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A culpa não é do Kremlin

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(foto: Jan Berkeley/The Economist)
(foto: Jan Berkeley/The Economist)

O cientista político e curador do Fronteiras do Pensamento, Fernando Schuler, é o mais novo colunista do site da Folha. Ele passa a escrever a cada 14 dias, às quartas, em Poder

"Será uma coluna leve, direta e trazendo, eventualmente, alguma referência do mundo acadêmico de maneira didática", adiantou o cientista político. "Os textos manterão os debates no plano das ideias, tentando resistir a discussões fáceis que, muitas vezes, acontecem na vida política e que acabam criando mais desinformação e até uma polarização vazia". O objetivo da coluna, diz ele, é participar do debate com senso de moderação, ajudando o processo de modernização do país e a qualificação da democracia. Leia abaixo a primeira coluna de Schuler e confira os principais textos do cientista político aqui também, no fronteiras.com


A culpa não é do Kremlin | Fernando Schuler

Muita gente anda preocupada com a pós-verdade e epidemia de fake news (notícias falsas) na internet.

The Economist

A edição do último dia 4 da revista "The Economist" traz o tema na capa e sugere que a disseminação da pós-verdade envenena o debate público e pode ser uma ameaça à democracia.

O texto dá alguns exemplos bastante evidentes e menciona a revelação, feita por um executivo do Facebook, de que 146 milhões de usuários podem ter visto conteúdos mentirosos veiculados por agentes do Kremlin na rede, antes e depois das eleições presidenciais americanas.

O artigo sugere medidas curiosas como pedir às plataformas digitais para identificar se os conteúdos provêm de "amigos ou fontes confiáveis" e alertar para os "efeitos nocivos" de compartilhar informações erradas.

Quando leio essas coisas, não resisto. Logo imagino uma tarja preta a cada vez que o sujeito vai compartilhar alguma coisa, dizendo: "Bobagem faz mal à democracia". A revista diz que as medidas talvez exijam intervenção da "lei ou das autoridades reguladoras". 

No Brasil, poderíamos criar um órgão anexo ao Ministério da Justiça, repleto de "fiscais de redes sociais", checando a "confiabilidade" de tudo o que a turma posta. Ou quem sabe envolver o Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército, conforme li dias atrás.

De minha parte, vejo isso como uma grande bobagem. A fonte da pós-verdade não é o Kremlin ou um punhado de sites mal intencionados. Somos nós mesmos.

Dona Augustinha, por exemplo, baiana gente boa que vez por outra vejo postando nas redes, entre figuras de bichinhos, coisas do tipo "Dilma-sapatão-teu-lugar-é-na-prisão"; ou ainda a mídia profissional noticiando, meses atrás, que o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina havia sido preso junto com uma quadrilha que desviava recursos da instituição. O reitor acabou se suicidando, mas ninguém perdeu o sono com isso. Depois li que Caetano é pedófilo, que João Doria iria distribuir "ração" para os pobres, que os rapazes da Lava Jato foram "treinados lá fora para os americanos abocanharem o nosso pré-sal", e finalmente o clímax, quando a "prótese peniana" de Alexandre Frota virou trending topic no Twitter.

O veneno, a trivialidade e a mentira definitivamente não são culpa do Kremlin ou de um punhado de bichos papões digitais. Seria ótimo que fosse. Bastaria pegar os malvados e viveríamos felizes. 

Seria tranquilizador pensar que somos uma imensa rede de gente virtuosa ameaçada pelos "outros", mas desconfio que não seja essa a verdade.

O fato é que existe uma motivação perfeitamente racional que leva as pessoas a produzirem pós-verdade nas redes sociais: cada um diz o que pensa, ganha alguns likes, e distribui o custo da eventual besteira para todo mundo. 

É a mesmíssima lógica que transformou um naco do Caribe em uma ilha de lixo flutuante. A única diferença é que a poluição dos oceanos ainda tem cura. Basta punir os responsáveis e limpar a sujeira toda. 

A pós-verdade não tem jeito. Ela pertence à nossa natureza e diz respeito ao exercício mais elementar da liberdade humana. 

Como argumentam os professores Hugo Mercier e Dan Sperber em seu ótimo livro, "The Enigma of Reason", (o enigma da razão), somos animais feitos para usar a razão para competir e fazer guerra, não para nos "aproximar da verdade e nos tornar mais sábios".

Para não dizer que não há saída, os chineses parecem ter criado um mecanismo engenhoso de impor um custo às pessoas que espalham lixo na internet. É o "sistema de crédito social", um supermecanismo de big data que, entre outras coisas, recolherá informações sobre as pessoas nas redes e classificará todo mundo em um ranking. 

Se você tirar uma nota alta, tem acesso às melhores escolas e a outras vantagens. Se der certo, a China será o lugar do planeta com gente mais querida na internet. E por certo um pesadelo. Quem quiser uma prévia do modelo pode assistir a Nosedive, impagável episódio da série Black Mirror, na Netflix.

O ponto é que a China é um país totalitário. Talvez, por lá, a engenhoca orwelliana funcione. Na democracia não vai. As pessoas continuarão a exercer sua liberdade produzindo esta sensação de caos no plano coletivo. 

A instabilidade é o novo normal, e nós é que teremos de nos adaptar.

Uma saída é a dispersão das plataformas digitais. Um mundo com múltiplos Twitters e Facebooks. Intuo que o próprio mercado se encarregará disso, com o tempo. Em uma grande sociedade, não precisamos ficar nos encontrando e batendo cabeça o tempo inteiro. A turma que gosta do Olavo de Carvalho não precisa ficar batendo boca com o pessoal que curte a Judith Butler, e vice-versa. Basta algum respeito e certa distância.

Outro jeito é apostar na progressiva irrelevância do universo fake news. Irrelevância pelo excesso, pelo fastio. Intuo que, aos poucos, vamos curando a febre da hiperconexão. 

Dias atrás, li um post de uma brilhante economista brasileira se despedindo do Facebook. Disse simplesmente que havia cansado de ler bobagens e de perder tempo. Achei ótimo aquilo. Quem sabe uma tendência. As pessoas desconectando aos poucos da grande rede e voltando a procurar coisas mais interessantes para fazer, quem sabe até nesse universo meio esquecido que chamávamos de vida real. 

(Via Folha)