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Deirdre McCloskey

O grande enriquecimento

Reconhecida por sua atuação nas áreas da economia de livre mercado, da estatística teórica, da ética e da defesa das pessoas transgênero, a economista e historiadora norte-americana Deirdre McCloskey também publicou livros essenciais, como a trilogia sobre a influência da burguesia na história econômica mundial. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, ela abordou os temas do liberalismo, das liberdades individuais, do grande enriquecimento visto no mundo e de por que as desigualdades e a corrupção não são os fatores mais importantes para determinar o avanço ou não de uma nação. 

Sem desviar de possíveis polêmicas e deixando claro discordar do pensamento de intelectuais como Thomas Piketty, Niall Ferguson e Joseph Stiglitz, McCloskey iniciou sua fala abordando a questão do capitalismo e de como as sociedades chegaram ao mundo moderno, atingindo os patamares atuais de riqueza. “Eu sou a favor do acúmulo de capital, como dizemos na economia. Mas isso não explica a nossa riqueza atual. Os brasileiros talvez se queixem: ‘Nós não somos ricos. Somos pobres. Coitadinhos de nós’. Mas, em comparação aos nossos ancestrais, nós somos muito ricos. Você, eu, todos estamos muito melhores do que estavam os nossos ancestrais. Mas quanto melhor?”

De acordo com a economista, no século XIX, em países como Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, China, Índia e África, homens, mulheres e crianças ganhavam, produziam a gastavam cerca de US$ 2 por dia, um valor atualizado para o correspondente moderno. Atualmente, o que se observa é o crescimento em um fator de 20. No Brasil, por exemplo, a renda per capita média é de US$ 40 por dia. “Vocês podem pensar que é impossível viver com US$ 2 por dia. Mas não é verdade. Ainda há gente no mundo que vive com essa quantia diária. Ainda que, na verdade, nos últimos 40 anos, uma porcentagem da população mundial que vive com essas rendas históricas baixíssimas tenha caído drasticamente. Então, hoje, uma porcentagem muito menor da população do mundo vive com US$ 2 por dia, em comparação aos séculos anteriores.”

Nos países que adotaram o capitalismo mais intensamente, a renda per capita atinge US$ 100 por dia (Inglaterra) e US$ 130 por dia (Estados Unidos), por exemplo. E, para McCloskey, esta é a prova do que ela chama de “o grande enriquecimento” do mundo, levando em conta que as pessoas ganham muito mais. E, frente a esse crescimento econômico, fatores como a desigualdade, a distribuição de renda e problemas como a corrupção tornam-se pequenos e desimportantes. “Por exemplo: o problema da corrupção. Eu venho de Chicago. A gente conhece bem corrupção por lá. Sinceramente, eu consigo me solidarizar. Mas a corrupção é um desses problemas que parece pequeno na comparação ao que acontece em relação ao crescimento econômico. Desde o século XIX, nos Estados Unidos, houve 40 recessões. Isso sem contar esta última que nós tivemos. Envolvendo catástrofes financeiras. Lógico que a da década de 1930 foi a pior. Mas sempre a renda real per capita depois da recessão acaba sendo, em geral, muito maior do que a renda per capita no pico do que veio antes. Então, o assim chamado de capitalismo começou aqui com US$ 2 por dia.”

Para McCloskey, quando se trata de ciclos comerciais, que possuem suas fases altas e baixas, a tendência é sempre se dirigir ao alto. E o grande enriquecimento é o fato mais importante da história moderna, e o próprio acúmulo de capital não explica como isso aconteceu. Ela ressaltou que, há 200 mil anos, os humanos já acumulavam na África, guardando suas pontas de lanças e outros utensílios. E que, em 1492, a China era uma potência em termos de tecnologia e ciência. Mas, mesmo assim, foi um país que acabou não vivendo o grande enriquecimento.

Outro fator que muitos utilizam para explicar o enriquecimento – e que é descartado por McCloskey – é a exploração da classe trabalhadora. “Mas as pessoas de esquerda dizem: ‘Ah, a exploração’. A exploração da classe trabalhadora. A exploração dos brasileiros. A exploração de um grupo de brasileiros por parte de outro. A exploração dos escravos, particularmente no Brasil, mas também nos Estados Unidos, pelos brancos europeus. Você fala: ‘Ah! Esta é a fonte. É por isso que o Ocidente enriqueceu’. Mas este tem o mesmo problema do que os conservadores falam sobre o acúmulo, que é algo que sempre aconteceu. Na verdade, a escravatura não foi uma invenção dos americanos nos séculos XVII e XVIII. Sequer dos brasileiros. A escravatura e a exploração são muito antigas. A exploração das mulheres pelos homens é, na realidade, uma exploração muito fundamental nas sociedades humanas. Isso sempre foi assim. Então, não foi que algo tenha mudado neste sentido.” 

McCloskey ressaltou que muitos lados estão errados nessa discussão. Se nem a direita – que fala sobre as virtudes do capitalista economizando o seu dinheiro – ou a esquerda – que fala sobre os males dos capitalistas que roubam o dinheiro – estão certos, qual a explicação para o grande enriquecimento? Ela se resume em uma palavra: liberalismo. “Adam Smith – a quem eu admiro muito – falava sobre Plano Liberal da Igualdade, Liberdade e Justiça.” Essa explicação se fundamenta em três bases: a igualdade social (“todos os seres humanos criados de forma igual”), a liberdade econômica (“o direito de abrir um negócio quando quer que você queira”) e a justiça jurídica (“todos iguais perante a lei”). “Esses três conceitos têm a ver com igualdade. Não a igualdade que vocês ouviram de Thomas Piketty. Não é a mesma ideia, não. A ideia de Piketty é a francesa. A minha ideia é a escocesa de igualdade. A igualdade de Piketty é aquela depois do evento: se um médico ganha mais do que o motorista de táxi, temos que ter todos a mesma renda. Adam Smith e eu não concordamos com esse conceito. Nós achamos que temos que oferecer a cada indivíduo um ponto de partida e aí deixar a pessoa em paz. Agora, isso envolve educação – que eu quero que haja impostos para pagar educação – e também envolve saúde até certo ponto e várias outras coisas que nós, no mundo moderno, podemos fazer para auxiliar os pobres e outras pessoas em desvantagem a crescer.”

Considerando-se uma liberal cristã, a economista reconhece o dever de ajudar os pobres. Mas ressaltou que não reconhece o direito de que outras pessoas se aproveitem de rendas extraídas pelo Estado com violência. “Nós, liberais, nossos verdadeiros liberais – diferentemente dessas pessoas que correm por aí que fingem ser liberais –, nós achamos que o Estado não deve ter esse enorme poder da violência. Porque é muito difícil controlar o Estado uma vez que ele comece num programa baseado em violência. Nós não gostamos quando os nossos amigos conservadores queiram que o Estado tenha o poder violento de perseguir os gays, e não gostamos quando os nossos amigos na esquerda – eu tenho muitos grandes amigos na esquerda – queiram que o Estado persiga aqueles malditos milionários. Nós não queremos que o Estado tenha qualquer tipo de violência.”

A demanda direta do liberalismo é libertar as pessoas em todas as esferas da sociedade e, com isso, permitir que elas estabeleçam metas para as próprias vidas. A consequência é, de acordo com McCloskey, altos níveis de inovação. “Então, o que aconteceu foi essa inovação maciça como consequência do liberalismo. Como consequência de se deixar as pessoas terem uma meta. Eu acho que essa é a explicação para o crescimento econômico moderno. É uma explicação alegre. Porque ela fala: libertar as pessoas faz com que elas enriqueçam. O que é excelente! Porque elas estão livres e ricas. Ambas as coisas.” 

Esse é o negócio, que ela classificou como “o negócio burguês”, que impulsiona a economia. “Este é um negócio feito pela burguesia, a classe média, os inventores, os fabricantes. Não as empresas antigas. Mas as novas. A classe trabalhadora. A mulher trabalhadora que abre um salão de cabeleireiros e é empreendedora e inovadora na esfera dela. Tanto quanto um Thomas Edison. Porque ela está ali com o mesmo compromisso emocional e econômico que o Thomas Edison fez. Então, liberte as pessoas, e elas enriquecem.” 

Na última parte da conferência, McCloskey apresentou um levantamento da quantidade de gerações, em diferentes países, que seria necessária para, a partir de políticas liberais, alcançar a renda per capita real dos Estados Unidos em 2016 caso as taxas de crescimento de 1990 a 2016 se mantenham. “Eu tenho um título alternativo a este. Ele é: ou por que deixar que as pessoas abram os seus negócios com o mínimo de interferência na negociação de salários e por que a desigualdade ou a corrupção são fatos importantes.”

Chile e China, de acordo com a economista, precisariam de uma geração, ou seja, 20 anos. Para a Índia, o tempo necessário seria o dobro – 40 anos (ou duas gerações). E para Brasil e África, caso continuem sem adotar as políticas econômicas liberais, seriam necessárias, respectivamente, seis e nove gerações. Um período que a economista considera como longo. “Então, qual seria a minha recomendação? Minha recomendação é que o Brasil siga Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, a China Continental, Botsuana, Chile. E adote uma sociedade livre do lado econômico. Aqui a sociedade é livre, tem uma imprensa livre, graças a Deus. Tem liberdade de expressão. Eu aprovo. Veja só o que está acontecendo na Turquia. É um desastre. E eu acho que isso jamais vai acontecer no Brasil. Então, minha recomendação é que adotem essas políticas. E o Brasil também vai poder chegar a ter um padrão de renda norte-americano em uma ou duas gerações”, finalizou. 


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