Voltar para Artigos

A importância das imagens para Camille Paglia, Peter Burke e Carlo Ginzburg

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Vênus de Willendorf, estatueta esculpida entre 28 000 e 25 000 a.c.
Vênus de Willendorf, estatueta esculpida entre 28 000 e 25 000 a.c.

Por Júlia Corrêa*

“À medida que observamos como as convenções mudam, podemos perceber como são fluidos os ideais humanos”, afirmou a crítica cultural americana Camille Paglia em sua conferência para o Fronteiras do Pensamento em 2015. Na época, Paglia lançava no Brasil a obra Imagens Cintilantes — Uma Viagem Através da Arte desde o Egito a Star Wars (editora Apicuri). E é exatamente a partir das imagens, como o título do livro indica, que a autora encontra o meio privilegiado para se observar aquelas transformações dos ideais humanos a que se referiu na conferência. São, assim, os arquétipos, lendas e mitos presentes nessas representações os motivos sobre os quais ela lança seu olhar afiado e sempre original.

Quanto às representações femininas, embora exista uma porção de estereótipos em relação à imagem da “mulher ideal”, tais projeções simbolizam, segundo Paglia, normas ocultas em cada período da civilização. Corpulenta, a estatueta Vênus de Willendorf, por exemplo, personificava o princípio da fertilidade em um momento de luta por sobrevivência. Nessa lógica, compreender a originalidade de uma obra exigiria um constante caminho de volta pela tradição das belas-artes.


Em sua defesa dessa busca de simbolismos nas imagens, o britânico Peter Burke evoca, no livro Testemunha Ocular (Editora Unesp), uma observação do historiador da arte Gordon Fyfe, segundo o qual, no que seria uma falha, “historiadores [...] preferem lidar com textos e fatos políticos ou econômicos e não com os níveis mais profundos de experiência que as imagens sondam”. Entre outros intelectuais, menciona também Jacob Burckhardt, grande teórico do Renascimento, para quem imagens e monumentos seriam “testemunhas de etapas passadas do desenvolvimento do espírito humano”. É com essa premissa de análise social sustentada pelas imagens, portanto, que Burke conduz os seus argumentos, em uma exposição bastante didática a respeito de métodos de iconografia e iconologia, das relações das imagens com aspectos sagrados e políticos e de gêneros pictóricos como o retrato e a paisagem.


Seguindo a ideia de Aby Warburg de que “Deus está nos detalhes”, o historiador e antropólogo italiano Carlo Ginzburg, conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2010, também se debruça sobre as representações visuais da humanidade. Ginzburg é um dos expoentes do que ficou conhecido como “micro-história”, em que os estudiosos transferem o olhar tradicionalmente lançado sobre os protagonistas dos eventos históricos para aqueles que seriam seus “figurantes”. Sua análise da evolução das imagens carrega, na mesma lógica, essa atenção aos pormenores. No livro Mitos, emblemas, sinais (Companhia das Letras), publicado na década de 1980, ele aborda esse “saber indiciário” a partir de nomes como o próprio Warburg, o também historiador da arte Ernst Gombrich, além de figuras tão distantes quanto Sigmund Freud e o personagem Sherlock Holmes.


A Live Fronteiras desta quarta-feira (26/05) será uma conversa com a socióloga Isabelle Anchieta sobre a produção desses três pensadores. Além de falar da influência de Paglia, Burke e Ginzburg na trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno (Edusp), lançada por ela em 2019, Isabelle abordará as aproximações entre as reflexões de cada um deles, assim como as suas especificidades. A live ocorre às 19h, no YouTube, no Instagram e no Facebook do Fronteiras do Pensamento. 

* Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)