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A cretinice que nos assola, segundo Gustavo Franco

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Por Vinícius Müller* 

Afinal, qual será o motivo de nosso recorrente atraso? Nossa matriz econômica agro-exportadora? A endêmica corrupção? O neoliberalismo? Nada disso, embora cada um tenha sua parte de culpa neste atraso, explica nossa vocação ao subdesenvolvimento que, nas últimas décadas, ganhou ares de tragédia.  Segundo o novo livro de Gustavo Franco (Lições Amargas. Uma história provisória da atualidade. Ed. Intrínseca, 2021, 253 p.), a verdadeira essência de nosso persistente atraso é a cretinice 

A mesma cretinice que, amplificada pelas redes, ofendia a lucidez de Umberto Eco. E que foi tema de outro italiano, o historiador Carlo Cipolla, em sua obra As Leis Fundamentais da estupidez humana, de 1976, mote do divertido capítulo 2 (A Ciência) do livro de Franco. Em terras tupiniquins, a cretinice insiste em ocupar os espaços do debate público, da política institucionalizada e, como se vê nos últimos longos meses, do combate à pandemia.  

Mas, como identificar esta cretinice? Como achá-la em nossa história? E, ainda mais importante, como reconstruir a trajetória desta cretinice de modo a identificá-la no passado como, com certa facilidade, fazemos no presente?  

Lições Amargas

Este desafio é que faz do livro de Gustavo Franco uma armadilha. Isso porque o economista, com longa folha corrida de serviços prestados ao país, se propõe a fazer uma espécie de genealogia da cretinice brasileira a partir de duas abordagens perigosas. A primeira, estampada no título do livro, a de contar a história do presente, tarefa sempre muito difícil. A segunda, revelada pela amplitude temática dos capítulos, a de apresentar seu argumento de modo quase sempre diluído entre assuntos que, em uma leitura breve, parecem não guardar relação entre si.  

Mas, não nos enganemos. Gustavo Franco, em sua pressa de escrever sobre a atualidade e livre dos ditames acadêmicos, apresenta um quadro desolador de nosso atraso.  Destacadamente em três dimensões: a nossa relutância em assumir as melhores práticas internacionais, a insistência em nos apegarmos a falsos dilemas e a teimosia em perdermos as oportunidades por conta da demora de nossas ações ou reações.  

Alguns exemplos são avassaladores. O primeiro, que lembra o debate sobre a escravidão no século XIX, rememora a resistência às definições macroeconômicas voltadas ao combate da inflação em fins do século XX.  Equilíbrio fiscal não era, segundo Franco, uma opção ideológica ou movida pela ausência do interesse nacional – ou pelo ‘entreguismo’, diriam os mais afoitos – e sim, condição para a superação do verdadeiro mal que era a inflação. A insensatez implícita na associação entre o equilíbrio fiscal, a abertura da economia e interesses ‘imperialistas’,  feita largamente por parte significativa da intelligentsia local, lembra os sórdidos argumentos de que findar a escravidão era, na verdade, destruir a economia brasileira em nome dos interesses britânicos. Aliás, em seu fundamento está muito próximo do patriotismo tacanho que acha que desrespeitar acordos e práticas ambientais internacionais é reforçar a soberania nacional. E que vacinar a população com fármacos chineses é trair o interesse da nação.  

Este tipo de argumento irresponsável (lembrando quesegundo o britânico Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas,) não só nos aprisiona em debates bizantinos como revela o poder que a cretinice tem de ampliar seu escopo por meio do populismo mais desavergonhado que nos assola há bem mais do que eleição de 2018 pode revelar. Nas palavras do próprio autor “No Brasil, são imensas as áreas nas quais as ditas melhores práticas parecem estrangeiras e distantes. Muito nacionalismo de bravata, muita ideologia de autossuficiência, de eficácia muito duvidosa e com danos à nossa convivência com outros países”. (p. 44)  

Assim nos engalfinhamos em falsos dilemas, como aquele que diz que uma economia aberta e exportadora é responsável pelo aumento da desigualdade, ou que o teto de gastos diminui investimentos em áreas sociais. O primeiro caso, diz Franco, está entre os motivos pelos quais, mesmo com tantas multinacionais instaladas no país desde os controversos anos juscelinistas, pouco nos associamos às cadeias globais de produção nas últimas três décadas. Esse ‘ensimesmamento resultou em baixa produtividade, em limitação do aumento dos salários e incapacidade de estruturalmente reduzirmos a pobreza e a desigualdade.  A Coreia do Sul que nos diga.  

Por fim, a nossa histórica incapacidade de aproveitarmos as oportunidades que nos são dadas. Repetimos a mesma maldição no Pré Sal, envolvidos como fomos pelo antigo nacionalismo e pela ‘proteção’ contra os ‘interesses estrangeiros’. Ou como, na máxima que ‘estamos ficando velhos antes de ficarmos ricos’ perdemos o bônus demográfico, pois não preparamos adequadamente nossas crianças aos desafios da economia e da sociedade contemporâneas. Os dados do Pisa não nos deixam dúvidas de como atuamos para proteger quem menos precisa: “Há, portanto, um novo conflito distributivo em operação, e sua natureza é intergeracional: velhos explorando os jovens, seus próprios descendentes. Tributar as crianças talvez seja uma fórmula ainda mais cruel para sermos um país sem futuro”. (p. 151) Acreditamos tanto que somos o país do futuro que gastamos tudo o que podemos agora, sem nos preocupar com a conta que vai chegar. Uma adaptação irresponsável do keynesianismo somado à eterna cordialidade tupiniquim. 

Quem conhece a atuação pública de Gustavo Franco, seus artigos e suas obras de maior fôlego, como o imponente A Moeda e A lei, assim como seus estudos sobre finanças brasileiras no início da República e sobre a atuação de Hjalmar Schacht no combate à hiperinflação alemã no primeiro pós-guerra, sabe que o ex-presidente do Banco Central não é dado a sutilezas. Ainda bem. Alguém precisava dizer, em alto e bom som, que nosso atraso é derivado de nossas próprias escolhas. No passado e no presente.  

* Vinícius Müller - Insper