Voltar para Resumos

Peter Sloterdijk

Sobre a Fúria de Titãs do século XXI

Peter Sloterdijk, filósofo alemão, considerado um dos renovadores da filosofia atual, levou o público do Fronteiras do Pensamento a uma viagem a bordo de nossa nave mãe, a Terra. Em 1969, Richard Buckminster Fuller (1895-1983) publicou o Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra e “fez uma suposição audaz, até mesmo utópica, de que nos sistemas sociais o tempo estaria maduro para a transferência das competências de controle dos políticos e banqueiros aos projetistas, engenheiros e artistas”. Os últimos teriam uma visão holística da realidade, enquanto os primeiros apenas de parte dela. Para o autor, neste momento não poderia mais o nosso planeta ser visto como uma grandeza natural, mas como um enorme artifício, uma obra de arte. “A Terra já não era mais fundamento, mas construção; não era mais base, mas veículo”, colocou Sloterdijk.

A nave espacial Terra parece ameaçada internamente, “sua população precisa estar mais interessada na manutenção das relações, das situações de vida dentro do veículo”. A nave precisa de um life support system, sendo a gestão da atmosfera o primeiro critério da arte de controle. Os passageiros da nave não receberam um manual de instruções, talvez porque devessem descobrir por conta própria como controlar a situação. “No passado concedera-se aos seres humanos em navegação um alto nível de ignorância, uma vez que o sistema comportava altos graus de ignorância humana. Mas à medida que os passageiros começavam a descobrir o segredo da situação e com a ajuda da técnica assumir o poder sobre o seu ambiente, a inicial tolerância da ignorância pelo sistema cai até alcançar o ponto no qual determinadas formas de comportamento ignorante não são mais compatíveis com a presença de passageiros a bordo. O estar no mundo do ser humano do qual falava a filosofia do século XX mostrou-se como um estar a bordo de um veículo cósmico sujeito a avarias”, prosseguiu.

Nós seríamos autodidatas da vida a bordo da nave espacial, aqueles que precisam aprender as lições de vida sem o auxílio de um professor. A inteligência prognóstica que aproveita a lacuna entre tarde e tarde demais precisa ser energicamente articulada pelos passageiros. É esta a aprendizagem que antecede a ocorrência do erro.

Sloterdijk discorre sobre um expressionismo cinético, que teria nascido com o jovem Goethe e sua Tempestade e Ímpeto (Sturm und Drang) e traria consigo uma carga explosiva. Nietzsche diria que não é um homem, mas dinamite. Phileas Fogg, na travessia do Atlântico rumo à Inglaterra (em A volta ao mundo em 80 dias), começa a queimar seu próprio barco para ter combustível para a máquina a vapor continuar em funcionamento, uma metáfora para a era industrial que inventara Júlio Verne.

“O expressionismo contemporâneo baseia-se na suposição que para o ser humano no primórdio era tão óbvia que praticamente nunca teve que ser formulada explicitamente. Para estes a natureza representava algo exterior, superior e sobrecarregável, sem limites, infinito, que absorvia todas as descargas humanas ignorando todas as explorações. Essa ideia natural espontânea determinou a história da humanidade até ontem, e ainda hoje há uma série de contemporâneos que não podem ou não querem imaginar que nesse quesito haveria a necessidade de uma mudança de atitude. O traço desenfreadamente expressionista no estilo de vida das civilizações ricas de hoje deixou claro que a indiferença da natureza contra a atividade humana foi uma ilusão que correspondia à era da ignorância”, discorreu Sloterdijk.

A Terra se transformou, mediante a ação humana, em um único grande interior. Buckminster Fuller acreditava que os projetistas seriam os responsáveis por traçar os macroplanos planetários. Entretanto, parecem ter sido os meteorologistas os ocupantes dessa função. “Não é o design, mas a meteorologia que ganhou o poder. Se estabeleceu política e cientificamente, pois é, no momento, o modelo mais sugestivo do interior global”, argumentou, “pois trata do contínuo dinâmico da cobertura de vidro terrestre que nós conhecemos desde os dias dos físicos gregos: a atmosfera terrestre”.

A atmosfera tem uma memória, e não esqueceu ainda todo o dano a ela causado desde as primeiras emissões de gases industriais. É um invólucro sensível que reage aquecendo o planeta. Por isso, tendemos a uma descarbonização da humanidade e a sair da dependência de combustíveis fósseis.

“A atual batalha sobre o clima não tem o domínio da Terra como conteúdo tanto falado pelos comentadores políticos na era imperialista. Ao contrário, trata-se da possibilidade de manter o processo de civilização aberto e garantir a sua continuidade”, elucidou. A reforma meteorológica que estamos vivendo abre perspectivas para uma era de grandes conflitos e uma “feira das vaidades redentora”.

Tais mudanças de paradigmas podem ser encontradas num campo de luta inédito entre idealistas e materialistas. “Já hoje podemos reconhecer os contornos da futura luta de gigantes. Nesta, o partido idealista é representado pelos representantes de uma nova humildade; confrontam seus adversários materialistas com a exigência de que todas as formas de expressionismo cinético deverão ser reduzidas para um mínimo tolerável para a política terrestre”, considerou Sloterdijk.

A nova exigência da civilização aponta para uma inversão: a redução em vez do crescimento, minimização em vez de maximização, moderação onde antes era permitido exploração, parcimônia onde antes o desperdício era o grande impulso, autolimitação ao contrário da antiga celebração da autoliberação. O alerta meteorológico conclui: “só temos esta Terra à disposição”, logo, não se pode exigir mais dela do que está disposta a dar, sob pena de se autodestruir.

“Assim, a globalização tem efeito paradoxal contra sua própria tendência básica. Implementando em toda linha expansões, ela exige limitações em larga escala também. Generalizando o bem-estar, ela descobre que, enfim, globalmente somente o contrário seria praticável, ou seja, a frugalidade para todos”, concluiu, e frisou que haverá uma constante batalha entre o expansionismo e o minimalismo.

As transformações éticas deverão ser operacionalizadas tanto em macroações quanto nas atitudes individuais. Seria o imperativo de uma “ética da parcimônia global”, um imperativo que parece se chocar com as tendências da civilização expressionista e as forças motrizes das culturas, que combinam autossustentação e a vontade de superação.

“Aqui entra em ação o axioma que é a base de todos os argumentos sobre os limites do crescimento: a Terra só existe em um único exemplar. E mesmo assim as nações ricas hoje vivem como se pudessem explorar 1,5 vez a Terra. Se o seu estilo de vida for ampliado a todos os habitantes do planeta, a humanidade precisaria de não menos que quatro Terras à sua disposição. Como, todavia, a Terra é uma única mônade não multiplicável, temos que aceitar a prioridade de limite antes do impulso de atravessar”, argumentou Sloterdijk, que acrescentou adiante que, além da visão monádica da Terra, é preciso incluir a tecnosfera, que é animada e moderada por uma noosfera, dimensões acrescidas com a evolução. Para tanto, utilizou a frase de Espinosa “ninguém determinou o que o corpo consegue fazer” e transferiu-a para a Terra. Ainda não sabemos o que o “corpo terrestre” consegue fazer se for desenvolvido por uma tecnosfera e uma noosfera inteligentes, e poder-se-ia pensar em efeitos que corresponderiam a uma multiplicação da Terra.

“No final de Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra é apresentado coerentemente um apelo ao ethos da criatividade. Ele diz: 'Projetistas, arquitetos e engenheiros, tomem a iniciativa. Comecem a trabalhar, cooperem e não se iludam, não tentem ganhar às custas do outro. Cada sucesso dessa natureza terá curta duração. Essas são as leis sinergéticas segundo as quais a evolução age e que ela nos tenta explicar. Não são leis feitas pelo ser humano. São as leis infinitamente generosas da integridade intelectual que regem o universo'. Temos que cuidar para não reduzir essas afirmações à ingenuidade que certamente contêm. Se a grande autodidática chegar ao ponto de manter as emissões da ignorância dentro dos seus limites, isso só ocorrerá graças à integridade intelectual de todos que hoje assumem a responsabilidade pelo seu conhecimento e pelos seus prognósticos”, finalizou.

O conferencista ainda discorreu sobre Nietzsche, Shakespeare, Maquiavel, Comenius, entre outros, durante a rodada de perguntas. Destacamos ainda seu desenvolvimento do conceito de “responsabilidade”, que surge apenas na filosofia do século XX. O termo não aparece anteriormente, com uma ética que parecia não precisar da responsabilidade, sendo que hoje ocupa ela posição central. Para Sloterdijk ela se torna cada vez mais importante porque cada vez mais se percebe que os seres humanos estão sobrecarregados pela consequência de suas ações. A ética, antes mais fundamentada em obrigações e virtudes, tende à responsabilidade ao apontar para aquilo que não se consegue controlar, mas se visa restabelecer posteriormente o controle, é a invenção de uma nova forma de culpabilidade. “Acho, contudo, que nós deveríamos apelar mais à inteligência do que ao sentimento de culpa.” Por fim, salientou que seu trabalho segue a tradição do Iluminismo (Aufklärung), não visto apenas como um programa científico, mas como “a conscientização do fato de que o conhecimento em si tem a sua história, uma dinâmica, uma teleologia, ou seja, uma tentativa de definir a tendência do aprendizado humano”. O filósofo descreve o ser humano como um ser que vive em exercícios e a ciência também como um exercício, o que resultou num tipo atlético de cientista. “Um cientista que é realmente um cientista o faz como um atleta faz o seu esporte. A filosofia é a filosofia de um decathlon”, defendeu. Decorre destes exercícios o conceito de “antropotécnica”. A ciência entraria para a cultura como um sistema de exercícios, como um técnico que treina um grupo de jovens atletas. O conceito de exercício tornar-se-ia mais forte que as diferenças entre ciência, religião e arte, pois todas são disciplinas, são áreas nas quais a atitude de exercício se materializa. “As religiões também são sistemas de exercícios mentais, por isso nós temos também o direito de rir dos cristãos que vão para a igreja só uma vez por ano, só no Natal, quer dizer, eles não são muito 'malhados religiosamente' por assim dizer”, comentou. Ainda no contexto das antropotécnicas, sublinhou que o ser humano tem uma disposição natural de saber sentir uma tensão vertical que é a busca da cultura. Peter Sloterdijk (usando seu próprio conceito) brindou o público do Fronteiras do Pensamento São Paulo, com um pensamento científico atleticamente vigoroso e elegante.


Voltar para Resumos