Voltar para Artigos

A influência de Shakespeare é inevitável, diz McEwan sobre nova obra

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

"Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz." Tampouco é todo mundo que tem a ideia de dar voz a um feto de pouco mais de 30 semanas, quase a ponto de vir ao planeta, ainda cheio de dúvidas e que, apesar de estar recebendo informações fragmentadas sobre o que ocorre do lado de fora, já sente ter a inocência perdida antes mesmo de nascer.

Afinal, entre movimentos e ruídos típicos que o rodeiam na barriga da mãe, esse feto também a escuta enganar o pai, um pobre poeta apaixonado, e manter um tórrido romance com o irmão dele.

Pior, entre o sexo e os sussurros íntimos dos amantes, esse feto entende que o casal planeja nada menos do que matar seu progenitor. E mais, por trás do assassinato, estaria também a intenção de herdar a casa que pertence ao marido dela, uma mansão de estilo georgiano em St John's Wood.

Esse monólogo de um ser humano em formação cujo senso de justiça mal está estruturado, mas já é desafiado compõe o novo romance do britânico Ian McEwan, 68.

As referências a Hamlet, de Shakespeare, são claras. Desde os nomes dos personagens. A mãe do protagonista é Trudy (como a rainha Gertrudes), enquanto o irmão traidor do pai é Claude (como Claudius). Também estão aí as crises que vive o próprio herdeiro. Deve ou não nascer? De algum modo é culpado pelo que vai ocorrer?

Em entrevista à Folha, por telefone, McEwan diz ter achado que talvez devesse sair da Inglaterra após o lançamento. "Pensou que as pessoas se escandalizariam?". "Não tanto por isso. Mas é que estava me divertindo tanto ao escrever que pensei que algo deveria estar errado. Esse processo supostamente tem de ser difícil, uma luta interna e romântica, mas eu estava adorando. Então, pensei que só eu ia gostar, e que todo o mundo odiaria", diz, rindo.

Sobre o diálogo da obra com Shakespeare, McEwan diz que se transforma em algo inevitável se você escreve em inglês e a partir de uma certa idade. "Primeiro porque Shakespeare moldou este idioma, deu a ele expressões que hoje são clichês, mas, mais do que isso, foi o primeiro a apresentar um personagem num contexto mais sofisticado, a mostrar pessoas com matizes, e a usar o humor e a ironia. Quem conhece algo de sua obra reconhecerá no livro metáforas e ritmos próprios de Shakespeare."

E como fazer Hamlet aparecer como um feto? "Bom, aí vem a liberdade da ficção e a brincadeira. Uma vez que não posso criar um feto que seja, de forma realista, nada em particular além de um feto, o meu feto é Hamlet, alguém que duvida de si mesmo. Esta é a característica que faz dele um dos mais Inteligentes personagens jamais criados na ficção."

Enquanto o feto evoca Shakespeare, Claude, o bruto amante da mãe, traz a história para a Inglaterra de hoje. Trata-se de um homem rude, que repete jingles comerciais, é racista e fala mal dos imigrantes, mas é uma potência na cama.

"Acredite, você não quer encontrar uma pessoa assim, você precisa evitá-las. Porque senão você se apaixona por elas, e são chatas, idiotas e perigosas. O que faz com que apenas a infelicidade esteja à sua frente. Ao mesmo tempo que um enorme prazer, é claro, mas esse é o grande problema", comenta, rindo.

ESQUIVA

Aterrado, o feto relata sua luta para não deixar que o pênis de Claude se aproxime muito dele, de seu cérebro, que o inunde com suas ideias.

Com uma linguagem cheia de ironia e humor, McEwan descreve as manobras do feto para afastar-se, colando-se às paredes do útero da mãe: "temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles de meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade."

Já a mãe tampouco é de uma inteligência estonteante. Não lê livros, mas ouve podcasts de assuntos temáticos variados e notícias. E é assim, de modo fragmentado, que o feto vai entendendo em que mundo vai surgir.

"Ela tira boas e más informações dos podcasts. Nossa era produz e oferece tantos dados que você pode formar uma quantidade enorme de visões diferentes sobre o mundo. Mas esse nosso feto tem um senso de Justiça [risos]. E tem o mais importante, que todos os fetos têm, você pode confiar nele. Um feto não te engana, não tem maldade ou outras intenções. Ainda."

OUTRAS OBRAS

Vencedor do Booker Prize de 1998 pelo romance Amsterdã, nos últimos tempos McEwan tem preferido trabalhar com novelas curtas. Foi assim com A Balada de Adam Henry e agora com Enclausurado, seu 17º romance. "Gosto do formato, é como assistir a um filme longo ou uma ópera, consumo muitos livros assim."

Acostumado a fazer longas pesquisas para seus romances anteriores, como em Sábado, Solar ou Amor para Sempre, em que estudou doenças e ciência, para Enclausurado nada investigou. "É pura ficção, não saí da minha escrivaninha. Não precisava deixa-la para ir descobrir em algum livro que um feto não pensa e não fala (ri). Trata-se de uma brincadeira, é talvez minha obra mais ficcional e menos realista."