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Alain de Botton: por que não nos contentamos com uma vida comum?

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Por Júlia Corrêa 

Para uma parcela da sociedade, a pandemia suscitou reflexões sobre como encontrar sentido no cotidiano. Diante da reclusão e da vulnerabilidade a que ela nos expôs, houve quem buscasse sair do modo automático para repensar prioridades da vida, dedicando mais atenção, por exemplo, à saúde mental em detrimento de ambições profissionais. O momento, assim, parece propício para se trazer à tona um importante questionamento do filósofo suíço Alain de Botton, conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2011. Em vídeo publicado em outubro do ano passado, ele faz a seguinte indagação: por que não nos contentamos mais com uma vida comum?



Autor de obras voltadas ao grande público, como As Consolações da Filosofia (2000), A Arquitetura da Felicidade (2006) e O Curso do Amor (2016), Botton é conhecido por estimular esse tipo de reflexão acerca de questões muito vinculadas à experiência cotidiana. Não por acaso, é fundador da The School of Life, organização voltada ao aprimoramento da inteligência emocional de seus seguidores.

Neste vídeo recente, ele aborda um comportamento que se tornou recorrente no mundo contemporâneo e que, nos últimos tempos, felizmente, tem gerado debates sobre nossos limites físicos e mentais. Trata-se, segundo o filósofo, da autocobrança para sermos extraordinários em tudo, o tempo todo. Para Botton, essa atitude tem relação íntima com uma mensagem originada e difundida na sociedade americana, que, na visão dele, é bela, mas também perigosa — a ideia de que, com esforço, qualquer indivíduo pode ser e alcançar o que quiser. Para ilustrar esse cenário, ele cita a proliferação de livros que prometem mostrar como se tornar rico ou obter sucesso da noite para o dia. 

No entanto, argumenta Botton, trata-se de uma noção ilusória, uma vez que esse êxito se dá apenas entre uma parcela muito restrita da população (frequentemente envolvendo altas doses de sorte). E é daí que advém o sofrimento para a maioria: “Se você realmente acredita em um mundo onde pode fazer qualquer coisa, mas entrega apenas o essencial, você se sentirá arrasado, e as possibilidades de humilhação serão maiores”, avalia ele. Intimidados por essa ideia, acabamos por entrar num ciclo de baixa autoestima, sentindo-nos culpados por não darmos o nosso “melhor”.


Além de todas as consequências negativas no âmbito privado, esse tipo de pensamento, de acordo com o filósofo, faz com que desvalorizemos conquistas fundamentais obtidas pela humanidade ao longo dos séculos. Desse modo, a despeito da incomparável média de conforto material registrada hoje, “colocamos uma cobra no gramado e arruinamos o paraíso que nossos ancestrais construíram, dizendo a nós mesmos que, na verdade, a vida comum não é boa o suficiente.”

Vale notar que, com essa reflexão, Botton não está pregando o comodismo. O que importa a ele é o alerta de que esse padrão de insatisfação e autocobrança pode ser torturante em muitos sentidos e até mesmo ter consequências trágicas, no que considera uma epidemia de mal-estar mental. Para o filósofo, precisamos difundir uma nova mensagem: a de que não há problema em errar e em ser uma pessoa comum. Com isso, diz ele, devemos lembrar que “alegria não é ganhar 10 milhões de dólares; é poder beber com um amigo, ter uma refeição que acabe bem, terminar o dia sem que ninguém tenha morrido, em que não tenha havido nenhuma crise.”

Apoio cotidiano

Além das sugestões acima, Botton parece ter outras lições úteis para lidarmos com esse tipo de ansiedade. No livro Arte Como Terapia (2013), escrito com o filósofo britânico John Armstrong, ele defende a apreciação da arte como uma verdadeira ferramenta de apoio na superação de nossos conflitos. A publicação, aliás, originou uma plataforma que, de acordo com o sofrimento manifestado pelo usuário, direciona-o para a reprodução de obras de arte relacionadas a suas angústias, exibidas com um texto complementar.  

Já em sua conferência para o Fronteiras do Pensamento, com base em seu livro Religião Para Ateus (2011), o filósofo defendeu, em sentido semelhante ao da arte, uma atitude ao mesmo tempo respeitosa e herética com as religiões. Sua recomendação é que tomemos as partes boas de certos rituais religiosos e as apliquemos em nosso cotidiano, independentemente de qual seja nossa fé. As religiões, em sua visão, são abertamente didáticas em sua missão de orientação e de consolo para a vida, ao contrário de espaços como as universidades, que relutam em aproximar o conhecimento de questões que afetam profundamente o nosso dia a dia.

Em seu livro, ele nos lembra que as religiões foram inventadas precisamente para nos ajudar a lidar “com aterrorizantes graus de dor, que surgem da nossa vulnerabilidade ao fracasso profissional, a relacionamentos problemáticos, à morte de entes queridos e a nossa decadência e morte”. Assim, ao nos sentirmos culpados por não termos uma vida extraordinária, podemos lembrar, entre outras sugestões de Botton, das lições do Livro de Jó, que, segundo o autor, mostra como “não deveríamos interpretar sempre a dor como punição” e que “vivemos em um universo cheio de mistérios, dentre os quais os caprichos do nosso destino certamente não são os maiores e nem mesmo estão [...] entre os mais importantes.”



* Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)