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21 Ideias: Camille Paglia e as pressões enfrentadas pelas mulheres

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Vênus de Willendorf é uma representação paleolítica da Grande Mãe, cuja beleza estava relacionada à fertilidade.
Vênus de Willendorf é uma representação paleolítica da Grande Mãe, cuja beleza estava relacionada à fertilidade.

As análises de Camille Paglia são sustentadas, invariavelmente, por uma consistente perspectiva histórica, apoiada em noções de arquétipos, lendas e mitos.  

Essa, aliás, é uma das razões pelas quais a ensaísta se diz avessa à teoria feminista e ao pós-estruturalismo, que teriam “infestado” a história da arte. Em sua visão, ao reduzir a arte à ideologia, tais movimentos não percebem que a natureza opera em dimensões que se sobrepõem à esfera social ou a qualquer construção humana. 

É exatamente esse argumento que permeia sua conferência no Fronteiras do Pensamento, quando enfatiza sua visão cíclica da cultura: “À medida que observamos como as convenções mudam, podemos perceber como são fluidos os ideais humanos”.*

As grandes ideias propostas por Camille Paglia no palco do projeto podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atual.

camille paglia fronteiras do pensamento

O livro reúne o que há de melhor para compreender as mentes contemporâneas: textos de especialistas brasileiros explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos muito bem escolhidos como representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Confira abaixo um excerto da fala de Camille Paglia e não esqueça de passar pelo site da Arquipélago Editorial e garantir a sua cópia, também à venda nas principais livrarias!

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CAMILLE PAGLIA | As pressões enfrentadas pelas mulheres na mídia moderna têm sido recorrentes no curso da história. Tem havido um ciclo, uma alternância da imagem da mulher ideal — de opulentas para esqueléticas e para opulentas novamente.

O contorno do corpo feminino, projetado por toda e qualquer cultura, de alguma maneira simboliza normas ocultas, expectativas ocultas. Se uma mulher tem a sorte de nascer em um momento quando o tipo do seu próprio corpo conforma-se à projeção ideal, então ela pode se considerar extremamente feliz — é o coroamento da criação.

Por outro lado, se o corpo de uma mulher se opõe à norma vigente, a vida dela pode ser toda permeada de baixa autoestima, baixa autoconsciência e baixa autocrítica. O estudo da história da arte é muito revelador para qualquer pessoa interessada em papéis de gênero.

À medida que observamos como as convenções mudam, podemos perceber como são fluidos os ideais humanos. Isso nos proporciona uma perspectiva em relação aos nossos estereótipos atuais. Permitam-me tecer algumas observações gerais sobre a minha própria filosofia como feminista. Sou uma feminista de oportunidades iguais.

Em outras palavras, acredito que todas as barreiras ou obstáculos ao desenvolvimento das mulheres na sociedade devam ser removidos. Porém, penso que a vida humana opera em dimensões que ultrapassam em muito a mera esfera social.

O pós-estruturalismo, por exemplo, comete este equívoco ao conceber a identidade humana como submissa a forças sombrias que emanam de um poder — um poder generalizado, nem mesmo incorporado às pessoas, mas em instituições coercitivas. Quando as pessoas ficam totalmente cegas diante da natureza — que é muito maior que qualquer construção humana —, acredito que elas se tornam muito pequenas, muito triviais.

*Texto introdutório por Júlia Corrêa

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