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Alain de Botton: As religiões 2.0

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O isolamento e a separação são fortes características da contemporaneidade. Seja pelas telas ou pela falta de tempo, perdemos o sentido de comunidade.

Este é o diagnóstico do escritor e apresentador suíço Alain de Botton, mais conhecido como "o filósofo da vida cotidiana".

No Fronteiras do Pensamento 2011, De Botton propôs algo ousado (ao menos para os dias atuais): resgatar as mais valiosas lições da religião para preencher nossas vidas com o que foi deixado para trás.

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Como explica o curador do Fronteiras do Pensamento, Fernando Schuler, a tese apresentada por De Botton é simples: as religiões costumavam aproximar as pessoas. A perda de espaço das religiões convencionais e o crescimento da ciência e da razão teriam aumentado o vazio dentro das pessoas: algo que um retorno à espiritualidade poderia resgatar.

O que poderia ou deveria ser preservado da experiência religiosa, mesmo que tenha se perdido a crença, no sentido tradicional? O simples fato de compartilharmos um bom momento, ao cair da tarde, celebrando em conjunto a beleza da vida, constitui por si só algum tipo de vivência “espiritual”?

Estas lições podem nos oferecer algum sentido, algo próximo do que a religião um dia produziu, ou estaríamos diante de um simples momento de relaxamento, uma espécie de fast-food existencial, destituído de qualquer sentido de transcendência?

fronteiras do pensamento

As ideias propostas por Alain de Botton no Fronteiras podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atual

O livro reúne textos de especialistas brasileiros explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Logo abaixo, você lê as principais ideias de Alain de Botton, também apresentadas em seu livro, Religião para ateus. Acesse o site da Arquipélago Editorial para garantir a obra 21 ideias, à venda nas principais livrarias!



Alain de Botton | As religiões 2.0

As religiões são ótimas em ensinar não só por meio da mente, mas por meio do corpo, algo que esquecemos completamente na cultura secular.

Pensemos nos zen-budistas. Muito do zen-budismo fala sobre como a vida é frágil e curta, numa espécie de ternura, de doçura decorrente do reconhecimento de que você é mortal e de que todos ao seu redor são mortais. A bondade que vem de uma mortalidade mútua.

Existem incontáveis ensaios e livros a respeito. Mas os zen-budistas também acham que às vezes deveríamos sentar com um grupo de amigos e tomar uma xícara de chá para repassar essas mensagens.

É a famosa Cerimônia Zen-Budista do chá. Uma ideia profundamente encantadora.

Xícaras de chá são preparadas de forma ritual, de modo que uma lição de filosofia ganha força adicional pelo consumo de uma bebida.

Essa combinação de comida e bebida e ideias é preciosa na religião, e nós a esquecemos completamente.

Somos tão materialistas que vemos a comida como algo adorável que satisfaz o estômago: perdemos completamente a ideia de que a comida deveria fazer parte de uma lição.

Na religião, não apenas o apetite é usado, o corpo inteiro é usado. Você sabe como é quando vai tomar um banho e você se senta na água morna, você se sente renovado, e às vezes você até sente um pouco de otimismo sobre a vida. As religiões pegam esse momento e o ritualizam.

Na religião judaica, todas as sextas, se você for um judeu ortodoxo, há um banho ritual especial chamado Mikvá, muitas vezes num lugar belíssimo; você entra na água, submerge totalmente e sai se sentindo mais limpo, não apenas fisicamente, mas psicologicamente — bela combinação de uma lição psicológica moral e um ato físico.

Outra coisa realmente interessante sobre as religiões: elas são maravilhosas na criação de um sentimento de comunidade. Hoje, as pessoas dizem coisas como: existe uma resposta moderna à comunidade, é a rede social, é o Facebook.

O Facebook é ótimo, mas o problema é que, na verdade, ele não forma comunidades. No Facebook, você diz do que você gosta, eu gosto de dançar, eu gosto de futebol, então a máquina nos agrupa com outras pessoas que gostam das mesmas coisas. As religiões são mais interessantes.

Elas acreditam que uma verdadeira comunidade não nos faz conhecer pessoas das quais já gostamos, com as quais temos muito em comum. O verdadeiro desafio é fazer com que você conheça pessoas das quais você não gosta, que parecem um pouco estranhas, assustadoras, mas vivem perto de você.

Isso é comunidade. O encontro entre pessoas que desconfiam umas das outras. As religiões são maravilhosas como anfitriãs. É como quando você vai a uma festa. Talvez não no Brasil, mas na Inglaterra todo mundo fica parado, ninguém conversa, todos com seus drinques, e é um pouco triste.

Mas às vezes há grandes anfitriões. E o anfitrião diz: ‘Ei, converse com tal pessoa’. De repente, todos estão conversando. E a religião, sem nenhum desrespeito, é um anfitrião gigante.

O mundo moderno não tem muitos anfitriões. Temos vários lugares aonde você pode ir para estar com pessoas. Temos pouquíssimos agentes de apresentação.

Para resumir: o que é ateísmo 2.0? Mesmo que você não acredite que a religião seja tão rica em lições interessantes, se você estiver em qualquer atividade que envolva pessoas, observe como as religiões reúnem as pessoas. Se você trabalha na indústria do turismo, observe as peregrinações.

Se você atua no mundo da arte, veja como a religião trata a arte. Se você lida com educação, veja como as religiões não apenas escolhem o currículo para nos orientar, mas também fornecem informações para que sempre lembremos.

As religiões são simplesmente complicadas demais, interessantes demais, úteis demais para que as deixemos apenas às pessoas religiosas.