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John Gray

Podemos viver juntos com liberdade?

John Gray, escritor, jornalista e filósofo político britânico, falou ao público do Fronteiras do Pensamento São Paulo na terceira conferência da temporada 2015 do seminário internacional. Autor de livros como Al-Qaeda e o que significa ser moderno, Cachorros de palha e A busca da imortalidade e colaborador do New Statesman, The Guardian e The Times Literary Supplement, Gray trouxe suas perspectivas acerca do mundo moderno e o futuro do planeta, por vezes qualificadas como pessimistas.

“Meu objetivo não será convertê-los a qualquer tipo de visão ou dissuadi-los a um tipo de visão de mundo ou filosófica. Eu não sou missionário e não sou evangélico. Em vez disso, gostaria de questionar algumas coisas que não costumam ser questionadas. Perguntas que cruzam as fronteiras do pensamento e apontam dificuldades, fraquezas, possíveis fraturas ou fissuras na nossa visão de mundo moderna predominante", iniciou.

Para abordar o tema Como viver juntos, proposto para esta edição do Fronteiras do Pensamento, Gray recorreu a um olhar retrospectivo em direção aos últimos 20 anos e também mais para trás, e lançou a seguinte questão: “É possível viver bem em um mundo que não vai melhorar?".

A pergunta traz em si como pressuposto a ideia de que o futuro do mundo não haveria de ser diferente de seu pretérito. Isso se contrapõe à concepção de que o mundo será melhor no futuro, baseando-se na percepção dos avanços científicos e no campo do conhecimento. “Minha suposição é que tanto na ética quanto na política o futuro será muito parecido com o que observamos no passado".

John Gray vislumbra que no futuro poderemos e viveremos juntos, porque será preciso fazê-lo. Sociedades diferentes, com regimes diferentes, coexistirão, assim como ocorreu anteriormente. Nenhuma sociedade será aceita universalmente, não haverá um regime único, que será legitimado em todo o mundo. “Haverá democracias liberais e não liberais, haverá monarquias constitucionais e repúblicas, tiranias e teocracias, impérios e zonas de anarquia no mundo, assim como sempre houve."

O conhecimento continuará a crescer e novas tecnologias surgirão, em um ritmo cada vez mais acelerado, causando forte impacto em nossas vidas. “Se eu tivesse alguma recomendação, eu diria que, em vez de reclamar e queixar-se da situação atual, seria melhor aceitá-la, explorar as suas vantagens e fazer o possível para lidar com seus perigos", aconselhou.

O conferencista voltou-se a 1989, quando a queda do comunismo teve início, pouco antes da queda do muro de Berlim. Em outubro daquele ano, escreveu um artigo intitulado O fim da história, de novo? (no original, The end of history, again?), que aponta para a fala de uma personagem de Samuel Beckett que dizia “então, este é o fim, de novo?". Sua intenção era contrapor-se ao artigo de Francis Fukuyama chamado O fim da história. Gray sublinhou em seu artigo que a história não estaria acabando, mas simplesmente começando novamente, como costuma fazer. Naquele momento, o mundo passava para um período de conflitos nacionais, sobre territórios e recursos, havendo diversos tipos de comoções, colapsos políticos, crises nas bolsas de valores, quedas de moedas, surgimento de novas religiões (algumas se tornando mais fortes e outras mais fracas), diversos regimes entrando em choque, e ocorreriam também algumas melhoras, como sempre ocorreu.

“Quando argumentei isso, me consideraram altamente pessimista. Muitos acharam até que eu era apocalíptico. Engraçado que o sentido de apocalíptico a que se referiam era quase como uma revelação religiosa, na qual o modo pelo qual a história havia sido conhecida no passado acabava. E o que eu estava dizendo era o contrário, que a história estava voltando a acontecer na forma mais normal possível", recordou.

Em diversos períodos históricos, houve pessoas que procuraram maneiras de viver bem sem acreditar que o mundo iria melhorar. Este “não melhorar" não significa que não houve melhorias perenes, pois grandes avanços se mantêm em áreas como saúde, transporte e comunicação.

O ressurgimento de formas antigas, como o autoritarismo soviético, emerge com nova aparência. São versões modernas de formas antigas. No caso do fundamentalismo muçulmano, muitos jornalistas e pensadores os descrevem como medievais. “Eu não acredito nisso, eles são modernos tal como a Al-Qaeda era moderna. Os seus métodos não são nada arcaicos. No Estado Islâmico, por exemplo, o método deles se utiliza das novas tecnologias, a nova mídia social, a transmissão eletrônica de imagens de suas atrocidades que eles praticaram em uma campanha sistemática de difusão na mídia moderna", colocou, “e um dos teóricos do Estado Islâmico chama isso de 'gestão do terror'".

Em nossa época, é recorrente o mito de que a tirania nunca tem popularidade. Todavia, pesquisas indicam que a liderança autoritária na Rússia deteve mais popularidade do que qualquer líder ocidental.

O fenômeno contemporâneo que vislumbra formas universais que tornariam o mundo melhor não é exclusiva de nosso tempo. Pensadores como Auguste Comte, Herbert Spencer e Carl Marx teorizavam, cada um a seu modo, que haveria um modelo, um sistema geral que daria base a um mundo melhor. “Interessante notar que nenhuma dessas teorias se materializou", salientou, “todas elas postulavam acerca de um processo de evolução que levava a uma meta final, a um ponto final, que não existe." Estes pensadores traziam uma visão evolucionista, mas nenhum deles era realmente darwinista, uma vez que a evolução proposta por Charles Darwin não tinha uma meta. Como Darwin colocou em sua autobiografia, a seleção natural se movimentava como o vento, para cá, para lá, sem uma direção específica.

O que ocorre são eventos humanos criados por decisões humanas (com muitas de suas consequências não intencionais) e não um processo evolutivo análogo ao que ocorre na natureza. “Muitas ideias humanas têm resultados diferentes e até opostos de suas intenções."

John Gray enfatizou que “o aumento do conhecimento não leva a uma civilização universal ou a uma convergência de valores universais". Por outro lado, há um conhecimento que leva a uma boa vida quando posto em prática, incorporado pelos seres humanos e no modo como vivem. “Nossa tarefa, portanto, é preservar esse conhecimento, torná-lo flexível, inovador e utilizá-lo de formas que lidem com o mundo, que em termos de tecnologia e ciência pode ser novo, mas, em termos de conflitos continua a ser exatamente como sempre foi."

Apesar das falhas e questões insolúveis do modelo ocidental da sociedade liberal, Gray defende-o em relação a outros sistemas e regimes (como o comunismo de Mao Tsé-Tung ou o totalitarismo estalinista), sem vislumbrar que este possa ser um modelo universal. O conferencista critica as tentativas de exportação deste modelo por meio da força militar, não apenas pelo custo disso em termos de vidas humanas, mas também porque nos últimos anos isso quase não obteve sucesso (em países como Iraque, Síria e Líbia), levando geralmente a formas de anarquia nas quais há menos liberdade do que havia anteriormente. “Comunidades gnósticas sobreviveram durante centenas de anos a regimes tirânicos e autoritários sem ter sua existência ameaçada, como ocorre agora pela ação do fundamentalismo de grupos como o Estado Islâmico", exemplificou.

Retornando a pergunta, “podemos viver juntos em liberdade?", afirma que a liberdade não é uma condição humana natural. Citando Aleksandr Herzen, escritor, filósofo e jornalista russo, aponta que podemos procurar viver melhor a vida, buscar a liberdade, em um mundo que não irá melhorar.

Em resposta aos questionamentos da plateia, Gray alertou que o projeto europeu de viver juntos está ameaçado, pois a União Europeia já está se fragmentando. “Ela pode durar mais 20 meses ou 20 anos, mas o início da fragmentação já começou." O projeto de união das diversidades europeias sob uma instituição e uma moeda únicas parece ter se excedido. “Se fosse um número menor de países, poderia durar bastante tempo." A desmedida ocorreu quando o projeto se tornou demasiadamente unificador e ambicioso, chegando a acordar formas de nacionalismo muito perigosas como o partido nazista grego que já soma 20% dos votos, a frente nacional francesa e os partidos antiliberais e antissemitas na Hungria.

A questão da desmedida (hubristic) já foi apontada em outras ocasiões, como o caso Margareth Thatcher na Grã-Bretanha, que parecia operar um marxismo invertido, no qual todos se converteriam a um tipo de economia de mercado, a um governo liberal democrático. Gray citou Richard Dawkins como exemplo de um evangélico moderno, dogmático, desmedido, em contraposição a pensadores como Michel de Montaigne ou Sêneca.

O conferencista ainda discorreu sobre as perspectivas apocalípticas do mundo. Elas sempre existiram, mas o fim de tudo não chega, a vida sempre continua. Portanto, é melhor aproveitar ao máximo a vida no momento em que se vive. Há inimigos e obstáculos para se viver juntos, como o Estado Islâmico, muitos deles intensificados pela política ocidental, que não procura entendê-los, não busca as raízes que os levaram a se tornar nossos inimigos, e na maior parte das vezes imagina que há um liberal dentro do inimigo que ainda não teve a chance de se libertar, tal como se o padrão dos seres humanos fosse ser liberal.

Relembrando que a civilização é natural para os seres humanos, mas também é a barbárie, citou John Maynard Keynes, que acompanhou o acordo de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial, e viu que, em vez de propor melhorias, as medidas estavam pautadas em vingança. Keynes previu a eclosão da Segunda Grande Guerra ao constatar a situação à qual foram submetidos os países derrotados e percebeu que a civilização é algo frágil, que pode ser facilmente rompido com políticas erradas. Se as pessoas são racionais, não o são apenas para a melhora, mas também para a barbárie, punindo uns aos outros, enriquecendo sobre a pobreza ou implementando esquemas loucos.

Outra referência citada foi Joseph Conrad, cujo trabalho, dizia, era fazer com que o leitor enxergasse. “Ele acreditava em uma versão do que eu tentei expressar hoje, em viver bem, o melhor possível, seguindo algumas práticas civilizadas, pois ele viu as faces da barbárie, ele viu qual era a alternativa." Não se pode ater a fórmulas do passado, achar que devemos continuar tentando as mesmas coisas de forma diferente, mais radical, ou ainda criar um novo e melhor mundo. Para resistir à barbárie é preciso ser flexível, criativo e inovador.

“Eu não escrevo para promover um projeto novo ou movimento novo, eu escrevo para leitores individuais, para pessoas que têm dúvidas, perguntas ou até mesmo uma curiosidade sobre o que pode estar errado na visão contemporânea de mundo", encerrou John Gray.


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