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Ferreira Gullar

Viver é conviver

O público do Fronteiras do Pensamento São Paulo pôde ver e ouvir de perto uma das figuras mais interessantes da cultura brasileira, o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar.

“Convidado pelo Fronteiras do Pensamento para falar sobre o tema 'como viver juntos', aceitei-o como um desafio, uma vez que não sou historiador, nem filósofo, nem cientista político”, iniciou Gullar, “sou apenas um poeta, o que para muitos significa um sonhador, e para outros um sujeito que não bate bem. Vou fazer o possível para não ser uma coisa nem outra!”

Apesar do grande número de conflitos e guerras na história, o poeta acredita que o maior desejo de ser humano é viver em paz. “Chego mesmo a acreditar que muitas vezes a guerra surge como caminho para chegar à paz. Certamente, não é esse o melhor caminho, mas o caso é que nem sempre temos a possibilidade de escolher o caminho certo”, colocou.

As condições de sobrevivência muitas vezes determinam o tipo de convívio em diferentes comunidades. As guerras entre povos indígenas (pré-cabralistas) tinham por base as disputas por ocupar locais onde poderiam caçar e se alimentar.

A partir do período de colonização e do decorrente sedentarismo colocado aos povos indígenas, as guerras foram se extinguindo. “As condições de vida mais estáveis reduzem a possiblidade de conflitos e, consequentemente, possibilitam o convívio pacífico, embora, como se sabe, isso nem sempre aconteça.”

Os diversos agrupamentos humanos são regidos por normas, mesmo em povos em estado primitivo, e autoridades que as façam respeitar. O crescimento das comunidades e sua evolução engendram o aumento da complexidade de relações e, consequentemente, das normatizações.

A punição, como meio para o cumprimento das normas, é um dos fatores para o convívio pacífico. As normas estão presentes tanto nas organizações tribais, nas quais um zela por elas, quanto nas relações internacionais entre nações.

“Em alguns países, e o Brasil está entre eles, tende-se a aceitar a teoria segundo a qual a desigualdade social, e não o indivíduo, é o fator determinante da criminalidade e, de modo geral, da violação das normas sociais”, apontou Gullar, que encontra nesta visão um elemento gerador de impunidade, pois não recairia ao transgressor a punição, mas às condições sociais injustas predominantes na sociedade. São teorias que colocam a luta de classes como determinantes do processo social.

Isso significaria que bastaria a eliminação das desigualdades sociais para que os violadores das normas desaparecessem. “É uma questão complexa, pois, se é verdade que a desigualdade geral provoca revolta e o consequente desrespeito às leis, há ainda os fatores individuais da personalidade de cada um que desempenham muitas vezes papéis decisivos no comportamento de cada pessoa. Não é, portanto, verdade que apenas os pobres assaltam e roubam, os ricos também o fazem à sua maneira e em proporções incomparavelmente maiores. Logo, a desigualdade social não explica tudo.”

O poeta citou ainda o caso de uma mãe, moradora de uma favela carioca, que criou cinco filhos e apenas um se enveredou para o mundo do crime. Se as condições sociais fossem determinantes, por que não teriam todos ou a maioria dos filhos seguido aquele caminho? Apontou ainda que a favela da Rocinha tem aproximadamente 90 mil moradores, mas nem 5% destes estão envolvidos no crime.

Os primeiros impérios, como o babilônico e o egípcio, sobreviveram durante séculos em relativa tranquilidade. “Parece-me natural que isso tenha ocorrido pelo fato de que, como as pessoas preferem a paz e a segurança, não há por que colocá-las em risco sem nenhuma necessidade plausível. Assim, acredito que a formação dos Estados, com poder e objetivos definidos, são fatores de convívio humano menos agressivos e mais pacíficos e estáveis (pelo menos, mais pacíficos do que as comunidades nômades, que por necessidade de sobrevivência eram levadas às guerras)”, ponderou o conferencista.

O desenvolvimento dos Estados, todavia, em seu movimento de expansão territorial muitas vezes levou a conflitos, especialmente entre Estados vizinhos. Tal situação se assemelha à das tribos nômades, mas envolvendo outros problemas e outras consequências (como a destruição de um Estado por outro).

A concentração do poder econômico impulsionou a crescente desigualdade social, provocando o aumento da criminalidade (roubos, assaltos e homicídios). Estados bélicos se formaram e muitas vezes aliaram à questão econômica o fator religioso, como ocorreu no período das cruzadas. Atualmente, há grupos e Estados bélicos de caráter predominantemente religioso, como o Estado Islâmico.

Contudo, o cenário global aponta para uma relativa estabilidade. Se a questão econômica, por um lado, está no cerne das desigualdades sociais, é ela que igualmente favorece um entendimento entre os governos e a convivência pacífica entre os Estados, dados seus interesses comerciais no mercado global. “O capitalismo, à medida que se consolida e se expande, sobrepõe o interesse comercial aos problemas meramente políticos e ideológicos. Como resultado disso, o convívio humano consegue manter a relativa estabilidade conquistada”, defendeu Gullar.

O regime capitalista é o regime da exploração, uma vez que sua busca é a do lucro máximo, o que não significa que todo capitalista seja um explorador, mas que a exploração é o cerne desse regime econômico. Esse caráter acaba por sustentar, mesmo com todos os direitos trabalhistas conquistados e mesmo em países desenvolvidos, a desigualdade social, que gera conflitos no âmbito da sociedade e influi no comportamento dos mais inconformados com ela.

“Se a sociedade não pode ser perfeitamente justa, com todos os seus membros gozando dos mesmos privilégios e fortuna, pode ser, pelo menos, menos desigual e menos injusta do que é”, defendeu, e acrescentou que a sociedade jamais será igual e justa como sonhamos porque os homens, embora sejam iguais em direito, não o são em qualidades. “A justiça é uma invenção humana, nós a inventamos porque não suportamos a desigualdade, mesmo quando determinada por fatores que escapam ao controle humano.”

Ferreira Gullar relembrou o caso de países socialistas que tentaram nivelar a sociedade e acabaram nivelando-a por baixo. “Isso explica por que pessoas com qualidades raras fugiam desses países, pois lá ganhavam como um trabalhador qualquer. A solução não pode ser uma igualdade irreal, subestimando os mais dotados, e sim evitar que essa diferença das qualidades individuais faça com que os menos dotados usufruam dos direitos a que os mais dotados têm acesso. Assim, cabe à sociedade corrigir a natureza e a injustiça que os indivíduos criam”, afirmou.

O marxismo foi também abordado por Gullar, que exaltou as conquistas na área dos direitos trabalhistas e sublinhou que Marx teria se equivocado ao propor que apenas os trabalhadores produzem riqueza e os patrões apenas os exploram. Para o poeta, tal afirmação não pode ser verdadeira, uma vez que os patrões e a iniciativa privada são o motor fundamental do crescimento econômico e produtivo. “Se sem os trabalhadores não há produção, sem o empresário também não há”, arrematou. Sem a iniciativa privada, com micro, pequenas, médias e grandes empresas, a burocratização comunista falhou. Acrescentou ainda que a revolução russa de 1917 desmontou todo um sistema, mas não conseguiu colocar algo no lugar, e acabou por gerar um longo período de fome na União Soviética.

“Se não acredito em uma sociedade sem qualquer desigualdade, creio também que a desigualdade existente é inaceitável e pode e deve ser eliminada”, colocou o conferencista acerca do regime capitalista.

“Viver juntos é para as pessoas condição necessária e mesmo imprescindível. Por outro lado, cada pessoa é uma pessoa, com temperamento e ideias próprias. Imaginar que todos pensem do mesmo modo e tenham a mesma opinião sobre a realidade do mundo é uma suposição equivocada. A solução, portanto, para viver juntos é ser tolerante com as opiniões diversas das nossas. Isso vale tanto para as pessoas quanto para as seitas religiosas, para os grupos ideológicos e para as nações. O conflito é inevitável quando se pretende impor nossa visão a quem diverge de nós. Isso ocorre com frequência no campo religioso, tal como no campo ideológico. Quem se considera dono da verdade torna-se intolerante tanto no convívio pessoal quanto entre povos e países. (...) Não quero ter razão, quero ser feliz”, concluiu Ferreira Gullar.

Ao responder as perguntas da plateia, o conferencista disse não acreditar que a literatura possa ser um meio muito eficaz para erradicar os conflitos sociais. Ainda que buscar uma sociedade justa não possa ser considerado um erro, é preciso cuidar de como isso será feito. Uma qualidade artística ruim acaba por não atrair qualquer público. O poeta contou que aprendeu isso ao ver e participar de encenações teatrais que não atraíam espectadores ou quando os únicos interessados em assistir eram marxistas, e não há sentido em levar marxismo aos próprios marxistas. Citou a obra de Bertolt Brecht como um caso de sucesso, uma vez que ela apresenta notória qualidade artística junto ao conteúdo político.

Falando sobre sua obra, foi durante o período do Poema sujo o momento no qual o engajamento melhor se uniu à forma. O estado em que se encontrava – exilado e fugitivo das ditaduras latinas, vivendo em uma Argentina na iminência de um golpe político e percebendo que já não havia mais para onde ir (pois seu passaporte vencera e ele apenas poderia transitar entre países latino-americanos) – o impulsionou à criação deste trabalho, que “foi escrito como a última coisa da vida”, uma vez que não sabia se sobreviveria mais uma vez. O Poema sujo se colocou como testemunha daquele momento.

O poeta contou ainda sobre seu processo de criação e que sua poesia nasce do espanto, quando é surpreendido pela vida. O espanto é sempre algo inesperado, não apenas absurdo. Depois do espanto, vem o contato com a folha em branco, local de infinitas possibilidades. Ao começar a escrita na folha em branco, o acaso se reduz e vai se transformando no necessário, o poema passa a ditar os seus caminhos.

Gullar disse que há “momentos da vida que fico sem meio”, isto é, sem espanto que o impulsione à escrita. O autor não abriu mão de seu trabalho como poeta e, se não publicou poesias nos últimos anos, é porque não teve o propulsor necessário. “O que não vou fazer é escrever poesia ruim só para continuar escrevendo. Poesia não é quantidade, é qualidade. Baudelaire escreveu apenas um livro de poesias”, salientou.

Confessou ainda que a elaboração de uma autobiografia poética teve como motivação a “nostalgia do espanto”, um esforço para voltar ao estado em que estava quando escreveu aqueles poemas, e que ao fazê-la tentaria recuperar as coisas que o impulsionaram a escrever no passado.


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