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John Gray

Podemos viver juntos com liberdade?

Destacado intérprete da contemporaneidade, o filósofo político britânico John Gray nunca restringiu sua atuação ao meio acadêmico, mesmo tendo alcançado grande prestígio na área universitária. Influente pensador da nova direita inglesa e autor de livros conhecidos como Cachorros de palha, antecipou eventos globais e guerras, apontando o papel do ceticismo na vida contemporânea. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, falou sobre utopias, catástrofes, previsões políticas e econômicas e de sua crença na impossibilidade de um regime ou sistema único organizar o mundo e o pensamento humano.

Admirador de Fernando Pessoa, Gray reconheceu não ser tão criativo ou pluralista quanto o escritor português. No entanto, assim como ele, resiste a qualquer ideia ou defesa de que o objetivo da sociedade deva ser produzir uma identidade única e uniforme, um tipo único de sociedade que prevaleça no mundo todo. A grande meta da humanidade deve ser estabelecer um fim aos conflitos. “Podemos, sim, viver juntos. O mundo no futuro, assim como o mundo atual, consistirá não apenas de uma civilização, ou um tipo de sociedade, ou uma visão de mundo. Mas de diversos regimes, de democracias liberais e não liberais, monarquias constitucionais, repúblicas, tiranias, impérios, áreas de anarquia. Tudo isso continuará a existir no futuro, assim como existiu no passado”, explicou.

Gray ressaltou que qualquer sonho sobre a consolidação de um sistema universal, seja ele comunista, anarquista, neoliberal com o livre mercado ou até mesmo positivista, é uma ilusão. “Nos séculos XIX e XX e nas primeiras décadas do século XXI, percebemos que nenhum desses sonhos se realizou ou demonstrou qualquer sinal de estar perto de se tornar realidade. Mas eles são constantemente renovados, e às vezes de formas violentas.”

De acordo com ele, ao longo do século XX, muitas foram as formas organizadas de violência que defendiam um sistema único, como o bolchevismo, o leninismo, o stalinismo, o trotskismo, o maoismo, o nazismo e o fascismo, além de projetos neoconservadores de mudanças de regime, como o que ocorreu no Iraque. “Já em 2002, quando ficou claro que algo como a Guerra do Iraque aconteceria, eu fui totalmente contra, afirmando que o resultado seria a destruição do Estado do Iraque, seguido de um governo fraco ou até mesmo anarquia, onde haveria uma enorme quantidade de conflitos sectários. Seria fácil destruir o Estado do Iraque, mas seria impossível reconstruí-lo. E isso foi de fato o que se concretizou”, afirmou. Gray relembrou um artigo satírico que escreveu, publicado um mês antes da invasão norte-americana no Iraque, inspirando-se em Jonathan Swift e seu texto “Uma modesta proposta”, no qual o irlandês sugeria que se combatesse a fome na Irlanda devorando suas próprias crianças. “Defendi que, se iríamos utilizar a mudança de regime, a guerra e a violência em nome da democracia e dos direitos humanos, por que não utilizar a tortura em nome da democracia, da liberdade e dos direitos humanos? E se fôssemos fazer isso, deveríamos ter uma forma moderna e liberal de tortura.” Era uma piada, mas muitos leitores acreditaram que o filósofo estava falando seriamente, ao escrever que o direito de tortura e o direito de ser torturado deveria ser a base do direito internacional, e que os regimes que não aceitassem isso deveriam ser mudados.

A relação disso com a Guerra do Iraque é que muitas pessoas que eram a favor da guerra, não só neoconservadores mas também liberais e alguns tipos de democratas, acreditavam que seria possível destruir o regime de Saddam Hussein e promover algum tipo de democracia no país, que se espalharia pelo Oriente Médio. “A maior parte dessas pessoas acredita que um tipo de regime é o melhor do mundo e que existe uma tendência dominante na história e nos eventos humanos que leva a um tipo único de regime.” Os resultados são quase sempre os mesmos. Citou o exemplo da Líbia, onde, após a derrubada de Muammar al-Gaddafi, se estabeleceu uma condição de anarquia total, com militantes islâmicos que cada vez têm mais poder, excesso de refugiados econômicos que têm ido para a Europa e resultados desastrosos que apareceram mais rapidamente do que no Iraque.

Muitos conceitos, e falácias como Gray definiu, da busca de um sistema único passaram pela história das ideias e do pensamento, como as teorias e filosofias de Karl Marx, Herbert Spencer, Auguste Comte e Francis Fukuyama. E também ressaltou a crise na China, onde se acredita que a classe média irá exigir algum tipo de democracia. “As classes médias do século XX têm sido muito voláteis em suas crenças políticas. Talvez na China eles queiram um governo melhor, menos corrupto. Talvez queiram ter mais voz ativa. Mas não sabemos qual será o resultado nessa crise.” De qualquer forma, o filósofo não acredita que isso levará ao colapso do regime, pois o regime na China tem o poder, a capacidade e a disposição de repressão que a União Soviética não tinha. “Eles têm mais medo da anarquia do que têm da tirania. E isso costuma acontecer com frequência”, explicou.

Gray instigou a plateia a pensar no motivo pelo qual esse sonho de um regime único é tão forte, mesmo já tendo sido falsificado muitas vezes no mundo. Em 1989, criticou um artigo de Fukuyama que apontava o colapso da União Soviética como o “fim da história”. Gray defendeu que a história não é demarcada por uma grande divisão ideológica. “O padrão normal da história é o conflito, por recursos, por religiões, por nacionalidade, entre grupos sociais concorrentes. Isso, sim, é normal.” Muitos consideraram sua visão pessimista e negativa, apontando para um cenário apocalíptico. Segundo ele, este é o mundo normal, que passa por períodos alternantes de guerra e de paz.

Um período conflitante e perigoso que ele acredita que a Europa está passando agora, afetando toda a zona da moeda do Euro, uma moeda transnacional indissolúvel e única, que se tornará rapidamente a meta de mercados especuladores. “Eles terão a Grécia como alvo, depois Portugal, Espanha, Itália, França. Acho que isso irá fragmentar após alguns anos, e o experimento chegará ao fim.” Gray completou que o “projeto do sistema do Euro está sendo salvo ao custo de perdas de vida e de níveis altíssimos de desemprego, maiores do que os ocorridos na Grande Depressão da década de 1930”.

Na Grécia, o desemprego chega a 25% entre os adultos e 50% entre os jovens, e, se o sistema for salvo mais uma vez, as perdas vão continuar, com mais austeridade. Então, uma das consequências desse cenário é um extremismo cada vez maior e mais perigoso. “Se o Euro for salvo nos próximos dias e a Grécia permanecer na comunidade europeia, a política vai se tornar cada vez mais envenenada e mais terrível.”

O objetivo de Gray, ao apresentar estes pensamentos, não é doutrinar. Mas permitir que eles gerem formas novas de avaliar os problemas do mundo atual. De acordo com ele, não é possível basear a esperança de uma vida boa na crença de que a humanidade está melhorando. Ele defendeu que os progressos obtidos pelas pessoas nas áreas da ética e da política perdem para os progressos nos campos do conhecimento e da tecnologia, pois o que se desenvolve nestas duas últimas áreas nunca é perdido e sempre passa por aprimoramentos. Por exemplo: é fato que os avanços possibilitaram mais saúde e melhores condições de vida nas grandes cidades. Mas, com a ética e a política, tudo o que foi conquistado pode ser perdido com muita facilidade. “No Iraque, a ditadura de Hussein fez coisas terríveis. Mas para as mulheres a vida era melhor do que está hoje. Havia uma representação extensa de mulheres na maior parte das profissões e até na política, pois a lei permitia. E isso foi perdido com a destruição do regime no Iraque.”

Gray afirmou que estoicos, céticos e antigos pensadores religiosos não eram simplórios, e eram mais honestos do que os filósofos modernos, pois confrontavam a pergunta “como ter uma boa vida?” sem crer que o mundo vá melhorar. O filósofo rejeitou a ideia de que a ética e a política tenham que depender de uma crença num futuro melhor. “Estou falando para aqueles que têm dúvidas, algum tipo de ceticismo ou suspeita em relação a esses mitos. Aqueles que suspeitam que talvez haja algo errado com esse mito. E a minha sugestão é que pensem a respeito disso, uma nova forma de avaliar.” Para aqueles que desejam fortalecer esse mito ou ficam nervosos e deprimidos quando esta perspectiva é abordada, John Gray brincou e indicou que não procurem seus livros, e se dediquem à leitura de autoajuda e de autores como Malcolm Gladwell e Richard Dawkins. “A minha proposta é uma forma alternativa de pensar a respeito de como viver bem, da ética e da política, que é a forma como quase todo mundo pensava até mais ou menos 200 anos atrás”, finalizou.


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