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A invenção do divórcio e o sagrado na contemporaneidade

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Muito se fala da pós-modernidade como a era da descrença e da efemeridade - uma era sem grandes sentidos em que a religião não mais completa o sentido da vida, em que a política se desligou de ideologias, em que casamentos não duram para sempre etc. Qual é o sentido contemporâneo? O que é "sagrado" atualmente? Segundo o filósofo francês Luc Ferry, não é tanto que perdemos os grandes sentidos. Para ele, o sagrado se voltou às futuras gerações.

Na TV, nos livros, nas revistas, na internet: as futuras gerações estão em todos os lugares. De obesidade infantil à maioridade penal - passando pela consciência no uso dos recursos naturais, o debate gira em torno daqueles que ficarão em nosso lugar. As novas gerações enquanto uma constante tão forte na comunicação e na vida das pessoas é um fenômeno muito atual. Segundo Ferry, tudo começa na história do casamento por amor, uma "invenção" muito recente, de não mais do que 40 anos.

E como passamos do casamento arranjado para o casamento por amor? Luc Ferry conta que esta realidade mudou a partir da explosão do capitalismo. As pessoas começaram a sair das pequenas comunidades rurais para as cidades, a ganhar seus salários e a descobrir a liberdade material, escapando do controle da família. Sem a obrigação do casamento arranjado, passaram a se unir pelos seus próprios sentimentos.

Porém, Ferry propõe que o casamento por amor também é a receita para o fim da própria união.Trazendo à luz as ideias do filósofo francês Michel de Montaigne, explica: "Se fundamos o casamento sobre a frágil paixão amorosa, inventaremos o divórcio, disse Montaigne. E ele estava certo, pois foi isso o que aconteceu."

De acordo com Ferry, se você embasa o casamento no amor, você funda toda sua família sobre algo variável. "Neste caso, é preciso transformar a paixão em algo novo e durável e este constitui o principal problema do casal moderno". O pensador aponta a recente estatística de que 60% dos casamentos europeus terminam em divórcio. Para ele, o casamento por amor é muito mais difícil de ser mantido do que o casamento arranjado. A grande questão atual, afirma o filósofo, é saber se queremos assumir o risco do amor. "Viver o amor é mais difícil do que viver a tradição", constata e sugere uma direção: "É difícil, mas vale a pena."

Sobre a variável do amor entre os parceiros, surge uma nova constância: o amor pelos filhos. Ferry afirma que o casamento amoroso inventou não apenas o divórcio, mas um amor pelos filhos até então inexistente: "Filhos na Idade Média não eram amados. Naquela época, a morte de uma criança era tão ruim, para a família, quanto a de um porco ou de um cavalo. Crianças representavam trabalho braçal".

A preocupação com os filhos acaba se estendendo às gerações futuras. Ao longo da história, diz o filósofo, três foram as grandes causas de sacrifícios coletivos, tidas como figuras do sagrado: deus, a pátria e a revolução. Atualmente, elucida, dificilmente alguém morreria por essas ideias. Exemplificando com o capitão náufrago que, por honra, afunda junto com seu navio, completou: "Hoje, no Ocidente, ninguém está pronto para morrer pelo casco do navio." No entanto, disse que arriscar a vida pelas pessoas amadas continua valendo a pena. "O amor pelos filhos fez surgir a questão de que mundo vamos legar a eles. Globalização, ecologia e educação, todas as questões atuais, se agrupam nesse foco."

Assim, segundo Luc Ferry, o que vemos nascer é um novo sagrado. "Nossa era é a do surgimento do sagrado de face humana. Isso muda todo o plano político. Os ecologistas foram os primeiros a perceber isso. A grande questão atual é a das gerações futuras: que mundo nós, adultos, vamos deixar para nossas crianças? Da ecologia à educação, todas as grandes questões políticas se reagrupam sobre esse novo foco de sentido."

De acordo com o filósofo, é exatamente este sagrado de face humana que retoma a preocupação com a ecologia nos dias de hoje. Consequência direta desse fenômeno é a ideia de sustentabilidade. É o mundo unido em favor da proteção do meio ambiente e da garantia de qualidade de vida das futuras gerações e de seus dependentes.

Assista, abaixo, ao vídeo exclusivo em que o filósofo explica o que seria a sabedoria do amor e a espiritualidade laica, aquela que ajuda o ser humano a lidar com as questões da existência para além da moral.