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21 Ideias: Luc Ferry e os dois fardos sobre a vida humana

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Luc Ferry é um dos filósofos franceses mais lidos da atualidade. Autor de dezenas de publicações de divulgação da Filosofia, bem como sobre temas da atualidade e, sobretudo, sobre questões existenciais, seu livro Aprender a viver, em que defende que a filosofia pode desempenhar o papel de uma alternativa laica à religião, é um best-seller. 

Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, Ferry aborda uma das questões clássicas da filosofia, que ele considera ser o seu problema central: o de definir, de uma perspectiva laica, o que é uma boa vida para os seres humanos. 


susan greenfield fronteiras do pensamento

As grandes ideias propostas por Ferry, no palco do Fronteiras, podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atualO livro reúne textos de especialistas brasileiros explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Confira abaixo um excerto da fala de Luc Ferry e acesse o site da Arquipélago Editorial para garantir sua cópia, também à venda nas principais livrarias!


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Os gregos pensavam que há dois fardos que pesam sobre a vida humana, duas grandes palavras, duas grandes infelicidades que nos impedem de alcançar a sinceridade, que nos impedem de alcançar a vida boa. Essas duas palavras são: o passado e o futuro. 

Com efeito, o passado e o futuro nos impedem sempre de habitar o presente, de amar o presente. O passado porque ele nos puxa sempre para trás com sentimentos muito poderosos, com paixões poderosas — isso se chama nostalgia, sentimos falta dos bons e velhos tempos, mas temos também remorsos, arrependimentos, culpas, isso que Spinoza chamava de ‘paixões tristes’, aquela sensação que provamos quando acordamos de noite dizendo ‘Mas por que eu fiz isso, por que eu disse isso?’, e assim tentamos reescrever a história, puxados que somos pelo passado. 

Se vencemos essa luta e escapamos enfim do passado, quase sempre é para se precipitar na ilusão do futuro: imagina-se que as coisas vão melhorar quando tivermos trocado de carro, quando tivermos trocado de sapatos, de casa, de profissão, de marido, de esposa, daquilo que se quer trocar. É preciso notar que algumas vezes isso ajuda, mas a ideia é de que as coisas vão melhorar depois. 

Sêneca, o grande filósofo estoico, tem uma fórmula muito bonita a esse respeito: ele dizia que, à força de viver no passado, à força de viver no futuro, nós deixamos de viver, nós não chegamos a viver, nós não habitamos jamais o presente. Ora, o presente é a única dimensão real do tempo: o passado não é mais, é um nada; o futuro não é ainda, é um nada; apenas o presente existe, e nós não estamos jamais nele, estamos sempre no passado ou no futuro, na nostalgia ou na esperança, e não chegamos jamais a habitar o presente. 

Pensemos em Ulisses: durante 20 anos, dez anos de guerra e dez anos de viagem, ele está sempre ou bem na nostalgia de Ítaca, sentindo falta dos tempos passados, ou bem na esperança de Ítaca, esperando para lá um dia voltar — mas ele nunca está no amor de Ítaca. Eis a origem da magnífica definição de ‘sábio’ dada por Sêneca e retomada pelo meu amigo e grande filósofo André Comte-Sponville, que escreveu, aliás, vários livros sobre essa bela ideia: o sábio, eis a definição, é ‘Aquele que chega a lamentar um pouco menos, a esperar um pouco menos, e a amar um pouco mais’. Eis precisamente o que Nietzsche chamava de amor fati, amor do fato, amor daquilo que está presente, amor do presente. 


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