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Michel Houellebecq

Os intelectuais franceses no começo do século XXI

Em janeiro de 2015, quando a redação do jornal satírico Charlie Hebdo sofreu um atentado, o escritor Michel Houellebecq estampava a capa da publicação. Na ocasião, fazia o lançamento de Submissão, o mais incendiário romance deste que é considerado o escritor francês vivo mais lido no mundo. Os intelectuais do início do século XXI, o declínio da França e a falta de grandes pensadores franceses na atualidade foram os temas centrais de sua conferência. Em 2007, Houellebecq proferiu a conferência de encerramento da primeira temporada do Fronteiras do Pensamento.

O escritor iniciou dedicando a sua fala à memória de Maurice Dantec, falecido no final de junho de 2016. Os franceses Dantec e Philippe Muray – falecido em 2006 –, amigos e interlocutores de Houellebecq e pouco conhecidos ou editados no Brasil, foram citados durante toda a conferência. Segundo ele, o pensamento originado a partir das obras do trio reforça a ausência de intelectuais na França, especialmente levando-se em conta que Houellebecq, Dantec e Muray são considerados escritores e não pensadores. “A França, no plano intelectual, se acreditarmos na imprensa anglo-saxã, praticamente não é mais nada hoje. Para dizer a verdade, o declínio da França é um assunto recorrente – como a gente diz no jargão da imprensa, um 'marronnier' (de imprensa marrom) – ou seja, um assunto que é evocado de modo cíclico. E há muitas variações desse declínio: o romance francês está em decadência, a arte francesa não interessa a mais ninguém, o centro da vanguarda não está mais em Paris, a cozinha francesa não é mais o que já foi e os vinhos franceses são superestimados. Mas o mais comum, aquilo que volta de maneira mais obsessiva, é que os intelectuais franceses não produzem mais nada de bom. Eles não estão mais à altura dos seus antecessores."

Para exemplificar, leu algumas passagens de um artigo publicado no The Guardian, em junho de 2015, assinado por Sudhir Hazareesingh e intitulado “De la rive gauche à la derive: où sont passes les grands penseurs français?", que apresenta a França como um país esgotado e alienado. “Não se pode dizer que a herança de maio de 68 seja especialmente igualitária. O mais certo seria qualificar como libertária. E é curioso que o editorialista do The Guardian cite O mapa e o território e não Submissão, que já havia sido publicado na França seis meses antes, e na minha opinião era mais significativo daquilo que ele chama de 'sensibilidade mórbida'." Houellebecq concordou que os intelectuais franceses são nulos. Mas alfinetou e perguntou quem são os atuais pensadores anglo-saxões notáveis. “Eu coloco esta pergunta sem nenhum tipo de pensamento maldoso, mas simplesmente porque coloco esta questão para mim mesmo. Eu não conheço os grandes pensadores anglo-saxões. Eu sou um intelectual e interlocutor autorizado por alguém, que tem direito de falar sobre os intelectuais franceses. O fato é que, neste editorial do The Guardian, eu não sou exatamente considerado como intelectual. Sou citado de uma maneira adjacente. E isso acontece em muitos artigos na França e também no exterior. É muito curioso. Especialmente para alguém que se fez conhecer por seus romances. Isso não acontece com os outros romancistas."

Segundo ele, o artigo explicita uma espécie de paradoxo. Hazareesingh critica os pensadores franceses por estarem em declínio, mas os próprios intelectuais franceses sinalizam que este declínio está na França. “O que o editorialista do The Guardian critica nos intelectuais franceses não é o fato de serem medíocres, mas de serem pessimistas e, por outro lado, de não serem mais de esquerda. No espírito dele, temos a impressão de que ser brilhante, otimista e ser de esquerda é mais ou menos a mesma coisa. Mas não é perfeitamente evidente isso. Na imprensa, particularmente na imprensa francesa, se disseminou a ideia de que os intelectuais franceses agora passaram para a direita. Que a direita ganhou o que se chama de 'batalha das ideias' e que teria se tornado majoritariamente dominante. O que está realmente acontecendo?"

Para Houellebecq, a dominação intelectual de esquerda foi reduzida após maio de 1968 e teve um golpe fatal com a publicação de Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin, um livro que falava sobre as prisões stalinistas e que mudou o mundo. “A gente pergunta muito se os livros podem mudar o mundo. Os romances, não. Mas testemunhos como Arquipélago Gulag, sim, podem mudar o mundo. Com a queda do Partido Comunista, o respeito aos proletários diminuiu e, pouco a pouco, apareceu e cresceu o que chamamos de uma verdadeira revolta das elites contra o povo. A palavra populismo surgiu para designar as opiniões populares das quais é preciso se desconfiar."

Em 2005, o Tratado de Lisboa foi votado em referendo na França, visando reformar a União Europeia. A votação recebeu um massivo “não" dos franceses, mas o governo francês ignorou e encaminhou para o parlamento onde foi aprovado, configurando para Houellebecq uma negação da democracia. “O que estamos enfrentando é o ódio. Não há outra palavra para definir isso. E é essa mesma palavra 'ódio' que eu usaria para classificar a relação que tenho com o jornal Le Monde. Eu sou consciente de que a violência das relações que eu mantenho com a imprensa francesa é muito chocante, vista do estrangeiro. Parece uma coisa incompreensível. Eu sou um exemplo extremo, mas não sou o único. A violência, que chamamos de debate público na França, e que é uma caça às bruxas na verdade, é espantosa. Ela não para de aumentar, e o nível do insulto cresce a cada ano."

Houellebecq, com a crítica que lhe é característica, afirmou saber que muitos jornalistas franceses ficarão felizes quando ele morrer. E que, de sua parte, comemora a falência de alguns jornais e publicações na atualidade. Ele sinalizou que é verdade que alguns intelectuais franceses passaram para a direita, mas quatro são acusados o tempo todo pela imprensa. Alain Finkielkraut votou em François Mitterrand, e se recusa a apontar hoje um político ou partido de sua preferência. Michel Onfray se proclama de esquerda, mas afirma que a esquerda atual não corresponde à sua visão. Eric Zemmour não manifesta qualquer simpatia política, se recusa a apoiar qualquer partido e não diz em quem vota. “Quanto a mim, cada vez em que sou perguntado, declaro que sou a favor da democracia direta, dos referendos e de iniciativas populares, e que não voto em ninguém nas eleições. Não tenho nenhum candidato. Isso faz uma guinada à direita dos intelectuais franceses? É possível falar isso? Me parece que não. O que seria mais correto dizer é que os intelectuais franceses abandonaram a esquerda, mas não aderiram à direita. Isso quer dizer que eles encontraram alguma coisa de que eles haviam perdido completamente a lembrança que se chama liberdade." Para Houellebecq, a Segunda Guerra Mundial e o nazismo provocaram o descrédito de toda a elite intelectual de direita.

Abordando o pós-guerra, Houellebecq criticou os escritores Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Segundo ele, a filosofia dos dois pode ser amplamente questionada hoje. “Um filósofo, na acepção clássica do termo, e eu sou fiel a isso, é alguém que produz um discurso abrangente sobre o mundo, um discurso que integra o conjunto de conhecimentos que o ser humano pode adquirir sobre o mundo. E particularmente o conjunto dos conhecimentos científicos. O que me choca em Sartre e em Camus é a total e indesculpável ignorância em matéria científica." De Sartre, que possuía um “ódio de si mesmo" de acordo com Houellebecq, nada sobra da obra. De Camus, ainda se salvam as primeiras linhas do romance O estrangeiro.

Os pensadores que sucederam Sartre e Camus receberam do escritor francês um tratamento crítico similar. Para ele, Derrida, Foucault, Deleuze e Lacan eram diferentes entre si, mas se aproximavam de Sartre e Camus na ignorância sobre a matéria científica. “Eles tentaram dissimular isso usando fórmulas misteriosas e vazias e uma verborragia elegíaca e pseudopoética. Na minha opinião, os textos deles, apesar de terem um estilo muito variado, têm um ponto em comum: eu nunca fui capaz de descobrir nenhum tipo de sentido nestes textos. As páginas não têm nenhum sentido. E são autores que são, simplesmente, charlatões e mistificadores. Foi a conclusão à qual eu, infelizmente, cheguei."

Voltando ao grupo formado por ele, Dantec e Muray, Houellebecq afirmou que considera os dois amigos superiores a ele, inclusive nas qualidades de profeta. “Quando meus livros são publicados acontecem sempre eventos dramáticos. Quando o Submissão saiu na França foi no mesmo dia do atentado do Charlie Hebdo. E eu também dei uma entrevista para o New York Times sobre o meu livro Plataforma, num texto em que o jornalista exagerou um pouco o perigo islâmico e que foi publicado no jornal no dia 11 de setembro de 2001. Ou seja, é como se Deus, o destino ou uma outra divindade cruel se divertisse a criar coincidências trágicas utilizando os meus livros."

Muray, que também profetizou o trans-humanismo – mas na transmutação homem-máquina –, foi o primeiro a profetizar o jihadismo. “O reaparecimento de um Islã conquistador e violento, levado por um plano de conquista mundial, que iria fazer atentados e guerras civis em todos os lugares do planeta. Ele pode ter este tipo de intuição porque foi à Bósnia, um dos primeiros campos de treinamento do jihadismo internacional, e compreendeu o que estava acontecendo lá. E foi o único a fazer isso." Neste ponto, Houellebecq defendeu que o ser humano se torna capaz de heroísmo ou crueldade porque é levado por uma fé. E que, muitas vezes, a fé religiosa que justifica qualquer ato é responsável por essa “embriaguez de violência" que presenciamos. “Por que na Revolução Francesa o terror terminou? Por que as pessoas se cansaram, de um momento para o outro, dessa orgia de sangue? Não sei. Não tem nenhuma explicação válida. De um momento para o outro, bruscamente e sem razão aparente, as pessoas amoleceram e o desejo de sangue desapareceu."

Houellebecq ressaltou que o jihadismo terá um fim, porque os seres humanos vão se cansar da carnificina. “Mas a progressão do Islã só está começando, porque a demografia está do lado do Islã. A Europa deixou de fazer bebês e entrou num processo de suicídio. Não é um suicídio lento. Quando se chega a uma taxa de fecundidade de 1,3 ou 1,4, as coisas acontecem muito rápido. Nestas condições, os diversos debates ideológicos dos intelectuais franceses sobre a laicidade e o Islã são de um interesse nulo, porque eles não levam em conta o único fator importante que é o estado do casal e da família."

A França está saindo de um período estranho, ele afirmou, que durou duas décadas e no qual as ideias mais interessantes foram produzidas pelos escritores e não pelos intelectuais, que renunciaram a esta produção de conteúdo. “Mesmo que eu escreva outros romances, é pouco provável que na minha idade ainda tenha ideias novas a expressar nos meus próximos livros. Eu estou diante de vocês em uma situação estranha porque os meus únicos e verdadeiros interlocutores na França estão mortos. Na França existem, é claro, grandes, talentosos e estimáveis escritores. Mas isso não é a mesma coisa. O que eles fazem me interessa, mas não me apaixona verdadeiramente. Eu ainda me pergunto por que eu estou vivo."

Para ele, Muray e Dantec escreviam bem e não estavam preocupados com as conveniências ou consequências de seus livros, pois eram homens livres e que abriram uma nova perspectiva para os intelectuais franceses da contemporaneidade, se libertando das imposições da esquerda e da fascinação que se operava em seus predecessores. Houellebecq finalizou decretando que as ideias de “vacas sagradas" como Karl Marx, Sigmund Freud e, num futuro próximo, Friedrich Nietzsche estão mortas. “Quando eu digo que os intelectuais franceses se libertaram, não é verdade. A verdade é que nós os libertamos. Eu estou muito orgulhoso ao lado de Muray e Dantec de ter feito uma parte deste trabalho. Nenhum de nós foi verdadeiramente o que a gente poderia chamar de grande pensador. Somos muito artistas para isso, mas nós libertamos o pensamento. Agora é tarefa dos intelectuais de se colocarem a pensar. E se eles puderem produzir um pensamento novo, eles precisam fazer isso. A França é um velho país. Setenta, mesmo cem anos de avacalhamento e declínio intelectual para um país como a França não é algo insuperável. Esta vai ser a minha palavra final e não digo isso unicamente para terminar com uma nota otimista, mas é porque eu acredito no futuro do pensamento na França."


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