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A utopia do amor contemporâneo

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"Amor", por Robert Indiana, no Philadelphia Museum of Art

Nas primeiras páginas da obra O paradoxo amoroso, o filósofo francês Pascal Bruckner usa uma frase do escritor irlandês George Bernard Shaw para resumir suas ideias sobre o amor: "Há duas catástrofes na existência: quando nossos desejos não são satisfeitos e quando eles o são".

Segundo Bruckner, os dois grandes desafios das relações atuais são o tédio e as tentações. A individualista sociedade contemporânea estaria "dividida entre o ideal de fidelidade e o apetite de liberdade", ambos sofrendo de um problema em comum: pretensões intangíveis sobre si mesmo e sobre o outro. Em entrevista à Época, diz Bruckner:

"Erigimos o amor e a felicidade como valores absolutos e nos desesperamos de não vivê-los absolutamente. No fundo, há uma desmesura nas sociedades ocidentais no desejo de ser feliz e de ser apaixonadamente amoroso. A felicidade e o amor são dois valores do cristianismo. É intrigante observar como em nossas sociedades modernas, largamente descristianizadas, sobretudo na Europa, os valores do cristianismo continuam a ser dominantes. Há uma bela expressão de G.K. Chesterton (escritor inglês do começo do século XX): 'O mundo moderno é repleto de antigas virtudes cristãs, tornadas loucas'. Isso é totalmente verdade no que se refere ao amor e à felicidade."

O amor é livre e, como tal, está no ar, fluindo por toda parte - mas isso não faz muito tempo, ao contrário do que sugere o barulho feito à sua volta pelo palavreado cotidiano e os meios de comunicação. Às pessoas convém lembrar que, até o início do século passado, os relacionamentos afetivos eram, em geral, rigidamente controlados pelos ordenamentos coletivos. A família, a igreja, a etnia e até o Estado impunham suas normas à maneira como homens e mulheres podiam se relacionar. A liberdade para amar quem desejamos, com base apenas na atração mútua, começou a surgir há pouco mais de meio século e, em muitas partes do planeta, ainda é desconhecida.

O fato de ter passado a ser assim é bom ou mau? As pessoas são, agora, mais felizes em sua vida afetiva? A resposta às perguntas não deveria ser linear. A prática do amor puro, exercido em condições de plena liberdade, pode ser tão custosa e desafiadora quanto a do relacionamento forçado e a convivência de circunstância que gravava nossa alma em um passado não muito distante.

A burguesia se projetou como classe, entre outros aspectos, ao promover a valorização do sentimento interior, autêntico e espiritualizado, e, assim, condenar a frivolidade com que, segundo seus porta-vozes, o amor era vivido na sociedade aristocrática. O amor se tornou, para ela, algo profundo e comprometedor, em que era preciso ter pureza de intenções e saber escutar a voz do coração — sem, contudo, desrespeitar as convenções sociais e os ordenamentos coletivos.

O resultado disso foi, como se sabe, a conversão de uma atividade lúdica, mais ou menos tolerada pelos costumes, desde que fora do casamento, em motivo esperado do bom matrimônio que, impossível de ser posto em prática pela maioria, rápido se tornou signo, às vezes patológico, da hipocrisia moral burguesa.

Por volta de 1900, o cenário, no entanto, começou a se alterar. Freud deu sinal de que esse arranjo se tornara insuportável. Apareceram movimentos políticos e sociais decididos a criar uma nova moral sexual, se não um novo cosmo amoroso. O amor livre passou não apenas a ser pensado pelos intelectuais, mas a ser posto em prática por setores cada vez mais amplos da sociedade. O movimento de emancipação política e jurídica da mulher, que lhe abriu a perspectiva da vida profissional, combinou-se com as reforma do mundo do trabalho, em meio a um novo ciclo de desenvolvimento do capitalismo, que levou o individualismo a prosperar entre as massas.

As pessoas começaram a se destacar dos velhos ordenamentos, adquirindo uma consciência do eu individual que, apesar dos percalços, lhes trouxe, em vários setores da vida, mais liberdade. A crescente preocupação com os assuntos amorosos a que se assiste desde então deve ser situada neste contexto, marcado pelo aumento da prosperidade, mas também por um crescente estranhamento entre os seres humanos.

Os sinais disso cada um vai aprendendo conforme amadurece, apesar de todo o treinamento romântico que, movido por um interesse mercadológico, promovem a literatura, o cinema e as artes populares. Os relacionamentos são livres e por eles não falta atração, mas paira hoje o sentimento de que estes se tornaram mais frágeis e difíceis. Os críticos se apressam em acusar o narcisismo vigente em nosso tempo por tanto, mas se equivocam, tomando o efeito pela causa - se é que não tomam por cotidiano do homem comum do nosso tempo o que não passa, de fato, de seu aspecto cosmético.

Vivemos em um sistema onde os principais estímulos nos movem no sentido da satisfação egoísta e que, por isso, tende, na prática, a dificultar o desenvolvimento das competências com que se poderia cultivar o tipo de relacionamento que o amor exige, uma vez posto em situação de liberdade. O fato de isso torná-lo ainda mais desejado e sedutor, predispondo-o à exploração como mercadoria barata pelos meios de comunicação, é apenas um indício do problema maior que deriva da ideia de que talvez não amar seja a regra em uma sociedade onde, menos que descartáveis, nossa condição é a de acessórios uns para os outros.

O amor se emancipou das cadeias que o prendiam às autoridades tradicionais e, assim, adquiriu a condição de direito universal, que atravessa nossas vidas como fluido mágico prometedor de uma felicidade extraordinária. O problema consiste em saber como vivenciá-lo em meio a uma sociedade que, incentivando o individualismo e, em nosso caso, carecendo dos meios culturais que o atenuariam, obstaculiza o desenvolvimento de relacionamentos íntimos duráveis o bastante para trazerem a seus sujeitos estímulos, prazeres e admiração recíprocos.

Leia o artigo de Rüdiger no site da Zero Hora