrescente dor a uma dor existente. Procure reduzir a dor. Não tente fazer milagres. Não tente reviver os mortos ou mudar a realidade da noite para o dia. Veja o que você pode fazer e faça. O meu grande professor é o meu mentor literário: Anton Tchékhov. Ele era um médico de interior por vocação. Sim, eu acredito em soluções pragmáticas, pé na terra. Não em salvação.”

Oz ressaltou que escreve livros de ideias e de emoções, não para passar mensagens políticas. Ele sente-se como um compositor escrevendo uma peça de música de câmara. “Eu escrevi um quinteto de cordas, e a minha plateia me pergunta: ‘Com licença, senhor. O senhor se identifica com o violino ou o senhor é mais do lado do cello?’. Não. De jeito nenhum. Eu vou dar um segredo profissional a vocês: sempre que eu acordo de manhã, e quando eu concordo totalmente comigo mesmo, eu não escrevo nada de história. Eu escrevo um artigo com raiva, dizendo ao meu governo o que eles deveriam fazer. E às vezes eu digo: ‘Olha, meu governo, vocês podem ir para o inferno’. E eles não vão para o inferno. E eu tenho que descobrir por quê.” 

Para Oz, a literatura não tem um papel, mas permite a escritores e leitores o dom de enxergar os outros por uma nova luz. “Esta é a bênção da literatura. É um antídoto antifanático. É como humor. O humor é um antídoto contra fanático. Vocês já viram fanáticos com senso de humor? Não existem. Ou uma pessoa que tenha humor não vai se tornar um fanático. Especialmente aquele tipo de humor de você dar risadas de você mesmo e que significa poder se enxergar como os outros enxergam você.”

A necessidade de contar e de ouvir histórias é algo antigo da humanidade e é o que também move o escritor israelense. “E se aprendemos contando e ouvindo histórias, a literatura nos dá um presente. Você lê um romance escrito por um estrangeiro de outro país que você não conhece, uma civilização, uma religião diferente. Até um século ou milênio diferente. E a gente lê. E em algum momento pausamos e ficamos sem ar e falamos: ‘Meu Deus, mas isso sou eu’. Como é que esse escritor de tão longe pode saber os meus segredos? Ele está falando do meu ser interior, coisas que eu nunca compartilhei com ninguém. Esse é o momento impressionante na experiência da leitura. E depois tem o oposto: centenas de páginas mais adiante, no mesmo romance, você para de ler, e fica sem ar e você diz a si mesmo: isso nunca poderia ser eu. Nunca, nem em um milhão de anos, mesmo se me dessem um milhão de dólares, eu jamais faria isso, não poderia. Então, essas duas fascinações contraditórias é exatamente o que eu sou.”

Oz contou sobre seu hábito de acordar, todos os dias, às 4 horas e caminhar pelas ruas escuras e vazias. É o momento em que as coisas voltam para a sua proporção original. Não existe o “para sempre” ou “para toda a eternidade”, o “mais importante” está bem separado do “menos importante”, e ele acaba encontrando inspiração em uma janela iluminada. “O que faz uma mulher sozinha, 4 horas da madrugada, olhando? Ela não me vê. Mas o que será que ela perdeu? Que solidão coloca essa mulher numa janela escura às 4 horas da madrugada? E, às vezes, isso acaba sendo a semente de uma história. E aí eu volto para casa, faço eu mesmo um café e, antes das 5 horas, sento na minha mesa. É noite completa lá fora. E eu me pergunto: e se eu fosse ela? Ou se eu fosse ele? Ou se eu fosse eles? O que eu pensaria? O que eu desejaria? O que eu teria muita vergonha e não gostaria que ninguém jamais soubesse, mesmo as pessoas mais queridas a mim? O que será que eu comeria e vestiria? Esta é a minha vida diária. Eu me coloco nos sapatos, nas peles dos outros. Por curiosidade.”

A mensagem final, para Amós Oz, é que a curiosidade pode ser uma virtude moral, porque o ser humano curioso é um pouco melhor do que aquele que não tem curiosidade, pois consegue enxergar o outro e o mundo. “Eu acredito também na bênção da curiosidade em tempos de conflitos políticos, religiosos, ideológicos e pessoais. Não porque a curiosidade possa sarar tudo, mas porque a curiosidade, não menos do que o humor, é um antídoto poderoso ao fanatismo. E o fanatismo está se tornando a praga do século XXI”, finalizou.


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