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A origem do ultraje

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Paul Bloom (foto: Big Think)
Paul Bloom (foto: Big Think)

Você sabe por que se sente tão ultrajado com questões morais que não lhe afetam diretamente? A mais recente (e polêmica) pesquisa da equipe do psicólogo canadense Paul Bloom comprova que o sentimento de indignação, nestes casos, pode estar mais ligado ao egoísmo do que ao altruísmo. “Nosso artigo ajuda a abordar um mistério evolutivo: por que uma tendência altruísta como o ultraje moral resulta de um processo evolutivo 'egoísta'? Uma parte importante da resposta é que expressar ultraje moral de fato lhe beneficia, em longo prazo, melhorando sua reputação", afirmam os pesquisadores de Yale e Harvard em Qual o sentido do ultraje moral?

Na primeira conferência do Fronteiras 2015, Richard Dawkins refletiu sobre como o egoísmo dos genes, que teria levado à evolução das espécies, poderia chegar ao altruísmo na espécie humana. “Genes egoístas levam animais, ocasionalmente, a serem egoístas enquanto indivíduos, mas podem levar animais a serem altruístas. Em particular, podem levá-los a serem altruístas em relação a parentes próximos e também a outros indivíduos que tenham a capacidade de devolver o favor. Essa é a base evolutiva dos humanos."

O estudo de Bloom dá um novo passo na busca da compreensão desta mudança: do egoísmo ao altruísmo. Os pesquisadores explicam que o propósito do estudo não é reduzir ou julgar as intenções das pessoas, pelo contrário, é compreender como a espécie humana desenvolveu a psicologia do ultraje e como ela funciona tanto em termos biológicos quanto culturais. Leia abaixo o artigo:

Qual o sentido do ultraje moral? | Por Jillian Jorfdan, Paul Bloom, Moshe Hoffman e David Rand*

Os seres humanos têm fome de ultraje moral. Você pode observar tal fato na vida pública – a condenação de Donald J. Trump por prometer banir os muçulmanos dos Estados Unidos, ou de Hillary Clinton, por seu envolvimento e proximidade com Wall Street, para mencionar dois exemplos próximos – e você vê isso na vida pessoal, onde criticamos amigos, colegas e vizinhos que se portam mal.

Por que ficamos tão irritados, até quando a ofensa em questão não nos diz respeito diretamente? A resposta parece óbvia: denunciamos malfeitores pois valorizamos a equidade e a justiça, pois queremos um mundo melhor. Nossa indignação parece altruísta por natureza.

E muitas vezes o é – ao menos conscientemente. Mas, em um artigo publicado na terça-feira (25/02), na Nature, apresentamos provas de que as raízes do ultraje são, em parte, egoístas. Sugerimos que expressar o ultraje moral pode servir como forma de propaganda pessoal: pessoas que investem tempo e empenho em condenar malfeitores são mais confiáveis.

Nosso artigo ajuda a abordar um mistério evolutivo: por que uma tendência altruísta como o ultraje moral resulta de um processo evolutivo “egoísta"? Uma parte importante da resposta é que expressar ultraje moral de fato lhe beneficia, em longo prazo, melhorando sua reputação.

Em nosso artigo, apresentamos experimentos teóricos e empíricos. O modelo envolve a teoria de “ costly signaling[1]", cujo exemplo clássico é a cauda do pavão. Apenas pavões machos saudáveis com genes de alta qualidade são capazes de produzir plumagens extravagantes, portanto essas caudas – precisamente pelo quão “intensas em recursos" elas são – funcionam como anúncios honestos da qualidade genética daquele pavão para seus potenciais parceiros.

Defendemos que o mesmo pode se aplicar quando punimos os outros por serem malfeitores, o que pode servir como sinal de confiabilidade. Considere isso: a confiabilidade compensa para você se os outros tipicamente reciprocam as suas boas ações ou lhe recompensam por bom comportamento. Isso inclui ser recompensado por promover um comportamento moral através da aplicação de punições.

Portanto, se você é alguém que acha que ser confiável recompensa, você geralmente acha o ato de punir menos custoso. Nosso modelo matemático mostra que, como resultado, escolher punir os malfeitores pode funcionar como uma cauda de pavão – se você pune o mau comportamento, eu posso deduzir que você provavelmente é confiável.

De forma a testar se as pessoas de fato seguem essa lógica, conduzimos experimentos nos quais sujeitos interagiam com anônimos na internet. Em nossos experimentos, um sujeito (o sinalizador) recebia uma quantia em dinheiro. Então, tinha a oportunidade de desistir de parte desse valor para punir alguém por ser egoísta. Nossos sujeitos se demonstraram imparciais: uma grande proporção de sinalizadores se dispuseram a pagar para punir atos egoístas, apesar de não terem sido maltratados pessoalmente.

Então, um segundo sujeito (o seletor) decidia se confiaria no sinalizador – depois de observar se o sinalizador havia ou não decidido realizar a punição. Essa decisão tinha consequências reais: se o seletor decidia confiar no sinalizador, ele ganharia dinheiro caso o sinalizador se demonstrasse confiável, mas perdia se ele não o fosse (de qualquer forma, o sinalizador era beneficiado se confiassem nele).

Descobrimos que os seletores tinham maior tendência de confiar nos sinalizadores que puniam o egoísmo, rendendo mais dinheiro aos sinalizadores em um longo prazo. E os seletores estavam corretos em confiar, pois os sinalizadores que puniram, de fato, se comportavam de forma mais confiável. Além disso, os sinalizadores tinham menor tendência a punir caso fossem oferecidos uma forma mais direta de aparentar confiabilidade (a saber, ajudar os outros diretamente). Juntos, nosso modelo e experimentos comprovaram a teoria de que expressar o ultraje moral pode servir para melhorar nossas reputações.

Lembrando que isso é uma teoria da evolução, não uma motivação consciente. Não significa que as pessoas que expressam ultraje estão deliberadamente tentando aparecer para os outros. Mas, de fato, cremos que essa teoria ajuda a explicar por que os humanos desenvolveram a psicologia do ultraje, em primeiro lugar.

Nossa teoria também explica por que as pessoas por vezes punem de formas que não fazem sentido, na perspectiva de beneficiar o bem maior. Por exemplo, a punição pode ser completamente desproporcional à ofensa percebida. Pegue o caso de uma mulher chamada Justine Sacco, que em 2013 tuitou um comentário sobre a AIDS na África – visto por muitos como racialmente insensível, mas por outros como uma piada irônica que não deu certo – e foi brutalmente atacada por milhares de estranhos ultrajados, tornando-a, por um tempo, o trending topic mundial número 1 no Twitter. Tendo ou não consciência disso, os atacantes estavam mais provavelmente divulgando aos seus seguidores que eles não eram racistas.

O ultraje moral faz parte da natureza humana. Mas é importante ter em mente que a punição que ele acarreta pode ser por vezes melhor explicada, não como uma reação justa e proporcional, mas como o resultado de um sistema que evoluiu para incrementar nossas reputações individuais – sem se preocupar muito com o que isso significa para os outros.

Jillian Jordan é estudante de pós-graduação, Paul Bloom é professor e David Rand é professor adjunto, todos no Departamento de Psicologia em Yale. Moshe Hoffman é pesquisador no Programa de Dinâmica Evolutiva em Harvard. Via The New York Times - série Gray Matter: science and society


[1] Nota do tradutor: segundo GOMES, Marta Filipa Baptista (2011), “De acordo com a costly signaling theory, a existência de motivos de status deve levar as pessoas a serem especialmente sensíveis acerca do que seus comportamentos podem significar para os outros quando seu comportamento é observável".


Interessado no trabalho de Bloom? Assista a esta ótima aula sobre o que é a Psicologia à Floating University
Interessado no tema? Assista abaixo ao vídeo com Richard Dawkins