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Peter Sloterdijk

Sistemas imunológicos em colisão: Considerações sobre a civilização de povos e culturas na teoria da evolução

O alemão Peter Sloterdijk é um dos mais conhecidos e lidos filósofos na contemporaneidade. Considerado um dos renovadores da filosofia atual, é autor de Crítica da razão cínica, lançado em 1983 e que se tornou o maior best-seller alemão de filosofia desde a Segunda Guerra Mundial. Seu título mais recente é O que aconteceu no século XX, sem publicação no Brasil e que traz ensaios sobre globalização. Sistemas imunológicos, domesticação, selvageria e a cultura dentro do contexto da teoria da evolução foram os principais temas de sua conferência no Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre.

O filósofo iniciou sua fala contextualizando que, nos dias atuais, é possível defender a tese de que a história inteira da humanidade seria uma história de lutas por vantagens imunológicas. Neste sentido, a vida individualizada (ou biós, do grego) pode ser caracterizada como uma fase de sucesso de sistemas imunológicos. Ou seja: seguindo a definição da biologia sistêmica, não pode existir uma forma de vida que não se preocupe com a conservação de suas estruturas imunitárias. “Se citarmos a afirmação metabiológica segundo a qual sistemas imunológicos seriam incorporações de expectativas de lesões ou expectativas de algum dano, fica claro que as culturas humanas, na medida em que essas representam a totalidade de procedimentos preventivos – ou, podemos dizer, as tradições –, são elaboradas com maior sensibilidade contra imunidade do que as espécies animais e vegetais. E nem todo mundo sabe que o conceito da imunidade originalmente não foi um conceito biológico, mas sim jurista, que foi utilizado como metáfora na biologia”, explicou.

A “pedagogia negra”, termo difundido pela psicoterapeuta Alice Miller e muito conhecido na Alemanha, enfoca as particularidades das imunidades humanas que ocorrem no processo da educação, especialmente na transmissão do conhecimento e do saber comum. “Toda a educação deverá acontecer de forma bipolar, entre tarefas grosseiras e mais detalhadas. Sua fase mais robusta pode ser descrita com termos como adestramento ou domesticação, enquanto a sua estrutura mais sutil é melhor caracterizada por termos como educação formal e formação”, definiu.

Segundo Sloterdijk, o relacionamento entre as pessoas e a formação da cultura podem ser caracterizados por verbos como “domar”, “desbarbarizar” ou “domesticar”. Este conceito faz parte da compreensão antropológica e surgiu duas vezes durante a evolução de ideias do Ocidente. A primeira delas foi com Platão, o fundador da Academia de Atenas. “As pessoas precisam ser educadas em processos educacionais adequados e como cidadãos precisam ser submetidas a uma liderança razoável. Ou seja, educação e liderança política são os dois campos práticos nos quais a incapacidade do ser humano altamente cultural em se realizar sem a instrução dos outros se manifesta de forma mais impressionante.”

Platão fez uso de imagens e analogias da esfera pastoral para falar sobre a formação do indivíduo. Para o filósofo alemão, esta associação sólida entre o professor e o pastor, alunos e rebanho, só se dissolveu com as pedagogias reformadas do século XX. “Na época, isso aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, em instituições como Summer Hill, onde o aluno passou a ser pensado como um rebanho que se autoeduca.”

“A segunda descoberta da necessidade de formar o ser humano como ser humano propriamente dito – ou seja, imunizá-lo com a domesticação contra a sua própria associabilidade – ocorreu no século XIX, quando Charles Darwin colocou o ser humano no final da série de evolução, em sua teoria sobre as espécies”, declarou. De acordo com Sloterdijk, desde então a questão pedagógica de como educar o ser humano é sobreposta por um drama biológico evolucionário. Ou seja, a tensão entre irracionalidade e racionalidade é substituída pelo antagonismo entre selvageria e civilização. Ou, como ele classifica em termos mitológicos e nietzschianos, substituídos por formas dionísias e apolíneas.

“O discurso da domesticação adquire um tom mais sério. A formação imunizadora do ser humano agora já não pode mais ser pensada de forma metafórica, como a entrada na casa da razão, mas precisa ser compreendida literalmente como uma mudança da selvageria animal para a domesticidade civilizada”, definiu. Sloterdijk destacou que o filósofo Friedrich Nietzsche foi o primeiro a compreender que a educação, no sentido de domesticação, seria um processo para a formação de indivíduos para o Estado ou súditos.

As observações de Nietzsche continuam compreensíveis. No entanto, a questão atual está mais centrada em como será possível impedir o retorno da selvageria no plano da civilização. O filósofo relembrou a afirmação do antropólogo norte-americano Marvin Harris que diz que a captura e a criação de seres humanos são mais caras e difíceis do que de qualquer outra espécie.

No século XX, emergiu uma nova definição para a condição humana e que partia, principalmente, do entendimento de que as categorias da evolução não seriam suficientes para descrever domesticações necessárias. Tanto de animais domésticos quanto do rei dos animais domésticos, o ser humano. Os indivíduos se aproveitam de um clima semicultural criado e adaptado. Assim, não sobrevivem os mais adaptados à natureza externa, mas os que possuem a melhor capacidade de aprendizado e sociabilidade e as vantagens bioestéticas.

Os mamíferos que cuidam da prole impõem um alto padrão de segurança e cuidados com os filhotes. Nestes seres vivos, os filósofos observam um complexo de características descrito, desde o final do século XIX, como neotenia. Ou seja, a fixação de propriedades de juventude. “A prematuridade humana é um termo técnico cunhado por Adolf Portmann, filósofo e biólogo em meados do século XX, para colocar a neotenia no centro da nova antropologia.” Assim, a fase juvenil no ciclo de vida humana se prolonga excessivamente e um jovem precisa de 20 anos de educação para poder se integrar na vida social.

Para Sloterdijk, o ser humano deve ser compreendido como um sujeito cultural desde as suas etapas elementares. “A cultura como um todo funciona como uma grande incubadora. O termo em inglês seria incubator. Que se coloca sobre os seus membros. Nesses termos, todas as culturas são sistemas solidários como contêineres, e todos os contêineres culturais são comunidades protetoras às quais atribuímos características de sistemas imunológicos.” E, devido à sua extrema neotenia, é preciso compensar as perdas que o homo sapiens sofreu. Os psicólogos modernos já alertam para os perigos do enfraquecimento da figura da autoridade nas sociedades pós-modernas.

Neste sentido, para Sloterdijk, a autodomesticação é um conceito que resume boa parte do passado da espécie humana. O fato de que o homo sapiens existe apesar de sua impossibilidade biológica (e isso cada vez mais graças aos invólucros de sua competência técnica) só pode ser interpretado por meio de uma antropologia da domesticação. “Existe uma preocupação de que os métodos atuais da domesticação, comunhão e aculturação do ser humano foram insuficientes. Se temos presentes as tarefas de uma pedagogia de espécie mais alta, entendemos imediatamente que a tarefa da civilização só foi realizada pela metade.”

As culturas possivelmente respeitam as ordens domésticas em sistemas solidários. No entanto, a domesticidade permanece incompleta, uma vez que as respectivas culturas não se colocam sobre um teto conjunto, mas permanecem como ambientes estranhos entre si. “O rastro histórico da não domesticidade que permanece nas relações humanas externas é a guerra, que determina praticamente toda a existência em termos históricos da espécie nos últimos 12 mil a 14 mil anos. A possibilidade da guerra se reflete na história das xenofobias”, ressaltou. Ele também sinalizou que sabedorias como o budismo, o estoicismo e o cristianismo, que de forma frequente e equivocada são compreendidos como religiões, são – em sua essência – movimentos de desdomesticação.

Sloterdijk também falou sobre a cooperação de estresse em grupos culturais, com a criação de uma técnica bélica que denomina a domesticação moral da grande reação de estresse. Para ele, o fato de que homens cooperam em situação de estresse extremo significa objetivos conjuntos na batalha e na iminência da morte. Ele complementou que, se entendermos as culturas como sistemas de domesticação não domesticados ou sistemas solidários não solidários entre si – e como sistemas imunológicos que se desmentem mutuamente –, o interesse em domesticação e imunizações em ordens maiores só poderá ser satisfeito como uma revisão do projeto atual das comunidades com culturas de sobrevivência polêmicas.

Outro sentido no conceito de domesticação seria o evento de reprodução biológico, que necessita de regulamentação. “Isso ocorreria com a redução das taxas de natalidade em todas as culturas para proporções compatíveis com as condições de vida socioeconomicamente controláveis. Isso proibiria qualquer tipo de fertilidade da miséria, assim como vemos em partes da África, e a reprodução de luta com intenção polêmica, o que podemos observar há mais de um século em muitos países islâmicos”, afirmou. A consequência inevitável deste aumento da população é uma enorme descarga de violência.

Existe o crescimento crítico das taxas de natalidade ligadas a eventos bélicos ou genocídio, e os jovens se tornam um grupo de risco que pode sobrar no processo de domesticação de sua própria cultura. Um exemplo é a situação do Estado Islâmico. “Nos próximos anos, haverá algumas centenas de milhares de jovens homens disponíveis para todos os tipos de atividades polêmicas. E há de se temer que a maioria desses tenham sido recrutados para programas de autodestruição de cunho religioso.”

Sloterdijk finalizou retornando à pergunta: a humanidade sabe se domesticar? Uma resposta que, para ele, precisa ser dividida em duas partes. “A primeira seria: se essa autodomesticação deverá ser esperada para o futuro próximo. A resposta é claramente não. Com muita probabilidade, a primeira metade do século XXI deve lembrar os excessos do século XX. Estamos hoje numa situação que lembra o ano de 1914. As perdas de vida podem crescer infinitamente, e os danos para a cultura serão incalculáveis. Podemos ver as destruições no Oriente Médio, na Europa. Isso mostra em que direção o desenvolvimento está indo.”

A segunda parte da resposta se concentra na perspectiva a longo prazo, que, segundo ele, deve ter uma avaliação positiva. “Se for possível controlar ambos os explosivos biológicos das culturas humanas, ou seja, os programas de estresse polemofílicos e os programas de reprodução excessivos nas culturas individuais a longo prazo, o prognóstico para o processo da autodomesticação global certamente será positivo. Sob a pressão das coerções da coexistência global, a solidariedade entre as culturas poderia algum dia equilibrar a competição acirrada entre elas.”


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