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Deirdre McCloskey

O grande enriquecimento

Reconhecida por sua atuação nas áreas da economia de livre mercado, da estatística teórica, da ética e da defesa das pessoas transgênero, a economista e historiadora norte-americana Deirdre McCloskey também publicou livros essenciais, como a trilogia sobre a influência da burguesia na história econômica mundial. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo, ela abordou temas como as virtudes burguesas, o liberalismo, as liberdades individuais e o fator principal que levou o mundo moderno a um grande enriquecimento.

Sem desviar de possíveis polêmicas e deixando claro discordar do pensamento de intelectuais como Thomas Piketty, Niall Ferguson e Joseph Stiglitz, McCloskey iniciou sua fala explicando como a riqueza atual da sociedade se baseou em uma defesa ao capitalismo. “Na verdade, eu não gosto deste termo capitalismo. Acho um termo bobo, porque sugere que o motivo pelo qual estamos bem hoje, em comparação aos nossos ancestrais, seria porque empilhamos tijolo em cima de tijolo, diploma universitário em cima de diploma, ou instituição em cima de instituição. Eu não considero que isso seja correto. Então, não acho que o capitalismo seja um termo sensato. Acredito que ele distrai a nossa atenção daquilo que eu vou argumentar aqui esta noite. Pois eu acho que são as ideias que importam. As novas ideias, as novidades que vemos ao nosso redor. É isso que faz o mundo moderno.” Ela destacou que, no século XIX, em países como Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, China, Índia e África, homens, mulheres e crianças ganhavam, produziam a gastavam cerca de US$ 2 por dia, um valor atualizado para o correspondente moderno. Atualmente, o que se observa é o crescimento em um fator de 20. No Brasil, por exemplo, a renda per capita média é de US$ 40 por dia.

De acordo com a economista, existe uma ideia fundamental que possibilitou que as pessoas estabelecessem metas para as próprias vidas. Foi em busca deste norte que McCloskey deu início à sua formação política como socialista anarquista. Posteriormente, abraçou o socialismo e, quando estava na Universidade de Harvard, tornou-se keynesiana, atuando como engenheira econômica. Anos mais tarde, quando já trabalhava como historiadora da economia, começou a se aproximar do pensamento do mercado livre. E, mesmo considerando que ficou anos à deriva – parafraseando a atriz norte-americana Mae West –, McCloskey se autodefine como uma economista austríaca. “Ainda acho que os marxistas, como eu fui um dia, levantam questões importantes. Eu falo para os meus amigos conservadores: ‘Marx foi o maior cientista social do século XIX. Não tem comparação’. E eles ficam brabos comigo. Daí eu falo para os meus amigos da esquerda: ‘Mas ele errou em tudo’. É por isso que eu não tenho amigos no final das contas. Eu consigo ofender ambos os lados.”

Há 25 anos, a economista começou suas pesquisas e estudos sobre as virtudes da burguesia. O resultado foi a publicação de uma trilogia – cujo último volume possui mais de 700 páginas – na qual destaca a importância dos burgueses para a economia, mesmo que o termo tenha sido utilizado muitas vezes como forma de xingamento ou agressão. “Será que a vida capitalista corrompe? Será que, quando nós vamos trabalhar num escritório, isso rouba a nossa alma? Será que os industrialistas que compram na baixa e vendem na alta são maus? Gandhi falou que comprar na baixa e vender na alta era a pior coisa que já ouvira. Bom, comprar na baixa e vender na alta é, simplesmente, você tomar um recurso de um valor baixo, e aí atribuir um valor alto. E ter um lucro disso. Muitas vezes, com uma concorrência.”

Em seu trabalho, McCloskey considera que se coloca, justamente, contra a presunção de que a burguesia seja má. E que muitos pensam que é possível enriquecer apenas por meio de roubo, de influência sobre o governo ou de herança. “Eu não quero proteger as pessoas que fazem essas três coisas. Quero, inclusive, impedir as duas primeiras. Não quero que ninguém roube nada. Também não quero que ninguém influencie o governo, como tantos ricos fazem, e os pobres, também, de forma a terem proteção. Não quero que isso aconteça. Com relação à herança, eu fico mais relaxada. Mas não acho que essa seja a maior virtude do capitalismo. A maior virtude da economia de livre mercado é que essas pessoas do capitalismo estão por aí tentando, por exemplo, desenvolver smartphones que possam até lavar a sua roupa, fazer a sua cama. Eu adoraria ter um smartphone que fizesse tudo isso para mim em casa.”

Com a trilogia, o objetivo da economista foi mostrar que virtude e burguesia não são antônimos. “Comecei a me dar conta dessa minha ideia de que o capitalismo poderia incentivar a virtude – claro, pode corromper, mas qualquer sociedade pode corromper, mesmo se fosse uma sociedade de monges e freiras. A Igreja pode corromper. E certas partes da Igreja Católica corrompem o espírito humano de fato. Então, em qualquer sociedade existe esse risco. Mas quando eu percebi e mostrei que o capitalismo não é o mal, notei que tinha ali a causa do grande enriquecimento do mundo moderno.”

Segundo ela, o principal dever de um economista é explicar aquilo que Adam Smith classificava como a natureza e as causas da riqueza das nações. Em busca dessa compreensão, McCloskey analisou as teorias de todos os seus colegas – amigos e inimigos. Descobriu, assim, que a justificativa para grande enriquecimento se concentrava, de forma geral, em três explicações: o acúmulo de capital, a exploração e a mudança institucional. 

A primeira delas é a ideia conservadora, e defende que, por meio do acúmulo de capital, algumas pessoas se tornaram mais ricas. A historiadora destacou que o primeiro erro dessa explicação está no fato de que ela desconsidera o fator histórico, pois os humanos mantiveram o hábito de acumular desde sempre: na pré-história, na China ou na Roma antiga. E isso nunca representou o enriquecimento das nações. “E tem também um problema econômico nessa explicação. Como Keynes disse: ‘Você pode diminuir o retorno do capital a praticamente zero em uma geração se não houver inovação. Se não houver novas ideias’. E ele estava certo. Sem novas ideias a respeito do que pode ser feito, você só acumula um monte de tijolos e um monte de coisas, isso não vai deixá-lo mais rico. Empilhar tijolo não vai enriquecer você. O governo faz isso. Fala: ‘Ah, vamos investir em tal e tal bairro, e nessa indústria aqui que o governo quer dar um tratamento especial’. E daí a coisa não funciona.”

Na esquerda, de acordo com McCloskey, os marxistas têm outra explicação, relacionada à exploração. “São os patrões explorando os pobres, e aí eles investem aquilo que roubaram dos pobres. E isso volta para o acúmulo de capital. Essa é a origem da palavra capitalista, da ideia do marxismo. Não foi Marx, mas foi do marxismo que veio essa palavra. É o mesmo problema que tem no acúmulo. E tem um outro problema que vem nesta explicação: a exploração é algo pequeno demais para conseguir resumir o que aconteceu. Por exemplo, o Império Britânico.” A economista completou que o Império tornou a Inglaterra mais poderosa, pois permitia chamar tropas indianas para lutar na França na Primeira Guerra Mundial. Mas não melhorou a economia da nação. 

E a terceira possibilidade é a mudança institucional, conceito popularizado pelo economista norte-americano Douglass North. “O problema com o conceito do Doug é um algo semelhante ao dos outros argumentos. É algo que já foi feito. O direito britânico tinha conceitos claros de contrato de propriedade desde o século XIII. A lei anglo-saxã, até antes. O direito germânico tinha esses conceitos todos. Inclusive, previa contratos. Algo estranho. E as instituições da Inglaterra onde aconteceu ou começou a Revolução Industrial não mudaram. Começaram a mudar em 1830. Mas isso já é tarde demais para explicar a Revolução Industrial.”

Para McCloskey, a resposta definitiva para o grande enriquecimento está no liberalismo, focado nos valores de vida, liberdade e busca da felicidade, o que permitiu o mundo moderno. “Essa ideia de que se deve deixar a pessoa ter uma meta. As pessoas não devem ser regulamentadas. Você não deve tirar a sua propriedade. Não deve ter imposto demais. Tem que ter imposto. Eu sou uma cristã liberal. Eu acredito que temos o dever perante os pobres, como Jesus disse. ‘Da forma como você trata o menor dos meus irmãos, assim você me trata também.’ Eu acredito nisso. Temos um dever perante os pobres, mas o dever que devemos exercitar é o de aumentar a sua renda, para que chegue a um nível digno. Não usar salário mínimo ou proteção de emprego, que é algo que exclui simplesmente os jovens e os mal instruídos de terem algum emprego que seja. Hoje temos um problema muito sério de desemprego de jovens no mundo. Isso foi criado pelo protecionismo, que foi elaborado por muitos aqui. Algo que protege vocês da concorrência com os pobres.” 

Esse grande enriquecimento foi motivado pela inovação e pela liberdade, permitindo que as pessoas tivessem seus próprios negócios e representando um aumento de 3.000% na renda per capita de 1800 até os dias de hoje. “Eu moro num apartamento. Eu não sou rica. Mas tenho um apartamento de 300 metros quadrados para mim e meu cachorro. Bem no Centro de Chicago. Foi uma fábrica no passado. Uma pessoa comparável a mim, há 100 anos, teria um décimo desse espaço. Quando eu era jovem era comum as crianças compartilharem um quarto. Hoje, nos EUA, em geral, cada filho tem o seu quarto separado. Então, o que eu digo é que o que precisamos é uma ideia nova, caridosa. Um liberalismo generoso, caridoso, bondoso, talvez cristão. E o que o Brasil precisa é superar essa história de proteção para um ou outro grupo, superar essa história antiquada de ter que licenciar ocupações.” 

A economista destacou que essa mudança profunda não foi ocasionada pelo governo. E é, justamente, a influência estatal que McCloskey considera negativa para a economia. “O governo não é empreendedor. ‘Eu sou do governo, estou aqui para ajudar.’ O governo não é mau em si. Eu já trabalhei para o governo. Não estou querendo dizer que funcionários públicos sejam maus. Mas o que eu quero dizer é que empresas estatais que não tenham concorrência, que sejam monopólios, que não tenham uma entrada ou uma saída e que não desaparecem quando vão à falência é um sistema ruim para a economia. E é um sistema ruim para as nossas liberdades como um todo. Então, quero convidá-los a abandonar o marxismo infantil. Não sejam conservadores. Um milagre anglicano, bem pequeninho: sejam liberais”, finalizou.


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