Voltar para Artigos

21 Ideias: Richard Dawkins e a emancipação do Gene Egoísta

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Richard Dawkins se tornou mundialmente conhecido com o lançamento do seu livro O gene egoísta, em 1976. Considerado, em 2007, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time, é também o criador da Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência, cujo objetivo é promover a educação científica.

Na sua conferência no Fronteiras do Pensamento, o evolucionista apresenta a ideia do “predador prudente”: o ser humano, em suas relações com os outros seres vivos, tende à predação prudente, por bom senso ou coagido por leis. Isso acontece — como explica Dawkins — quando, por exemplo, há regulação da atividade pesqueira. Espécies são protegidas da pesca em período reprodutivo ou em baixas populacionais: há uma tendência em pensar na preservação.

A natureza, no entanto, não apresenta a mesma prudência. Não vemos leões, lobos, ursos e outros predadores levando em consideração a possibilidade de extinção de espécies antes de caçá-las e consumi-las.

A conferência de Dawkins, além de interessante do ponto de vista biológico, também leva a pensar no papel do ser humano como uma espécie que consegue emancipar-se dos “genes egoístas”, sendo capaz de pensar e tomar suas decisões de maneira não apenas individual, mas também coletiva.*

richard dawkins fronteiras do pensamento

As grandes ideias propostas por Richard Dawkins, no palco do Fronteiras, podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atualO livro reúne o que há de melhor para compreender as mentes contemporâneas: textos de especialistas brasileiros explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos muito bem escolhidos como representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Confira abaixo um excerto da fala de Dawkins e não esqueça de passar pelo site da Arquipélago Editorial e garantir a sua cópia, também à venda nas principais livrarias!


* * *

A tentação de pensar como um planejador é corrente há muito tempo entre os biólogos e os ecologistas pop, e até os ecologistas acadêmicos às vezes se aproximam perigosamente dela. A noção tentadora de ‘predadores prudentes’, por exemplo, foi concebida não por um cabeça de vento abraçador de árvores, mas por um ilustre ecologista americano. 

A ideia dos predadores prudentes é a seguinte. Todo mundo sabe que, do ponto de vista da humanidade como um todo, seria melhor se todos nos abstivéssemos de pescar uma espécie de peixe importante, como o bacalhau, até a extinção. É por isso que os governos se reúnem para elaborar cotas e restrições. 

É por isso que a malhagem exata das redes de pesca é minuciosamente especificada por decreto do governo, e é por isso que lanchas armadas patrulham os mares em busca de barcos de arrasto ilegais. Nós, os seres humanos, em nossos dias bons e quando devidamente policiados, somos ‘predadores prudentes’. 

Portanto — ou assim parece a certos ecologistas —, não deveríamos esperar que os predadores selvagens, como lobos ou leões, possam ser predadores prudentes também? A resposta é não. Não, não, não. E vale a pena entender o motivo, porque é um aspecto interessante, um aspecto para o qual as árvores da floresta, e toda esta palestra, deveriam ter nos preparado. 

Um planejador — um designer de ecossistema tendo em mente o bem-estar de toda a comunidade dos animais selvagens — poderia, de fato, calcular uma política ideal de abate que os leões, por exemplo, deveriam adotar. Não peguem mais do que determinada cota de qualquer espécie de antílope. Poupem as fêmeas grávidas e não peguem os adultos jovens, cheios de potencial reprodutivo. Evitem comer membros de espécies raras, que poderão estar em perigo de extinção e que poderão vir a ser úteis no futuro, se as condições mudarem. 

Bastaria que todos os leões respeitassem as normas e cotas acordadas, cuidadosamente calculadas para serem ‘sustentáveis’. Não seria uma beleza? E tão sensato. Se fosse possível! Bem, seria sensato, e é o que um designer prescreveria, pelo menos se ele tivesse em mente o bem-estar do ecossistema como um todo. Mas não é o que a seleção natural prescreveria, principalmente porque a seleção natural, desprovida de previdência, não pode prescrever em absoluto. E não é o que acontece. 

Imaginem que, por um capricho de diplomacia leonina, a maioria dos leões de uma área desse um jeito de concordar em limitar sua caça a níveis sustentáveis. Mas agora suponham que, nessa população até ali contida e zelosa pelo bem-estar público, surgisse um gene mutante, fazendo com que um leão individual rompesse o acordo e explorasse a população de presas até o extremo, inclusive com o risco de extinguir a espécie da presa. 

A seleção natural penalizaria o gene rebelde e egoísta? Infelizmente, não. Os descendentes do leão rebelde, possuidores do gene rebelde, superariam seus rivais e se reproduziriam mais do que eles na população dos leões. Dentro de algumas gerações, o gene rebelde se espalharia pela população e nada restaria do acordo amigável original. Quem obtém a parte do leão transmite os genes.

*Texto introdutório por Flávio Romero Palma

>> Leia também:

21 Ideias: Edgar Morin e a política da humanidade
21 Ideias: Camille Paglia e as pressões enfrentadas pelas mulheres
-
 21 Ideias: Mario Vargas Llosa e a utopia da sociedade perfeita
- 21 Ideias: Amartya Sen e as liberdades efetivas